Tudo o denunciado Temer compra: é de tremer

Tremem as bases da república. Tremem de distintas formas os políticos, os endinheirados e vendidos, de alegria; os sérios e esperançosos, de tristeza. Treme a população, de paneleiros – sem qualquer conotação sexual sobre as preferências dos coxinhas – a oponentes. E o presidente compra de forma republicana os votos de que precisa.

As formas das compras são legais? Sim! A lei orçamentária prevê as emendas dos parlamentares. Mas a liberação efetiva de recursos é difícil, mas no momento oportuno  jorra o dinheiro do Tesouro para o bolso político dos “adquiridos”. Bolso político é uma metáfora, afinal um juiz pode falar em “proprietário de fato”, por que não poderia eu falar em “bolso político”? Acontece que a liberação de recursos para obras pontuais ou para organizações “beneficentes”, sem que o todo seja estrategicamente considerado – das obras de infraestrutura a políticas sociais – estes 154 milhões, liberados durante os dias precedentes à votação do parecer dentro da comissão de CCJ da Câmara dos Deputados, cairão numa vala comum e irão pelo ralo do desperdício das verbas politicamente orientadas.

No entanto, estas “dotações” orçamentárias cumprirão o seu papel: elas são a forma de garantir a fidelidade do voto e políticos que não votam segundo sua consciência, mas segundo interesses imediatos e mesquinhos garantem seu retorno à Câmara dos Deputados. E a necessária renovação de um Congresso tão desmoralizado quanto é o atual, com o “apoio” do denunciado Temer, jamais acontecerá. Ao contrário, toda a camarilha se reelegerá porque no miserê em que vivem as organizações sociais e as prefeituras e prefeitos, uma verbinha de emenda parlamentar é tudo de que precisam, também eles olhando para a reeleição ou para a continuidade dos trabalhos sociais chamados de não-governamentais mas que vivem do governamental. Estes são os piores, porque ideologicamente falam mal do Estado, dizem que ele não cumpre suas funções e por isso suas organizações são necessárias… mas escondem que efetivamente vivem dos orçamentos públicos, porque até mesmo os recursos procedentes das “iniciativas privadas” são contabilizados como despesas para reduzir o recolhimento de impostos! Mas tudo isso só se pode dizer à boca pequena.

Voltemos, pois, à compra dos votos feita por Temer, dentro da lei e fora da legitimidade. Com toda sua boa vontade, com a caneta na mão, a denúncia fez jorrar recursos. E com o fantasma enrouquecido e quase defunto ministro da fazenda fazendo (o trocadilho é proposital) de conta que não vê, porque somente enxerga a “necessidade” de destruir direitos sociais e acabar com a aposentadoria dos pobres, porque afinal “o Brasil pode mais” e fode menos. Que a alegria deve desaparecer e todos devem ter aquelas fisionomias fantasmagóricas de Henrique Meirelles e de José Serra!

Mesmo negando e negaceando, o fantasma não pode dizer que o cofre está vazio! Isto porque este custo de 154 milhões liberados é apenas a contrapartida dos votos na CCJ. Ainda falta o segundo round! E aí serão necessários 172 deputados, desculpem o engano, 172 consciências à venda! E não nos enganemos: o Senado, chamado às vezes de “Câmara Alta” age da mesma forma. Senadores foram “adquiridos” na reforma trabalhista, e a preço variável em escalas até surpreendentes: houve o que ganhou até 18 milhões! A inveja entre os sisudos senadores pode provocar outros tremores na república! Aliás, quanto terá “recebido” o senador Cristovam Buarque que votou a favor da reforma trabalhista mesmo já não sendo da “base” o seu atual partido? Ou ele já saiu do PPS? Ele prometeu não mais se candidatar, mas até agora ainda não foi para a sua embaixada… mas está trabalhando para merecer: vota no que Temer quiser, porque a mancha em sua história ficará para sempre. Uma vez traidor de seus princípios, resta-lhe seguir o escroto conselho popular: relaxa e aproveita. Aliás, a sexóloga senadora deve estar aproveitando para comprar flores para a possessa Janaína Paschoal…

Infelizmente, no entanto, todos serão reconduzidos a seus cargos pelo voto popular, a não ser que aconteça uma hecatombe. E ela não acontecerá. A mídia segurará as pontas para evitar uma renovação que não lhe interessa. E se acontecer a hecatombe, como foi a reeleição de Dilma, as panelas reaparecerão e aqueles que sempre tiveram vergonha de ser brasileiros se vestirão de verde e amarelo! As babás, uniformizadas, voltarão às ruas empurrando o carrinho dos bebês das madames, tudo como manda o figurino.  

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.