Um domingo com Augusto dos Anjos

Como os tempos são temerbrosos, e uma nuvem tétrica sobre nós paira conduzida não pelo vento mas pelas mãos rígidas do PMPJ (Partido do Ministério Público e do Judiciário), acolitado pela PF e pelo PIG, nada melhor do que retornar ao “círculo tétrico” das tertúlias da juventude, lembrando alguns dos poemas declamados então por Olívio Dutra e Flávio Bettanin na distante São Luiz Gonzaga (RS). Eles me ensinaram a gostar de Augusto dos Anjos, o poeta que publicou “Eu” e muitos obros poemas na imprensa que foram recolhidos por Castro e Silva. Juntos constituem a obra “Eu Outras Poesias Poemas Esquecidos“, o conjunto da obra do poeta (manuseio a 31a. edição da Livraria São José, de 1971).

A IDEIA

De onde ela vem?! De que materia bruta

Vem essa luz que sobre as nebulosas

Cai de incógnitas criptas misteriosas

Como as estalactites duma gruta?!

 

Vem da psicogenética e alta luta

Do feixe de moléculas nervosas,

Que, em desintegrações maravilhosas,

Delibera, e depois, quer e executa!

 

Vem do encéfalo absconso que a constringe,

Chega em seguida às cordas da laringe

Tísica, tênue, mínima, raquítica…

 

Quebra a força centrípeta que a amarra,

Mas, de repente, e quase morta, esbarra

No mulambo da língua paralítica!

 

BUDISMO MODERNO

Tome, Dr., esta tesoura, e… corte

Minha singularíssima pessoa.

Que importa a mim que a bicharia roa

Todo o meu coração, depois da morte?!

 

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!

Também, das diatomáceas da lagoa

A criptógama cápsula se esbroa

Ao contacto de bronca destra forte!

 

Dissolva-se, portanto, minha vida

Igualmente a uma célula caída

Na aberração de um óvulo infecundo;

 

Mas o agregado abstracto das saudades

Fique batendo nas perpétuas grades

Do último verso que eu fizer no mundo!

 

IDEALISMO

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!

O amor na Humanidade é uma mentira.

É. E é por isso que na minha lira

De amores fúteis poucas vezes falo.

 

O amor! Quando virei por fim a amá–lo?!

Quando, se o amor que a Humanidade inspira

É o amor do sibarita e da hetaíra,

De Messalina e de Sardanapalo?!

 

Pois é mister que, para o amor sagrado,

O mundo fique imaterializado

– Alavanca desviada do seu fulcro –

 

E haja só amizade verdadeira

Duma cabeira para outra caveira,

Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!

 

VERSOS ÍNTIMOS

Vês?! NInguém assistiu ao formidável

Enterro de tua última quimera.

Somente a Ingratidão – esta pantera –

Foi tua companheira inseparável!

 

Acostuma-se à lama que te espera!

O Homem, que, nesta terra miserável,

Mora, entre feras, sente inevitável

Necessidade de também ser fera.

 

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro,

A mão que afaga é a mesma que apedreja.

 

Se alguém causa inda pena a tua chaga,

Apedreja essa mão vil que te afaga,

Escarra nessa boca que te beija!

 

 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.