José Cândido de Carvalho é mais conhecido por seu “O Coronel e o Lobisomem”, uma das grandes obras do realismo mágico latino-americano. Ainda que a “onda” da literatura fantástica tenha passado, este livro é de leitura obrigatória.
Seu livro de estreia foi Olha para o céu, Frederico! E este romance já prefacia o que virá depois da pena deste grande escritor fluminense.
Aqui, o narrador é um sobrinho de Frederico Sá Meneses, das famílias Sá/Meneses com antecessores barões. O motivo da narração de Eduardo Sá Meneses aparece como prólogo do romance: a publicação de um artigo de Melo Pimenta sobre seu tio no O Estado. Escrever a história foi um desafio que lhe fez André Gonzaga, redator chefe de O Monitor Campista.
Narrado em primeira pessoa, o menino Eduardo, órfão, sai da casa de um tio (tio Nabuco) para a casa de outro (tio Frederico) de quem se tornará herdeiro. Agiganta-se na narrativa o tio Frederico, que jamais saía de seu engenho, o São Martinho, nas grotas de Campos. Trabalhador e manso, tio Frederico era um sovina de fala fina que vai se tornando um “comedor de terras”, aumentando o patrimônio da São Martinho ao mesmo tempo que elogia aqueles que o criticam e faz de conta que os está auxiliando ao comprar seus campos.
O oponente maior é Quincas Borba, proprietário que transformou seu engenho ( o São José) em usina! Esta mudança da tecnologia na produção do açúcar, coisa que jamais faria Frederico, traz para o campo relações novas com a cidade, donde sai o maquinário mas também donde sai o financiamento para a compra e, consequentemente, o endividamento dos antigos donos de engenho.
Na figura de Quincas Borba aparece a fanfarronice do novo, do rico montado em sacas de açúcar branco. Quincas será a figura que transitará entre o urbano e o rural. Frederico será a figura para sempre perdida no mundo rural, mourejando de sol a sol. A usina vai bem e dá lucros enquanto o tempo ajuda. Na primeira seca, começam os problemas do usineiro que vê os credores batendo em suas portas. Enquanto isso o “previdente” e astuto Frederico vai comprando terras e sufocando o usineiro pois sua indústria para ser lucrativa demanda muita produção que não poderá ser sempre própria. Frederico o cerca preparando o golpe. Entre outras formas deste alastrar-se em propriedades foi seu casamento vantajoso com D. Lúcia, muito mais jovem do que ele e também filha de dono de engenho, trazendo para o casamento um dote significativo.
Eduardo cresce neste meio e rapaz se torna amante da mulher do tio… coisa que este jamais descobrirá. Frederico continua trabalhando e economizando e talvez a melhor expressão definidora seja a sovinice. Guarda e compra. Amealha terras. Produz açúcar mascavo, de tacho… e reconhecia diante do adversário “Quincas Borba tinha razão. Nunca o São Martinho chegaria aos pés da São José. Açúcar de forma estava nas últimas, nas despedidas. Um condenado que esperava pela hora da sentença. Negócio morto, com urubu em cima.”
Pe. Hugo da Arimateia insiste com Frederico: que obras estava fazendo para se apresentar ao Senhor? Vem de seu conselho o título do próprio romance: Olha para o céu, Frederico! Não olhou. Continuou juntando dinheiro, enriquecendo e se sempre se queixando de que os negócios iam mal. Mal acabou ele: faleceu deixando rico Eduardo e D. Lúcia. Eduardo assume o engenho e o transforma em usina. Torna-se tão pretensioso quanto Quincas Borba. E assume o comando com voz grossa, de dono. Mas é “moderno”: bota casa para a amante na cidade, enquanto D. Lúcia vai abandonando o agora sócio e amante para se aproximar de Quincas Borba com quem se casa, levando para o marido a Fazenda Itu. E então começa a derrocada da Usina São Martinho.
Este pode ser chamado de um romance – na linha das obras de José Lins do Rego – da transformação do engenho em usina; do embate entre o velho e o novo. Enquanto o velho vem representado pela sovinice, o novo vem representado por duas personagens urbano-rurais, usineiros de rompante e poder. Portentados. Mas também estouvados. Assim, cruzam-se neste romance dois grandes temas: velho/novo e sovinice/estroinice.
Uma ópera não pode ser resumida. Um romance também não, porque acaba distorcendo até mesmo o enredo que o conduz. E se perde sempre a linguagem, precisamente o locus do trabalho estético. Para dar água na boca:
Sobre a presença de Pe. Hugo que ensinava o menino Eduardo: “Vinha, despejava nomeu ouvido as coisas dos livros, para desaparecer na direção de outras tarefas”.
E dizia o padre: “São Martinho […] era terra daninha, que não tarefava para Deus. E Hugo fazia o sinal-da-cruz. Amém!”
Sobre a relação com D. Lúcia: “Com o tempo, perdeu a cerimônia. Chegava, entrava no quarto, tirava a roupa, para sair com olheiras fundas. No cipó de seus braços eu era nada, menos que uma criança. Dona Lúcia fazia comigo tudo que queria. Sugava minha vontade. Diante do seu jeito de mando, eu desbotava. Virava boneco de engonço. Às vezes eu ficava meio zumbi. Dona Lúcia ria desse meu estado.”
Sobre a relação com Belinha Reis, a amante do fim da linha: “E aparecia no quarto vestida como o pessoal dos quadros a óleo, de saia-balão. Eu desabotoava Belinha, desobrigava seu corpo queimado desses panos desbotados. Às vezes, na impaciência, ela estipulava:
– Rasga! Rasga!
E eu rasgava, com unha safada, os velhos cetins deixados no gavetão de guardados por tias e avós de uma batelada de Sá e Meneses. Os barões, dependurados em pregos de parede, por trás das barbas, espiavam meus desmandos. Belinha brincava comigo, gabava o tamanho da minha serventia:
– Estou para ver peça maior. Não sei como a magreza da Luísa agasalhava esse pé de palmeira. Não sei.”
Olha para o Céu, Frederico! é livro de estreia. E que estreia!
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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