Naquela noite, ele tinha chorado muito.
Completava cem noites assim, cada uma equivalia há anos, mas agora mais rápido, e difícil. Tudo exigia muita agilidade, os que não fossem assim deviam se meter com coisas poucas, sob o risco de não cumprirem sua sina. Esses momentos repetitivos sempre lhe traziam lembranças e alguma outra história de seu amigo Fecho.
Ele não era pessoa de grandes feitos, mas tinha sempre muitas histórias. Como a do dia que tinha lhe ensinado a não ter lágrimas, e nisso estava certo, pois naquele tempo era preciso: secar por fora, para afogar-se por dentro.
Ademais, a água já era preciosidade, verter lágrimas em nome de confusão boba era como que cortar os pulsos de alguém, que já estaria morto de qualquer modo: – e serviria de que afinal?
Fecho não era dado a religiões, tampouco as igrejas e crenças. Não tinha sido assim sempre, ele dizia: – Algumas coisas não são opostas, outras até que são, é melhor ir observando e aprendendo.
A fresta de luz que inundava todo o quarto, e rompia o pensamento que se fazia longe. – Quantas manhãs ainda teria fé? Isso não sabia. E também não sabia a diferença entre incrível e inacreditável, conjecturou durante horas sobre isso, parecia mesmo que a resposta para tal questão teria a chave mágica, aquela capaz de transportar todas as coisas para o fantástico, até que nada daquilo fosse bom. Achava as pessoas, as coisas, incríveis. Já as ações eram inacreditáveis.
– Isso aconteceu pouco depois de trocar o seu enxergar do outro pelo espelho.
Talvez as duas palavras, assim uma do lado da outra: incrível e inacreditável, pudessem se anular… Já sabia que não é assim. Tem tempo que sabia tanto, e não queria saber. Antes, pensava se tratar da mesma coisa, ou o que aqueles homens das ciências chamariam de pertencentes ao mesmo campo semântico. Daquele modo as pessoas não entendiam o que tinha sido dito.
Em defesa de Fecho e de si, explicou que o errado não é o não certo. Existem vários caminhos. Era mesmo difícil isso de entender. Como aqueles que fazem algo, os que fazem nada, caminham na mesma direção, irmanados pelo fim que não se pode fugir. Nenhum, e ninguém, seria apartado. É o destino.
Para o amigo, era preciso tomar a fortuna nas mãos, foi à última frase que lhe ouviu, e pensou, ante sua miudeza, que o outro falava de dinheiro, tesouro, todavia a roda que fazia com os dedos, um giro horário e depois anti-horário era que os indicadores desenhavam no ar: o saber exato.
A roda gira e as coisas caem sem sair do lugar, e voltam: uma hora em cima, outra embaixo, sem equilíbrio nem nada, apenas se a roda é viva, e é gente.
Agora isso: sem crer ou acreditar, estava posto no lugar.
O amigo tinha saído, resolvido a dar conta de sua natureza, não se despediu nunca, tampouco tomou benção, para o que queria, reza não dava jeito, e, então, como era dado a novidades, fez coisa mais original quando segredou em voz firme:
– Não se aquiete que o tempo se demora, no sol daqui, esperar tanto adormece a esperança, e isso é a morte toda.
Tinha ainda aquela outra história de Fecho para contar, quem sabe outro dia.
Professora, militante, escritora
Mara Emília Gomes Gonçalves é formada em Letras pela Universidade Federal de Goiás. Gestora escolar, professora, militante, feminista, negra. Excelente leitora, escritora irregular. Acompanhe-a também em seu blog: LEITURAS POSSÍVEIS.
Comentários