Evitei até agora falar sobre o projeto de “uma escola sem partidos”, um projeto apresentado, obviamente, por um parlamentar do PSDB. Até pouco tempo, a escola – incluindo a universidade – vinha sendo criticada por não levar em conta a realidade efetiva em que vivem os estudantes e a sociedade brasileira. Seus conteúdos, recortados e selecionados do conjunto de conhecimentos produzidos ao longo da história nas mais diferentes disciplinas, seleção muitas vezes a cargo de uma tradição que se perde num passado longínquo e que faz com que professores e alunos estudem sem saber o que fazer com que estudam – quando não estudam conhecimentos já ultrapassados pela pesquisa científica -, isto tudo sempre foi duramente criticado. As universidades recebiam até o apodo de “torre de marfim”, expressão de gosto da imprensa que prefere a burrice do que a inteligência.
Pois todas estas críticas eram vãs! Inadequadas! Impróprias! Mais de cem anos desenganos. Até Rui Barbosa, que um dia escreveu que o estudante que consegue se ver livre do pó da escola poderá inventar coisas boas, escrever bem, etc, pois até ele estava enganado!
Depois de uma escola alheia a seu entorno mas extremamente eficaz como aparelho ideológico – nada mais significativo desta alienação do que a não escuta dos seus alunos, a cegueira a seus problemas e o descarte de qualquer fato do cotidiano em benefício do programa previsto. Depois de uma enchente na cidade, o tema da aula há de ser a leitura de “Meu cão veludo” ou, pior ainda, estudar a definição de substantivo como a palavra que designa os seres (casamento é substantivo, e é algum ser?). Nada de discutir questões ecológicas que levam a enchentes! Isto é partidarizar a escola, porque quem está no poder se sente atingido por discussões desta ordem.
Assim alheada e ilhada, a escola teve seu sucesso: produziu evasão e produziu sujeitos que dizem de si mesmos que “não nasceram para os estudos”.
A pedagogia, as teorias pedagógicas, os agentes educativos, todos começaram a perceber que não dava para continuar a ser este eficiente “aparelho ideológico” à medida que os bancos escolares foram sendo ocupados por filhos de pais não convidados para os banquetes da classe dominante. A educação escolar, de distinção social passou a direito de todos. E para chegar a todos, reconheceu seus erros, aceitou as críticas a seu alheamento e isolamento, revisou conteúdos, atualizou os estudos. Seus professores foram para a universidade. Somente nesta profissão de professores, e precisamente no Brasil, houve um salto de escolaridade impressionante em apenas uma geração: de pais pouco escolarizados, quando não escolarizados de todo, seus filhos professores ostentam hoje título superior. Tudo estava caminhando para uma melhoria da qualidade da escola. O governo do mesmo partido do parlamentar da “escola sem partido” elaborou os Parâmetros Curriculares Nacionais. Introduziu os temas transversais, fez uma revolução no papel. Os agentes educativos foram atrás e tentam com esforço por em prática o previsto na legislação que então pretendia uma escola moderna e adequada a nossos tempos.
Contrariando este movimento, o projeto “escola sem partido” (de um membro do mesmo partido que elaborou os PCNs) contradiz tudo, põe tudo no lixo. Quer de volta a velha escola do século XVIII. Talvez e preferencialmente uma escola confessional que ensine que qualquer resistência aos desígnios sociais é pecado mortal!
E com a escola sem partido não serão somente as disciplinas das ciências sociais que sofrerão censura. Como se sabe, o PSDB detesta História e Geografia. Acontece que com o emudecimento da escola e de seus professores, obras clássicas 0omo O Cortiço ou Vidas Secas serão proibidas. Até O Tempo e o Vento de Érico Veríssimo será censurado. Nem se fale nos autores contemporâneos.
Tenho para mim que os contos de fada também não poderão ser lidos nem na educação infantil nem nos primeiros anos do ensino fundamental. Afinal a luta de classes entre a bruxa e a fada é um péssimos exemplo para as mentes infantis. O Lobo Mau está proscrito porque ele pode representar a ganância e a voracidade de certes segmentos sociais (tipo banqueiros, por exemplo). Os Três Porquinhos serão esquecidos para sempre. Imaginem só, ensina que casas de palha ou de madeira são pouco resistentes ao avanço do sopro do lobo voraz. Que os fracos precisam se unir e construir ums resistência mais sólida. Imaginem só que disparate um texto que tal. Logo virá o anátema patrocinado por esta direita asquerosa que assumiu o comando da nação!
Excluídas as disciplinas de História e Geografia, passa-se a excluir também a Literatura, a leitura e muito brevemente a escrita, porque aprender a escrever pode ser muito partidário. Estes sujeitos que escrevem poderão elaborar textos e fazerem com que circulem nesta invenção diabólica que são as redes sociais, a internet. Onde já se viu. Levando um pouco mais a sério, a escola sem partido será o mundo sem escola! Afinal, não é bom que as pessoas sejam alfabetizadas, saibam ler a realidade, tentem compreender o que vivem! Com a escola sem partido, parte-se a escola. Torna-a cega, surda e muda!
O próximo passo será: fechemos as escolas públicas. Educação e saúde não são direitos, mas bens que somente podem ser adquiridos por quem possa pagá-los. Este é o projeto subreptício, real e inabalável do PSDB e dos golpistas que nos governam.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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