Três refeições por dia: o peso insuportável do cotidiano para os ideólogos

Para aqueles que pesquisam o cotidiano, que narram os acontecimentos concretos da sala de aula para deles retirar algumas lições, as lições da experiência, daquilo que nos move e comove na vida; e paradoxalmente, para aqueles que se contentam com as bandeiras abstratas do tipo “O Brasil quer X”, “O Brasil não aguenta mais”, eivadas de moralismo, um belo trecho de Ryszard Kapuscinsk, de seu livro Imperium, um estudo sobre a Federação Russa:

“Quanto mais atribuímos significados abstratos ao termo “Rússia”, tanto mais confortáveis nos sentimos para discorrer sobre ele. “A Rússia procura caminhos”, “a Rússia diz não”, “a Rússia vai para a direita”, etc. Em tal ní8vel estratosférico de generalização, muitos problemas perdem significação, deixam de contar, desaparecem. A macroe scala ideológico-estatal relega para o segundo plano e despreza a cotidiana, difícil e fastidiosa microescala. Se a Rússia permanecerá uma superpotência? Em confronto com tão grandiosa indagação, que sentido pode ter o problema que tanto preocupa a Anna Andreievna de Novgorod, ou seja, se a deixarão viver normalmente? A onipresente linguagém política afasta dos meios de comunicação de massa – e o que é ainda pior, da nossa memória – o vocabulário com a ajuda do qual podemos exprimir os problemas privados, os dramas individuais, os sofrimentos íntimos. Aquele é um sem-teto? Já não nos ocupamos disso, é assunto do Exército de Salvação ou da Cruz Vermelha.

Por outro lado, é impossível evitar um enfoque abstrato. A escala gigantesca em que se sucedem os acontecimentos só pode ser abarcada com o recurso à linguagem e a conceitos generalizantes, forçosamente sintéticos – ou seja, abstratos – porém devemos ter sempre em mente que a toda hora iremos cair na armadilha da simplificação e das afirmações facilmente questionáveis”. (Kapuscinski, Ryszard. Imperium. São Paulo : Cia. das Letras, p. 284)

A luta para fazer desaparecer o drama privado de não ter o que comer ou com que alimentar filhos fica distante das bandeiras generalizantes. Quando se luta a favor destas vidas cotidianas esquecidas, quando se coloca o pobre no orçamento como disse um líder popular, logo aqueles cujos cotidianos são de abastança e que não conseguem perceber esta cotidianidade escondida de suas mentes, espumam raivas em nome da economia, do mercado e de outras entidades abstratas.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.