Há em Porto Alegre, à beira do Guaíba, um “prédio de engenharia arquitetônica industrial”, o primeiro construído em cimento armado do sul do país. Ele foi a sede da usina termelétrica que iluminou a capital gaúcha a partir no final dos anos 1920. A celebração da pedra fundamental foi a 16 de abril de 1926. O fornecimento de energia elétrica passou a acontecer em 1929.
É a história desta Usina que Luiz Sérgio Metz, seguramente o melhor escritor que Santo Ângelo, “a capital das missões” forneceu às letras do país. Sérgio, Jacaré de apelido, Jaca para nós seus amigos, saiu da cidade ainda jovem. Foi para Porto Alegre, onde exerceu o jornalismo. E se tornou escritor consagrado. Conhecia sua prosa inicial, através de seus contos iniciais: Angelino seis risadas, Manhã de domingo e A canção inteira do ferro no ferro (publicados em Histórias Ordinárias, Editora Documento, 1977) e a coletânea de contos que constitui o livro O Primeiro e o Segundp Homem (Martins Liveriro, 1981). Tive a honra de receber do Jaca, no primeiro semestre de 1980, uma longa carta em que tentava me persuadir a não sair do Rio Grande do Sul, quando estava por ser contratado pela Unicamp. Apaixonado pelo estado, o Jaca me chamava atenção para a necessidade de permanecer no estado, de trabalhar no ensino superior gaúcho. Vim embora. Perdi o contato.
Agora, tantos anos depois, lendo o livro do Luís Augusto Fischer (Coruja, Qorpo-Santo e Jacaré, LP&M Ediotres, 2013), dedicado a autores gaúcho, descubro um Jaca que não conheci. Fui buscar seus livros e comecei minha recuperação lendo Usina do Gasômetro, uma cuidadosa edição de arte, com fotos do passado e do atual Centro Cultural.
E fico sabendo pela apresentação da então Secretária Municipal de Cultura do governo Tarso Genro, Margarete Moraes, que este texto sobre a Usina do Gasômetro é o último texto escrito pelo Jaca. E uma história que não teve tempo de concluir. A narrativa chega até o apogeu de funcionamento da Usina. As partes seguintes, do abandono e saque e depois a restauração e funcionamento como espaço cultural, graças à luta pela preservação para que não fosse implodido para dar lugar a uma avenida. Estes períodos acabam sendo conhecidos pelo leitor apenas pela série de fotografias, do autor. Luís Augusto Fischer escreve um “encerramento” do texto, já não mais sobre a história da Usina, mas sobre o próprio Jacaré que perdemos tão antes do que ele merecia, para infelicidade nossa e das letras brasileiras.
Vamos à história que ele narra. Desde o prólogo ele aponta para os perigos de viver tão perto de uma beleza natural como é o estuário do Guaíba, onde se dá o mais belo por do sol do mundo. A Usina foi construída a suas margens, funcionou graças a suas águas e ao carvão que vinha por barcos para se transformar em energia elétrica através da combustão. É impressionante como ler o processo de funcionamento da Usina termelétrica acaba se tornando um prazer apesar da aspereza do tema e dos dados técnicos manuseados pelo autor.
Coerente com seu objetivo: “Queremos, sim, lembrar o quão milimétrico é o terreno das certezas absolutas sobre as questões urbanísticas e da nossa memória, tanto rural como urbana”, sua narrativa percorre os tempos dos lampiões – cera, queresone e gás – descrevendo uma vida urbana praticamente equivalente à vida rural. Entremeia sua narrativa com a história da ciência e a conquista da energia elétrica, passando por Newton e Edison.
Passa pela política urbanística de Otávio Rocha, que segundo o narrador esteve para Porto Alegre como o Barão Haussmann esteve para Paris. É impressionante o número de referências culturais que a escrita de Luiz Sérgio Metz nos faz lembrar. São vozes de filósofos, poetas (Mário Quintana, particularmente) e cientistas que entram numa história com seus contributos para que o dínamo transformasse água, carvão e combustão em energia elétrica que passa a iluminar desde o palacete dos Câmara até as ruas dos becos de Porto Alegre. Interessante saber que a empresa responsável pela produção e distribuição de energia – então CEERG, depois CEEE – desenvolvia extensa propaganda de produtos elétricos – refrigeradores e ferros de passar – e que mantinha uma loja em que vendia ventiladores, geladeiras e ferros de engomar e passar, estufas, lâmpadas. Havia que aumentar o consumo da energia que se produzia na Usina, modificando hábitos seculares.
