Os novos instrumentos de comunicação permitem esses acontecimentos. Sem convocação, mas aliados pelos mesmos sentimentos, uma multidão de argentinos foi a sede da Associação das Mães da Praça de Maio. Impediram todos a prisão de Hebe de Bonfani.
Confesso minha emoção. Lembrei de muitos filmes argentinos (História Oficial, de modo particular) que descortinam o véu que cobre outras ditaduras do continente. A arte argentina foi e é mais dura contra torturadores. Por aqui, parece que nada existiu. E por isso o passado não revisitado está maquinando, fabricando um futuro que o repete. Mas por lá, não.
O juiz Marcelo Martinez de Giorgi convocou a líder das Mães da Praça de Maio para declarações e como pela segunda vez ela se recusou a comparecer – embora no processo conhecido como Sueños Compartidos a Associação que preside já tenha prestado todos os esclarecimentos, sendo ela própria, a Associação, uma das partes prejudicadas por possíveis desvios – Hebe de Bonafani, num destes giros jurídicos persecutórios contra a esquerda, aparece como suspeita e o juiz nascido em 1966, formado em advocacia em 1990, decreta sua prisão. Não sabe história, ou melhor, sabe-a e lhe sabe bem o que passou que quer de volta.
Multidões de argentinos compareceram à sede da Associação das Mães de Maio, e o aparato policial montado para cumprir ordem de prisão e condução coercitiva não conseguiu nem chegar perto da líder que lutou tanto conta a ditadura militar.
É triste, extremamente triste, ver que a tal luta contra a corrupção, que virou o condão mágico do pensamento neoliberal no meio jurídico, na verdade tem por objetivo destruir toda e qualquer resistência social ao pensamento único e “verdadeiro” que defendem. A união da magistratura com o policialesco, a judicialização da política, as decisões seletivas de combate à corrupção de apenas aqueles que são julgados como “estorvos” ao pensamento único, tudo isso parece ter criado raízes profundadas em setores da magistratura, vemos agora, sem fronteiras, também ela globalizada.E eles ocupam espaços cada vez maiores nesta sofrida América Latina.
Hebe de Bonafani, por sua história e por sua idade, merecem um pouco de respeito até mesmo destes justiceiros imbuídos de dons divinos que zombam da biografia e se aproveitam da credulidade que conseguem esparramar via uma mídia também ela conservadora, neoliberal e, sobretudo, altamente comprometida com a corrupção e com a sonegação. Estão seguras, enquanto juízes como este Marcelo estiverem no topo de seus holofotes tomando decisões arbitrárias e investigando somente aqueles a que politicamente se opõem. Triste, muito triste ver o neoliberalismo querer prender quem lutou pela democracia em tempos em que os próceres de hoje andavam de fraldas ou escondidos sob benéficos lençóis das ditaduras.
A América Latina ainda precisa de Hebe de Bonafani! Que falta nos faz Zuzu Angel! Mas as páginas da história trarão outros novos nomes! E nomes hoje incensados pelos holofotes poderão receber nestas mesmas páginas outros adjetivos menos ditados pelo interesse e pelo puxa-saquismo da mídia corrompida e corruptora. El Clarin sabe disso. Até a Globo sabe disso.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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