Neste pequeno romance, a que o autor chamou de mini-romance, Ismail Kadaré opera com sua memória lembrando sua experiência juvenil em sua Albânia, em Girokastra, transitando entre a casa paterna e a casa do avô materno e no entremeio pela escola. Pelo casamento, uniam-se no narrador – a autor assume que se trata de memórias e imaginação – as famílias Kandaré e Dobete que se acusavam mutuamente de loucura, questão título do livro e preocupação que ocupou por algum tempo o narrador, até que sua vovó lhe disse:
– Metade de Girokastra fala estas coisas sobre a outra metade.
O menino (narrador) entreouve falas de adultos. A primeira destas falas que aparece na narrativa é a do suicídio do tio mais novo (não aparecem os nomes dos tios, sempre tratados de “o tio mais velho”, “o tio mais novo”, “a tia mais velha”, a tia mais nova”) porque sua irmã (a tia mais nova) vira algo do tio, algo terrível que não podia ser visto.
Imediatamente ele discute a questão, na escola, com seu melhor amigo, Ilir. Tratava-se de saber o que teria visto a tia mais nova. Ilir sugere que ela tinha visto o pinto do tio mais novo! Mas o narrador não aceita que isso pode ser motivo de querer se suicidar, mas retruca o amigo que quando o pinto é muito pequeno, pode acontecer isso.
O garoto curioso vai até a tia e lhe diz que sabe o que ela viu: o pinto do irmão. Recebe uma espinafração e também a revelação do segredo: ao passar a calça do irmão, ela viu a carteirinha de sócio do Partido Comunista! E isso era um segredo terrível, já que o partido era clandestino, ainda que estivesse no governo…
“… o partido, embora sendo secreto, estava acima de todos. Até a própria República, que derrubara a Monarquia, curvava-se perante o partido. Puxa, fez Ilir, enquanto eu continuava dizendo que o partido, se desse na telha, podia pegar a República pelo pescoço e jogá-la aonde bem entendesse. Ilir, depois de dizer puxa de novof, fez então uma daquelas perguntas que te gelam o sangue: se ele era tão poderoso, por que se escondia?
Levamos um bom tempo penando em busca de uma explicação para aquela história. Às vezes parecia que achávamos, mas logo depois a perdíamos. Recorremos a Deus, que vivia escondido embora estivesse acima de todos. Logo nos veio à mente Mero Lamtch, um célebra ladrão de galinhas que fugia da polícia desde o inverno passado. Por fim, recordamos o homem invisível, que aterroriza a todos justamente por se assim quer dizer, invisível e isso nos tranquilizou definitivamente.
A citação acima exemplifica um conjunto de situações que levavam as crianças a suas perguntas e a suas necessidades de respostas, que não encontravam com facilidade junto aos adultos: o avô está sempre lendo e jamais interfere mesmo na briga de seus filhos; o pai é um ausente no transcurso de toda a narrativa. E o amigo Ilir era o porto onde discussões e busca de explicações das coisas entreouvidas se realizava.
Este conjunto perguntas e respostas vai dando o tom à narrativa, em que os fatos que emergem são explicados pelo narrador juvenil que, ao mesmo tempo, com o amigo constroem um Cavalo de Troia, não para destruí-la mas para salvá-la: pretendiam entrar na cidade para dizer aos troianos que os gregos não tinham se ido, mas estavam por ali… Suas dificuldades seriam como encontrar uma delegacia de polícia para dar a informação sem saber falar a língua daquele povo. Ainda mais que a cidade deveria, à noite, estar às escuras, “talvez com exceção daquela onde dormia a bela Helena, cuja sombra sobre o ventre haveria de ser cem vezes mais bonita que a da Graciela Jakoel, já que ela fora a causa de toda aquela guerra terrível”.
Os episódios fundamentais do enredo são o da ameaça de suicídio do tio mais novo; a surra nos professores de latim e a exclusão do ensino de grego antigo e francês, tudo substituído pelo ensino de russo; o fim da clandestinidade do partido comunista e,encerrando a narrativa; a despedida da família judia de Graciela Jakoel, cuja sombra abaixo do ventre o narrador vira através da fechadura do banheiro e o falecimento do avô, mais ou menos previsível desde o início já que personagem de tempos do passado da Albânia.
Nos capítulos de “reflexões” que entremeiam o enredo, sobressaem-se a questão da loucura familiar, a questão da clandestinidade e do poder, a questão das línguas dos dominantes deste país que conheceu poucos tempos de independência: foi parte do império romano, depois foi dominado pelo império otomano para mais de três séculos e o tempo dos fatos narrados são aqueles da transição da república sem libertada da dominação nazista pela Rússia durante a Segunda Guerra (em 1942) e portanto de sua passagem para a União Soviética posteriormente ao fim da guerra.
O tempo é, portanto, aquele de uma passagem. A Albânia conheceu a liberdade e a república no curto espaço que vai da primeira à segunda grande guerra: no final da primeira desaparece o império otomano; depois da segunda aparece a URSS.
Este tempo de mutação é explorado por Ismail Kadaré através o olhar juvenil, do menino que compreende e não compreende, do menino a que adultos não dão grande atenção, mas que reflete, que pensa e que tem tiradas obviamente desenvolvidas pelo autor mais do que pelo narrador, como ao folhear o misterioso volume “Kossova, berço do albanismo”. Também os sérvios diziam a mesma coisa: Kossova era o berço da Sérvia. Então aparece esta pérola:
“Realmente não era fácil. Era a mesma coisa que minha irmã, eu e meu irmão menor nos pormos a brigar pelo berço em que nós três tínhamos sido criados, +ara ver quem era o dono.”
De passagem aparecem certos costumes dos albaneses, particularmente as rixas de honra entre famílias (tão bem retratada em outro romance do autor, Abril Despedaçado) e da história da Albânia (esta acessível de forma lúdica mas não menos séria em outro romance, El muro de la verguenza).
Há no livro inúmeras remessas à literatura… quase dando a entender que os meninos, o narrador e Ilir, manuseassem romances que dificilmente poderiam fazer parte das suas vidas, ainda dominadas por heróis e fantasmas invisíveis. Entre estes títulos desvelador de tempos de chatice, A boa gente da estepe, Primavera, A grande esperança. E posteriormente no enredo, quando da briga entre os dois tios, são citados muitos livros porque ambos fizeram uma divisão entre si do acervo Obviamente, A Mãe de Gorki ficaria com o tio mais novo, o membro do partido comunista. Há também referências a obras típicas desta passagem política quer vivia a Albânia, como “Relatos sobre Lênin” ou “O sexto aniversário do exército iugoslavo” de Tito.
Aqui também, como nas reflexões de entremeio aos fatos narrados, se mostra o espírito crítico de Kandaré, pois as referências literárias e bibliográficas não deixam de ser críticas sutis e muito bem tecidas das novas obrigações de leitura que iam aparecendo e a clandestinidade de outras leituras que deveriam ficar entre quatro paredes de uma casa.
Este mini-romance é muito bem urdido, e sua estrutura narrativa, colocando o olhar juvenil sobre fatos históricos, faz ver alguns absurdos tanto dos velhos costumes quanto das velhas e novas estruturas do poder político na Albâna.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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