Qualquer livro que se abra do moçambicano Mia Couto, a gente sempre fica surpreendido com duas características que, parece-me, estão sempre presentes em toda sua obra: uma originalidade marcante no enredo e um trabalho sobre a língua que destrói seus usos comuns criando sentidos outros e compondo novas palavras que, seguindo o estilo do autor, seriam inusuais.
Este Vinte e Zinco (Editorial Caminho, 1999), uma novela rápida no tempo do presente da narrativa, indo de 19 de abril a 30 de abril, expõe todo um passado de lembranças e andanças que marcaram o processo de colonização portuguesa na África e a guerra colonial promovida pelo regime salazarista (incluindo o período marcelista): o rebaixamento da população autóctone e a repressão policial centrada na tortura deslavada.
Nesta história, são postos em movimento um agente da PIDE (Polícia política do regime salazarista), Lourenço de Castro, sua mãe Margarida e sua tia Irene (há no espaço de Meobase, onde transcorrem as ações, apenas mais outros três brancos, o Pe. Ramos e o auxiliar do PIDE, Diamantino, além do administrador que está ausente, em Portugal, prestando esclarecimentos sobre torturas policiais).
Lourenço é filho de outro Castro, Joaquim de Castro, também agente da PIDE. E em toda sua vida parece que não deixa de ser acompanhado por este pai-torturador que viu morrer. Levado pelo pai para um helicóptero para uma ação de coragem masculina, Lourenço viu o pai empurrar presos políticos para o alto mar. Acontece que alguns destes presos, juntos, com as pernas prendem a si o próprio PIDE que desesperadamente pede auxílio ao filho, antes de cair na vertigem do espaço. O filho ficou imobilizado em seu canto, e esta imagem o acompanhará já ele próprio agente da PIDE e chefe da cadeia, em substituição ao pai.
Dona Margarida, a mãe, é racista que jamais dirigiu palavra a um negro. Mas os pesadelos do filho, que ainda precisava, para dormir, de sua fralda e de seu cavalinho de pau; os próprios pesadelos sobre o futuro do lugar e as aventuras africanas da irmã Irene, tudo a leva a Jessumina, a nyanga (feiticeira) do lugar, para saber o que há em sua família. Com um marido nunca enterrado, o pide-pai, e com lugar sempre marcado à mesa, com as imagens das mortes e torturas praticadas, sua casa era povoada sem silêncios gritantes. Quer ajuda que não obtém.
Tia Irene, desde que chegara a Moçambique, agiu de forma distinta dos demais brancos. Juntou-se ao povo local. Enamorou-se de Marcelino, um mecânico mestiço. Marcelino é revolucionário, não aceita a submissão a Portugal e faz frequentes discursos pela independência. É preso, é torturado a mando de Lourenço que morria de ciúmes dos amores de sua tia, e morre na prisão. Desde então, aprofunda-se o que brancos chamariam de loucura de tia Irene.
A personagem que se entrecruza com todos é Andaré Tchuvisco. Sua história, que o leitor acaba tomando conhecimento nos últimos dias, é do homem que é chamado por Joaquim de Castro para exercer, na prisão, o ofício de pintor. Sua responsabilidade era fazer desaparecer por baixo da tinta branca, o sangue dos prisioneiros torturados. O PIDE sempre quis uma cadeia limpa e sem vestígios de sangue. Para disfarçá-lo, o piso era vermelho e encerado de vermelho, mas as paredes precisavam desta contínua pintura que realizava Tchuvisco. Ele viu o que não devia: Joaquim de Castro, depois da tortura de presos, tomava-os como parceiros sexuais. Isto o condenou: foi tornado cego. Em sua cegueira, acompanha todo o enredo desta novela enxergando o que escondido pretende ser.
