Tucano, o bicho; tucano, o político

Estou na Dinamarca, em visita familiar. Participo um pouco do tempo de minhas netas Sophia e Laura. Ontem visitamos juntos o zoológico de Copenhagen. Os zoológicos me provocam sentimentos contraditórios: sei que neles se faz pesquisa, sei que neles se tenta preservar espécies, mas ao mesmo tempo eles representam a captura, o deslocamento do habitat natural destes mesmos animais e sua prisão.

Quedei-me um tempo a olhar dois tucanos encerrados e à amostra. Comecei imaginar suas “saudades” da terra de que vieram. Triste eu com o que acontece no Brasil, transferi esta tristeza para seus olhos e seu pouco espaço para voos. Não mostrava às pequenas netas minhas elocubrações internas. O tucano é uma bela ave. E sentem por estarem ausentes de sua terra.

Ao contrário, os tucanos políticos detestam terem nascido no Brasil. Nos tempos em que FHC era presidente, seus sorrisos largos eram dados quando caminhava ao lado do Sena em Paris ou quando fazia um cruzeiro pelo Reno, a ver castelos. Viagem que mereceu, aliás, grande reportagem televisiva da grande rede golpista, a Globo.

Mas ao olhar bem para o bicho tucano, percebi a razão do apelido a estes políticos que nos detestam e que detestam o país em que nasceram. O corpo do bicho tucano é uma avé comum, até parecido com o corvo, não fora a plumagem espetacular que carregam em si. Sobra-lhes um grande e belo bico que os diferenciam de todas as demais aves.

Que tem os tucanos políticos? Um corpo humano, obviamente. Mas é ave de rapina como o corvo. Como estes, os tucanos políticos realizam uma rapina de todo o patrimônio produzido ao longo da história pela nação: transferem-no para as mãos de transnacionais ou candidatas a transnacionais porque era em suas sedes que eles gostariam de estar, mesmo que trancafiados numa gaiola dourada – um apartamento em Paris e os menos sofisticados, tipo Geraldo Alkmin, um upgrade de Pindamonhangaba para Miami. Aliás, Geraldo Alkmin é tão pouco sofisticado que tucanos de alta plumagem não compareceram à convenção que sacramentou a candidatura do empresário Dória à prefeitura de São Paulo, o candidado do Geraldo… Coisa de novo rico! FHC, Serra e Aécio, da nobreza tucana, não se sujeitariam a uma festa tão vulgar. Alguns certamente ficaram tomando champanhe com Andreazza, o cnadidato derrotado.

Mas voltemos às comparações entre o bicho e o político. Estes nada tem daqueles a não ser o bico. Esforçam-se fisicamente para torná-lo o maior possível: basta olharmos para algumas fotos do empresário Gilmar Mentes que se assenta numa cadeira do STF; basta olhar para algumas fotos do desmoralizado FHC que tem apanhado feio em entrevistas com jornalistas internacionais, onde não recebe o tratamento servil, submisso dos entrevistadores brasileiros. Como não têm nem o bico, fazem bico. Como faz bico no Supremo o Gilmar Mentes.

Nosso problema é que suas bicadas no governo do traíra Michel Temer – a que chegaram porque não conseguem chegar pelo voto popular – reduziram este país a função secundária nas relações internacionais; à pobreza definitiva enquanto nação pelo saque de suas riquezas naturais; à miséria de grande maioria da população que nunca deveria ter posto os pés no mercado de consumo atrevendo-se até a frequentar as catedrais contemporâneas, os shopping centers! 

Voltemos à senzala que a Casa Grande sempre destinou o país. Recordemos a frase de um dos ministros das relações exteriores do ditadura militar: “O Brasil não deve aspirar a ser mais do que é”. E o povo não deve aspirar a mais do que servir com alegria aos membros da Casa Grande.

Enquanto servimos de cabeça baixa, eles vão às compras em Miami e às tertúlias em Paris, como outrora iam os filhos d’algo, dos senhores dos engenhos e das fazendas, estudar em Coimbra. E ao estudarem aprenderam, bons descendentes, a manter para sempre os mesmos privilégios, hoje apenas com outros nomes.

Assim é a vida. E ao contrário dos otimistas, não creio que o julgamento da história venha a ser duro com os golpistas. Não será como não foram com os generais da ditadura nem com a mídia que lhes deu suporte, nem com banqueiros e empresariado que lhes deu sustentação econômica e política. No país da falsa cordialidade, jamais houve ou haverá um julgamento político decente de golpistas, sejam eles militares, sejam eles parlamentares. 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.