Um passado inalterável manufatura um presente imutável

Tomo como título um enunciado proferido pelo historiador Andrew Wheatcroft em seu estudo sobre “o conflito entre a cristandade e o Islã”. Vivendo um presente pouco propício à reflexão, porque nele as paixões ressurgem com firmeza, pois somos seres humanos e como tais associamos razão e sensiblidade e desde sempre sabemos que é a sensibilidade que leva a mudanças nas estruturas sociais, chame-se ela paixão, ideologia ou interesse, nada melhor do que rever a história, recontá-la para extrair outros sentidos com os quais manufaturar um presente mutável para construir um horizonte de futuro social mais justo, mais equilibrado, de maior felicidade para todos.

Neste revirar o passado, podemos encontrar o que o sociológico Boaventura Souza Santos chamou de “sonhos abortados”. O que foi no passado esquecido, posto de lado, pode fazer recompreender os fatos do presente e encontrar para eles algumas saídas.

Reconheçamos ou não, vivemos no Brasil um clima de golpe institucional. Defender os resultados das eleições, independentemente do apoio ao modo como orienta o governo a presidente Dilma neste seu segundo mandato, é reconhecer um valor fundamental das sociedades democráticas. Como se sabe, o julgamento de impeachment é um julgamento político, não um julgamento com base em fatos. É um julgamento com base em versões. E a versão predominante é aquela abraçada pela opinião publicada. Entre nós, a opinião publicada está nos meios tradicionais de comunicação. A opinião pública está nas redes sociais, e estas estão divididas, fazendo aparecer uma cisão que corta a sociedade brasileira: aqueles que não querem abrir mão de suas vantagens históricas e aqueles que lutam por uma mudança nos modos de apropriação da riqueza nacional. São, queiram ou não, interesses de classe. E a existência de classes é inerente ao sistema de produção a que chegamos num longo processo histórico.

Como buscar “sonhos abortados” e alterar os sentidos do passado? Este “escovar a história a contrapelo” (Benjamin) é uma tarefa coletiva, em que contribuições diversas e compagináveis podem desenhar uma provisória síntese, na qual se aposta no presente para construir um futuro em que outras sínteses aparecerão. Nada na história é fixo, imutável. Nem a natureza é imutável, como imagina a forma de sua exploração no sistema em vivemos nos últimos séculos.

Busco então um sonho perdido numa antiga campanha eleitoral para a presidência da república. Quando o jogo sujo se tornou o centro da campanha do “caçador de marajás” inventado pela rede Globo, Lula sustentou a posição de que “baixar o nível” não era admissível. Jânio de Freitas, em texto que introduz sua mensagem à Lurian (apresentada paradoxalmente como a filha não reconhecida e que ao mesmo tempo tem um nome composto com o nome do pai e da mãe), relembra que “Começou cedo o conflito vivido por muitos.  De uma parte, percebima com nitidez a impossibilidade ética de votar em candidatos que lhe sseriam ideologicamente mais promissores, por sua origem social, por seus compromissos de classe, por suas adjacências políticas. De outra parte, temiam votar naqueles que não lhes suscitavam reprovação ética, mas não lhes protegiam os interesses. As semanas que antecederam o segundo turno [1989] foram a explosão deste conflito interior. Não houve quem tivesse defendido, ou pelo menos justificado, os métodos utilizados por Fernando Collor de Mello. Mas todos os que nele votaram com consciência e autonomia – o que exclui os degradados sociais – fizeram a sua opção entre a Ética e o interesse subalterno, material. E sabem que o fizeram. E depois desta tomada de consciência de si mesmos, ninguém continua tal como era antes.”

Ora, são precisamente aqueles que votaram contra a Ética, lastreados em seus interesses materiais, que hoje berram pela Ética. Uma mudança radical de postura, ou uma impostura? Do outro lado, aqueles que representavam a Ética, três campanhas depois para se elegeram apontaram para a conciliação desta (a Ética) com os interesses que a contradiziam (a ganância do lucro e o interesse meramente material). Neste jogo conciliatório, que exigia uma governabilidade a qualquer preço, a Ética que sustentara a campanha de 1989 foi para o brejo com os novos companheiros a que tiveram que se abraçar. Fazer vista grossa a passados escabrosos (casos de Maluf, Severino Cavalcanti, Delcídio do Amaral, entre outros) levou o partido da Ética à vala comum dos demais partidos, como afirmou Olívio Dutra.

Duas lições são fundamentais: primeiro, a conciliação e a governabilidade a qualquer custo não é digna da Ética. Melhor perder aneis e dedos sem deixar levar a alma que anima a paixão, anima a ideologia, anima um partido; segundo, a revisão do passado (a autocrítica) é fundamental para reavivar sonhos abortados e para eles investir razão e sensibilidade. É a liderança de um Lula de 1989, que não quis responder com baixaria à baixaria collorida dos meios de comunicação social, que o Brasil de hoje está precisando para dar fim ao avanço dos interesses inconfessáveis que fazem uma força tarefa como a da Lava Jato abandonar a trilha dos milhões lavados por empresa panamenha a que está associada a Rede Globo, para preocupar-se com pedalinhos e canoas. E pasmem: com uma antena de celular da OI, construída num sítio vizinho àquele a que a sanha investigativa seletiva que abocanhar. A grande falta de ética, interior ao sistema, não interessa investigar; os pecadilhos éticos daqueles que não nasceram em berço de ouro, estes sim merecem investigação. É nosso velho sistema: um ladrão de um pão será sempre perseguido e gradeado; o ladrão de milhão será sempre reverenciado. Bom tempo para reler “Os Miseráveis” de Vitor Hugo. 

 

 

 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.