Todo o pano de fundo das datas da novela remete à Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974. A queda do regime. Quando a notícia chega a Meobase, o pide Lourenço não quer acreditar que tudo ruiu. Os dias que se seguem são de descaminhos, de não futuro, de não saber o que fazer. E de uma consciência clara de que terá de pagar pelo que fez e mandou fazer. A população, revoltada, consegue encontrar o pide Diamantino, tortura-o e o mata.
Num encontro entre Andaré e Lourenço, o primeiro lhe conta como ficara cego, o que vira, quem fora seu pai! Já então, Dona Margarida abandonara a casa, procurando formas de voltar a Portugal. Antes quebrara tudo, para que nada ficasse para os “negros” e determinara que seu filho Lourenço deitasse fogo quando também ele fugisse. Mas Lourenço não foge. Sente que morrerá em Moebase. No final deste diálogo, a parte mais tensa da narrativa, o pide entrega a Andaré as chaves da cadeia para que ele solte os presos.
Mas quando o cego, na manhã seguinte, ruma para a cadeia, já encontra a multidão na rua: os presos haviam fugido. De qualquer forma, vai ele até lá, para reencontrar lugares em que viveu e paredes que pintou. Na sala da tortura, encontra os cadáveres do pide Lourenço de Castro e do assimilado e torturado Chico Soco-Soco.
“Andaré Tchuvisco vai à arrecadação da prisão, traz uma lata de tinta branca e um velho pincel. E com amplos gestos ele espalha largas demãos sobre a parede. A cada pincelada, a paisagem do quarto se lava. Não há sangue, não há desordem. Não é só o morto que se esvai: a própria morte desvanece. O cego sente que seus olhos se tornam mais inundáveis. Como se abrisse um imenso pátio onde toda a luz se espraiasse. E sente que a prisão, a cada pincelada, se vai dissolvendo, a pontos de total inexistência. Como se o pincel que empunhasse fosse areia, na mão do vento, apagando pegadas no deserto.”
Como se sabe, a ação sobre a língua que realiza Mia Couto encanta todo e qualquer leitor. Se o enredo nos enreda, os jogos com a língua nos deliciam no êxtase da vivência estética de que saímos enriquecidos por enxergar que outros possíveis existem, desde o que nos é mais íntimo, a nossa língua. Eis alguns destes achados do escritor – tomo-os livremente folheando o livro:
“A mãe [de Marcelino] se dizia viúva. Mentira de sua aparência. Todos sabiam que o marido, esse que houve, nunca chegou realmente de existir. Era um português que se desbandeirara por rumos e fumos. Fez-lhe u filho. E, depois, mais nada e nunca mais.”
“Irene se prontificou em cabeceirar o doente. E lhe prestou cuidados e remédios.”
“A savana estava tão morta que há muito não dispensava alimento, nem sombra de sobra. O chá se desplantara, os insectos se exilaram, em fugitivas nuvens.”
“Num instante, o céu se inviabiliza para pássaros, a terra se fecha para encantações. Chove em toda a vastidão do mundo.”
“A cabeça recolheu-se entre os braços. Ficou, assim, irreactivo, durante um tempo.”
“Irene dava inadmissíveis licenças ao mulato Marcelino. O sobrinho se atiçava de rancores. Certa tarde, ele flagranteou os do0is, trocando propaganda subversiva.”
“… oxalá o padreco tenha pisado uma mina para saber com quantos paus se desfaz uma canoa.”
“- Você pena que fui eu que engravidei Irene? Não fui, nunca me rapazinhei com ela. Juro, nunca pombinhamos os dois.”
“A arma esquecida, ao lado, tornada inutensílio.”
“- Eu tinha essa grande crença, sabe. Quase eu não precisava de ter pai. Havia Salazar, a pátria, a ordem.
– Esse é o problema das crenças: todas são mortais. Algumas chegam mesmo a ser mortíferas.”
“Parece triste como água num poço.”
O sabor destas passagens poucas mostra a que encantos e recantos o levará a prosa de Mia Couto, neste Vinte e Zinco (e nas outras obras deste autor inspirado, como confessa, em Guimarães Rosa).
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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