TODA PRISÃO ESPETACULOSA NOS ENVERGONHA

Não é porque o preso se chama Eduardo Cunha que vou aplaudir a justiça à Sérgio Moro: o espetáculo somente possível porque as câmaras das TVs já estavam a postos, porque antecipadamente avisadas, permitiu as reportagens de hoje – em primeira mão da Globo, a mais beneficiada por informações prévias – da prisão do sr. Eduardo Cunha.

Independentemente do julgamento de mérito da determinação de uma prisão preventiva – não estou me referindo aos crimes pelos quais virá a ser julgado – cada vez que um cidadão, seja quem for, político ou não, seja do partido que for, é carregado pelos agentes de segurança para o presídio em função de uma prisão preventiva – portanto antes do julgamento de mérito – teria que ter o recato mínimo, a vergonha mínima da justiça que ainda não julgou e portanto pode estar cometendo uma injustiça.

Mas a necessidade de espetáculo da Vara do Sr. Sérgio Moro envergonha a todos os brasileiros. Primeiro intima o ex-deputado, dando à justiça federal do Rio de Janeiro 30 para entregar a intimação, a partir da qual teria 10 dias para fazer sua defesa (a Lula deu o prazo de 5 dias). Depois decreta a prisão preventiva.

Mas não sem antes avisar os telejornais, isto é, a Globo! Ou alguém imagina que havia um plantão contínuo da emissora no edifício em que Eduardo Cunha ocupava um apartamento funcional em Brasília?

Quando a efetivação de uma prisão tem que ser espetacular, com direito a televisionamento, algo de podre está correndo pelo reino desta Dinamarca cuja capital é Curitiba!

E algo anuncia: o boi de piranha em que se tornou Eduardo Cunha teve direito injusto ao espetáculo porque outro espetáculo virá brevemente. Sérgio Moro é homem do mundo do espetáculo. Não se trata nem de uma associação entre o juizado e os meios de informação para garantir apoio popular à ação de persecução penal de nomes poderosos, porque neste caso deveria envolver todos os delatados, de qualquer matiz partidário.

Eduardo Cunha é o preço que o golpe paga. E Cunha jamais assinará “delação premiada”, porque ele sabe que manter em suas mãos todas as informações é muito mais lucrativo do que a diminuição de alguns poucos anos da pena benigna que lhe será aplicada pelo justiceiro e santo juiz. Faz parte do acordo. Quem viver, verá.

E se não vier desta forma o prato preparado à mesa da sanha justiceira criada pelos meios de comunicação de massa, e Eduardo Cunha se sentir solitário, abandonado, perseguido como é perseguido o Lula, pode perder a compostura e fazer delações seletivas. Então teremos necessariamente mais alguns bois de piranha do baixo clero da política nacional. Nada mais do que isso. Pois como se sabe, o alto clero passou ileso mesmo com as gravações do Sr. Machado que captou de viva voz o acordo que se trançava nos bastidores do golpe parlamentar e jurídico contra Dilma Rousseff.

Eduardo Cunha se tornou dispensável, mas continuará enriquecido e enriquecendo. Michel Temer se tornará dispensável, por isso luta tanto para mostrar serviço. Sérgio Moro se tornará dispensável e cairá no ostracismo como caiu o ministro Joaquim Barbosa.

E este foi o tempo que nos foi dado viver: da justiça de espetáculo em desrespeito aos direitos humanos! Defendo o respeito aos direitos humanos, seja de quem quer que seja. Mesmo que criminoso confesso.   

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.