Temos novo presidente da Câmara. Temer saiu vitorioso, como era de se esperar. E saiu duplamente vitorioso: o candidato das atuais oposições não chegou ao segundo turno, e no segundo turno Temer se vê livre das pressões do Centrão, um monstro que ajudou a parir e que usou enquanto lhe foi útil até chegar à presidência interina que logo será definitiva, pois ninguém mais acredita que o Senado vá julgar o processo em bases jurídicos. E rei morto, rei posto! Agora é negociar com Temer.
Por algumas horas do dia de ontem, o PT readquiriu certa dignidade! Isso depois de uma reunião que durou mais de cinco horas porque havia um grupo, capitaneado por Lula, que queria submeter-se imediatamente à candidatura vitoriosa, louquinha por algum carguinho… que fosse qualquer coisa, mas daria “governabilidade à oposição”. Deputados sairam da reunião irritados com o apoio à candidatura do ex-ministro de Dilma e que foi contra o impeachment até o final. Mas logo perderam a irritação: seu candidato foi para o segundo turno, e então como manada, o PT apoiou DEM. Apoiou um dos deputados mais entusiasta pelo impeachment! Que nome dar a isso? União pela cassação de Eduardo Cunha? Conversa para boi dormir. Eduardo Cunha será cassado de qualquer modo, mas num largo tempo de tramitação de um processo cujo fecho já se sabe qual será. É o boi de piranha que Temer já entregou para mostrar que não só políticos do PT podem ser julgados por Sérgio Moro e pela Lava Jato. Será o único. Se esta razão de apoio ao DEM não justifica o apoio, o que justificará? Teremos pela frente um apoio ao governo Temer? Um blocão constituído por PSDB + DEM + PPS + PT + PSD? A oposição ficará com o PDT, PC do B e PSOL? E o Centrão se vendendo a cada voto, se necessário. Mas com uma base parlamentar da ordem do novo blocão que elegeu Rodrigo Maia, o centrão voltará ao que sempre foi: o baixo clero sem voz na república, arrebanhado por Eduardo Cunha e levado ao protagonismo do impeachment com o entusiasmo dos partidos com que agora, neste momento, se aliou o PT como se não tivesse sido uma líder sua que tivesse sofrido o impedimento ilegal.
Cada vez estou mais convencido de que o impeachment não tem retorno. Depois que ouvi o Paulo Henrique Amorim, do Conversa Afiada, dizendo alto e bom som que Dilma é mal agradecida, pois até agora não telefonou para qualquer senador que a apoiou na votação da aceitação do processo, como também não telefonou para nenhum senador que está indeciso, depois de perceber as repercussões internacionais deste processo ilegítimo, porque ela parece não querer sair vitoriosa no turno de votaçao final do impeachment. Enquanto os militantes e os democratas lutam por ela, ela não luta por si… Como disse o Amorim, parece que ela quer voltar para Porto Alegre, escrever uma auto-biografia heroica para ler para seus netos…
Neste clima de Lula querendo resolver um problema de Temer – livrá-lo do Centrão – e Dilma sequer tentando convencer senadores de que não cometeu crime de responsabilidade, como pode a militância lutar pelo retorno ao processo democrático?
Provavelmente a resposta virá nas eleições para as prefeituras em outubro próximo. Algum militante, neste clima em que até se fala em elogios ao governo Temer nas hostes do que deveriam ser oposição fechada, terá agum militante coragem de fazer campanha, passar de lado com os escândalos, deixar-se bater por ideais políticos há muito abandonados pelas lideranças do partido? Não estou dizendo que não sobrou ninguém dentro do PT. Há gente boa no partido de que já fui ferrenho defensor. Mas há gente boa em outros partidos também, até na direita honesta, da qual me afasto por absoluta incompatibilidade ideológica…
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

Comentários