Não poderiam faltar as referências ao Presidente Borges de Medeiros, e obviamente ao poema “Antônio Chimango”, de Ramiro Barcelos que o assinou com o pseudônimo de Amaro Juvenal. O leitor se desloca do mundo da política para outro mundo, “ao menos nas pensões que abrigavam estudantes os brindes tinham outra louvação, entre mate amargo e vinho barato. Cyro Martins, Érico Veríssimo, João Nogueira Leiria, Athos Damasceno, Augusto Meyer confabulavam em torno dos livros de Eça de Queiroz, Victor Hugo, Balzac, Flaubert, Machado de Assis, Schopenhauer, Goethe, Marx, Rimbaud.”
A construção da chaminé com 137 metros de altura resultou da luta da população atingida pela fuligem do progresso que concede seus benefícios e esparrama suas consequências indesejadas. Esta história de revolta exitosa talvez venha a ter sua correspondente posterior com a luta dos porto-alegrenses contra a poluição causada pela empresa de celulose Borregaard a mostrar que viver ao lado do rio tem seu custo mas também este mesmo custo é capaz de fazer resistir uma população que não se amedronta diante do poder do novo.
Mas me parece que a passagem mais comovente e mais literária do texto é aquela em que o narrador olha para a cidade e para a Usina através dos olhos do canoeiro que vindo do rio Jacuí, atravessa sua barra no Guaíba e segue rumo ao porto para vender queijo, rapadura e verduras frescas na feira que acontecia entre o prédio da Casa de Correção (cadeia) e a Usina. Este ouvir os ruídos do rio que conduz a proa e o remo do canoeiro no rumo certo, sem enxergar por causa da neblina, numa noite de 1929, é uma página como poucas de que transcrevo pequenas passagens para exemplificar o estilo narrativo do Jaca:
Na foz do rio Jacuí, contornando o bordado vegetal da ilha da Pintada para penetrar no estuário do Guaíba, um homem só avança com sua canoa. Faltam três horas para nascer o dia e, na noite espessa e fria de inverno, o tule brumo do nevoeiro lhe empresta a sensação de estar remando em círculos, tricotando uma manta ondular, que escorre entre cristas e vales sem brilho. Não há instrumentos de navegação Ele se orienta pelo instinto de direção e de tempo, e se ocupa de um abstrato e fortuito rumo, que vai sendo inaugurado através da noite pura, natural e fechada. Uma torrente de coisas muito estranhas o espera pela frente. Não haverá lestrigões nem sereias, e, ao contrário de Ulisses, não perceberá canto, ao menos o canto que os humanos reconhecem melodioso – este ele demorará para ouvir.
[…]
Avançando entre a névoa, ele ouve, ainda na foz do rio, apenas coaxos como de alguém que bebe goles de som nas touceiras da margem. E aferindo extremamente a audição e a experiência nas águas, ele sente os risos das asas velozes dos morcegos na brisa, ao alto de sua cabeça. Em seu entorno, no ermo e na grota, em tocas e trilhas – ele intui -, há um universo surpreendente de estalidos e silvos que o peso do ar frio conduz com sofreguidão ou acaba por consumi-los em sua densa esponja vegetal, antes que cheguem aos seus ouvidos. (p.83)
Este livro de arte que é Usina do Gasômetro – Centro Cultural, com edição e design gráfico de Flávio Wild e com pesquisa de imagem e fotografias de Luiz Carlos Felizardo, uma edição sob os auspícios da Prefeitura Municipal de Porto Alegre (2001) soma-se à solidez da arquitetura industrial em cimento armado à beira do Guaíba, um marco da história da cidade e do estado e permanecerá tanto pelo valor histórico a que referencia quanto pelo valor literário do texto de Luiz Sérgio Metz, nosso querido Jaca que nos começos dos anos 1970 estrelou um curta metragem de Cláudio Bechler (seu cunhado), então presidente do Cineclube Humberto Mauro que há pouco havíamos fundado em Santo Ângelo. Sua imagem, folheado Cristo Recrucificado, de Nikos Kazantzaki que então tínhamos todos acabado de ler, jamais me sairá da memória, mesmo depois de tantos anos.
Reencontrar o Jaca, em textos seus por mim desconhecidos porque as distâncias físicas se transformaram em distâncias intelectuais, em não acompanhamento, fazendo-me ocupar com coisas menores, é também retornar aos pagos, ao passado ainda tão presente de uma imagem que não se apaga.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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