Havia uma república: o povo escolhia seus governantes, mas o sistema começou a se tornar decrépito pelos custos cada vez mais volumosos para os candidatos apresentarem ao povo seus projetos, mais do isso, sua figura maquiada. Aí surgiu uma Fada Madrinha, benfeitora do país e de seu povo. E ela, que morava no Norte, começou a matutar uma saída para o impasse que se vivia naquelas terras. Pensou o que melhor seria iniciar com um processo transitório enquanto elaborava a solução definitiva.
Então lhe surgiu na cabeça treinar alguns membros incoformados com as escolhas do povo em suas escolas de ciências jurídicas. Como toda fada madrinha, esta também sabia de todos os segredos porque todos sabemos que não adianta esconder segredos das fadas e das bruxas. Assim, uma vez treinados os agentes, estes foram informados de tudo que se sabia no Norte e foram encarregados de iniciar a lavagem da república com bastante espalhafato. Havia muita gente que nunca tinha tomado banho e sentiu o frio dos jatos d’água. Então começaram a se reunir, reuniões todas previstas pela Fada Madrinha, pois era isso mesmo que ela queria. Nas reuniões discutiram como fazer para que os focos dos jatos só atingissem os “inimigos” da república, aqueles que achavam necessário distribuir riquezas em vez de somente acumulá-las. E conseguiram a adesão imediata dos agentes, e então começaram a surgir vazamentos por todos os canais. Com os vazamentos, o jato perdeu impacto e já não lavava a todos que por lava moravam.
Realizada esta primeira etapa, iniciou-se a segunda. Pensou a Fada Madrinha: “Há monarquia na Suécia; há monarquia na Dinamarca, na Inglaterra, em Mônaco, na Arábia Saudita, na Jordânia e em tantos outros lugares. Vou aplicar a monarquia como solução para esta república. Daí ela deixará de ser apenas produtora de bananas e babacas: terá que providenciar a confecção de coroas, mantos, tapetes, móveis de luxo, construir palácios. E todo o povo ficará ocupado. E todos ficarão alegres.” Pensou e logo começou a imaginar algum rei.
Surgiram-lhe quatro candidatos mais cotados. Eram pessoas que não conseguiriam virar presidentes da república e assim, com a monarquia, poderiam se transformar em reis. Haveria um Parlamento, como em toda a monarquia moderna, e o Parlamento indicaria o chefe de governo que o rei sacramentaria e sempre aconselharia. Bom, os três candidatos estavam acostumados a aconselhar, de modo que eram bons canidadatos.
O mais afoito na candidatura tinha um problema sério, segundo a Fada Madrinha. Muito careca, não correspondia à imagem de príncipe da cabecinha das moçoilas e dos moçoilos que andavam pelas ruas insatisfeitos. Além disso tinha olhos saltados e mirava as pessoas como quem pergunta: “Será que vocês não percebem que nasci predestinado a ser seu presidente, seu rei, seu manda-chuva?”. O candidato não era bom.
O segundo candidato fazia a cabeça das moçoilas todas: boa pinta, descendente de família nobre, vindo das gerais onde antigamente os nobres fizeram seu pé-de-meia explorando minas e hoje os exploradores de minério retiram o que há na natureza e afogam em lama o povo. Um lugar de beleza e de nobres. Este era o candidato mais próximo da figura desejada pela Fada Madrinha. Mas tinha um problema, o candidato era meio tonto e empoeirado. Só fumaça na cabeça. Nem com seus poderes PLIM PLIM a Fada Madrinha conseguiria fazer o milagre de tornar adequado para rei um tonto bonito.
O terceiro vinha em seu cavalo Pindamonhangaba. De origem meio humilde, mas sempre candidato a candidato. Bom moço, grande guarda-livros que fazia bater crédito e débito vendendo coisas para garantir esta contabilidade do zero a zero. Mas seu cavalo andava lendo, ao ritmo de 2 quilômetros por ano, o mesmo ritmo do metrô que vinha sendo construído há duas dezenas e que não avançava nunca. Lento demais para ser rei. Rei tem que ter cavalo fogoso, que troteia e corre. E que não derrube o rei, é claro. E acontece que os dois quilômetros anuais de metrô podem derrubar este candidato. Melhor não.
O quarto candidato era adequado. Um sábio jurista, ainda que jovem. Dividia seu tempo entre os emprendimentos como fazendeiro e como membro da Corte. Já tinha esta vantagem: acostumado à corte. Também já acostumado aos mantos, aos salamaleques próprios de uma monarquia vitalícia, ainda que não hereditária. Mas quase hereditária. A Fada Madrinha estava muito inclinada por este candidato. Nem precisaria fazer esforço e usar de seus poderes mágicos PLIM PLIM para dourar o candidato. Ele já estava dourado. Tinha inúmeros vassalos em suas fazendas: outra vantagem, porque um rei sem vassalos não é rei! E tinha outra coisa: ele jamais chegaria à presidência pelo voto do povo, mas sabia ludibriar o povo, o que é uma garantia a mais para a monarquia futura. Para a Fada Madrinha, estava escolhido o futuro rei da monarquia hereditária que se implantaria naquela república, que passaria então a se chamar O Reino.
Tudo planejado, aprovado o plano da Fada Madrina lá no frio Norte, na corte das fadas, quando um bruxo malvado começou a grasnar feito doido. Como haviam esquecido dele, o mais natural rei possível? Era ele de grande plumagem e enorme bico. É bem verdade que ao ser entrevistado por jornalista verdadeiros, e não por áulicos, levava um ferro danado e se perdia nas explicações inexplicáveis de seus apoios a golpes de estado, a ditaduras, a tudo que de ruim produz uma república. Ora, numa monarquia não há destas coisas, e então com que se ocuparia ele, tão já viciado em mexericos e jogo por baixo de lençois? Fora por isso, e não por ignorância, que a Fada Madrinha não o tinha posto na lista de reis possíveis.
Então surgiu uma solução para o projeto aprovado pelas autoridades fádicas do Norte. Num passe de mágica, o bruxo viraria a Rainha Mãe, e o rei que lhe é tão parecido no bico passaria por seu filho primogênito, e tudo ficaria resolvido. Como toda Rainha Mãe, também esta viveria no palácio, teria direito a vassalos, secretários, ministros e tudo o mais. Além de acomodações próprias em que poderia receber seus convidados para um brinde e reuniões. É bem verdade que o rei-filho teria que tomar muito cuidado com estas reuniões, porque sua coroa poderia voar de volta para a cabeça da Rainha Mãe.
Mas dentro do palácio tudo se resolveria internamente, sem que vazasse nada para os veículos de controle do povo.
E assim, postos em seus lugares, o primeiro candidato se tornou primeiro ministro; o segundo candidato se tornou embaixador plenipotenciário no Norte, o terceiro candidato assumiu o comando do tesouro do reino e o Rei com sua corte vivia em palácio.
Logo os sinos das catedrais anunciaram que havia um herdeiro do trono… e todos já começaram a imaginar a reportagem PLIM PLIM da festa do batizado. E neste novo reino, viveriam em paz todos, exceto os bruxos e bruxas que abertamente enviavam mensagens imprevistas por uma maquinaria infernal construída para destruir impérios mesmo quando estes fazem PLIM PLIM.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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