Vá se queixar ao Papa

A crer no deputado José Carlos Araújo, presidente da Conselho de Ética da pouco ética Câmara dos Deputados – não que não tenha sobrado algum gato pingado que prefere a ética ao poder barato da barganha e compra – até mesmo o Procurador Geral da República acha que não há saída para o poder tentacular de Eduardo Cunha. Houve a décima mudança de membros que compõem o conselho, desde que se iniciou o processo contra o coveiro de Dilma. De mudança em mudança, chegou-se ao empate: 10 são a favor da cassação do mandato, dez são contra a cassação. O voto de minerva caberá ao presidente, que é a favor da cassação. Mas nas barganhas protelatórias, até que se componha um quadro salvador do bem comportado Eduardo Cunha, está o próprio relatório que pede a cassação. Ao incluir no relatório referências à Lava Jato, o relator sabe que o Conselho estará opinando sobre o que vai além daquilo a que foi chamado para opiniar. Consequência: haverá recusa em outros órgãos do relatório, de modo que voltará tudo a estaca zero.

Queixando-se das manobras a Rodrigo Janot, este manda o presidente do Conselho se queixar ao Papa. Situação política e institucional muito interessante: não há recurso. E isso com um Eduardo Cunha afastado do mandato e da presidência da Câmara! Afastado, como se sabe, porque Teori Zavacki ficou com medo de que holofotes se virassem para Marco Aurélio de Mello, seu colega do STF.

Na verdade, Eduardo Cunha entregou a mercadoria que lhe cabia entregar: a autorização para que o Senado julgue Dilma Rousseff. Cumprido o trabalho, tornou-se dispensável para os golpistas. Dispensável? Não. Dispensável só formalmente, já que tinha que se dar “ares de moralidade” ao impeachment, o combate à corrupção, mesmo cassando o mandato sem qualquer prova de corrupção da Presidente. Eduardo Cunha foi, era, é e será o exemplo prototípico do corrupto para toda a sociedade brasileira. Então, veio o afastamento provisório depois de entregue a encomenda. Só que o dito não é besta: manteve seus tentáculos e continua a comandar a Câmara, e a impor ao Temerbroso seus indicados em pontos-chave da administração do golpe, dentro do Palácio.

Mas estes “ares de moralidade” estão ruindo como um castelo de areia: a cada momento, na subida da maré, uma onda aparece e vai derrubando aquilo que foi arquitado para engambelar trouxas que foram para as ruas achando que eram apartidárias as manifestações que faziam, ainda que o movimento que as convocasse fosse financiado pelos partidos interessados no impeachment. Todos não sabiam, já que todos sabiam disso.

Enquanto o castelo se vai, o projeto é salvar dedos e aneis. Sem perder nada. Então é preciso barrar a cassação de mandato dentro da Câmara, sem chegar ao plenário para não constranger companheiros tão altruistas. Mude-se o Conselho de Ética. 

Enquanto o castelo se vai, brigue-se com jornalistas do exterior – como fez José Serra brigando com Lúcia Müzzell, da Rádio França Internacional – para proibir o uso da expressão ‘golpe’, que fere os ouvidos moucos da ministra Rosa Weber. 

Enquanto o castelo se vai, o jornalismo de comentário isento, em crônicas assinadas por pessoas tão puras como Dora Kramer e Elaine CASTAnhêde, dizem que se é ruim com Temer, pior é sem ele. Na expressão, já admitem que o Temerbroso é ruim… uma confissão pública, e uma opção política medíocre, do ‘um pouco melhor’ do que o pior: o ruim. 

Enquanto o castelo se vai, chame-se ao Palácio Jaburu nosso juiz da suprema corte apequenada por sua presença, para que garanta, no caso improvável de mudança de rumos de uns poucos votos dos senadores, a permanência do transitório através do TSE, como Gilmar Mentes desmembrando o processo contra a chapa Dilma/Temer para isentar Temer. Os recursos para a mesma campanha, são impuros para Dilma, são de pó puríssimo para Temer. Salvam-se dedos e aneis.

Enquanto o castelo se vai, os tucanos neoliberais assanham-se em voos apressados para entregarem regularmente a encomenda feita do exterior: há que privatizar imediatamente tudo o que for privatizável: Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Petrobrás, quem sabe o BNDES, etradas, saúde, educação. Afinal, o livre trânsito das pessoas, a saúde, a educação são bens, e bens somente podem tê-los aqueles que os pagam, que os compram. É assim que ensinam os Chicago boys. Afinal, falando sobre o último livro coletivo do grupo, um deles veio a público dizer que o problema econômico do Brasil é o gasto com políticas públicas. Esta sangria deve ser estancada. É esta ‘sangria’ que interessa efetivamente estancar, Romero Jucá. Você estava querendo estancar apenas sangrias pequenas, aquelas das corrupções diárias… Os Chicago boys querem estancar a vida, para que os lucros sejam maiores. Afinal, como disse o Temerbroso, nos últimos anos a política brasileira olhou para os pobres, e esqueceu que é o lucro que importa porque é o lucro que faz a alavanca do desenvolvimento!!!!

Enquanto o castelo se vai, o PIG escreve editoriais: nada de torcer contra. Isso é contra o Brasil. Mas não diz de que Brasil se trata!!! Obviamente, trata-se do mercado, que no Brasil significa Bradesco (cujo presidente está sendo indiciado por sonegação e compra de pareceres para poder sonegar), Itaú, Santander e alguns outros fundos administrados por Armínios Fragas e Mendonças de Barros.

Enquanto o castelo se vai, habituemo-nos a uma mudança de vocabulário. O que antes era “despenca” hoje é “cai”; o que antes eram “índices assustadores da queda da atividade econômica” hoje são “os índices ainda não melhoraram”; o que antes era “o mercado não regaiu conforme o esperado” diante das profecias dos corvos de que era exemplo prototípico Sanderberg em seus comentários no Jornal da Globo, agora se tornou “o mercado gostou das meidas mas espera seu aprofundamento, espera mais ainda”. Em síntese, o que antes “era o fim, era o fundo do poço”, agora é o “ainda”, que como sabem os analistas de discurso e os semanticistas, é um introdutor de reversão de expectativa. Quando dizemos “o Temerbroso ainda está no governo” é porque tínhamos a expectativa de que não estivesse mais, afinal usurpadores têm vida breve, e o Temerbroso será conhecido como “Temer, o Breve”.

E que o retorno de Dilma seja breve, e que ela seja ousada: encaminhe ao Congresso projeto de convocação de eleições gerais. E que os votantes tenham presente: a eleição dos parlamentares é mais essencial do que as eleições do executivo. Para o parlamento, não dá para reconduzir os mesmos sobrenomes da nossa política desde que o país existe como país, os membros das clãs que sempre viveram da exploração do trabalho dos outros.  

 

 

 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.