Textos sobre textos: O Jardim das Cerejeiras

Em uma curta nota do tradutor, Millor Fernandes, encontra-se a expressão-chave “vale-nada” que poderia sintetizar esta peça de Anton Tchecov. Efetivamente, toda a nulidade da pequena aristocracia rural russa está aqui retratada nestes quatro atos que a compõem. Millor traduziu Nedotëpa por este “vale-nada” adequado para descrever e desenhar a realidade social russa que perdurou até os inícios do Século XX, quando o czar aboliu o sistema de servidão e depois veio o furacão da revolução socialista e deitou por terra este interminável regime da “casa-grande” onde vivem os que “valem-nada”.

Todas as cenas se passam numa casa aristocrática enfeitada por seu Jardim de Cerejeiras, que não é um cerejal comum, explorado economicamente, mas um jardim para deleite dos proprietários rurais, esta pequena aristocracia russa que sobreviveu até a Revolução de 1917, em sua maioria explorando servos e pequenos agricultores, como se pode ver em Humilhados e Ofendidos, de Dostoiévski.

Aqui, uma viúva aristocrata, mãe de duas filhas (uma adotiva), retorna de uma estada no exterior onde dilapidara todos seus recursos. A peça se inicia com seu retorno à casa onde permanecera sua filha adotiva (Vária). O novo capitalismo russo, representado na peça pela personagem Lopakhine (um negociante) insiste numa saída honrosa para a aristocrática viúva: derrubar todas as cerejeiras e lotear o espaço com construção de bangalôs para turistas, já que a estrada de ferro passava muito próximo à propriedade. No leilão, ele acaba comprando a propriedade e a peça termina com o barulho da derrubada das cerejeiras, mostrando significativamente o que faz capitalismo moderno com a natureza!

Enquanto o leilão não vem, com exceção de Vária que vive preocupada arranjando expedientes para alimentar a todos, incluindo governanta, criados e servos, todos os demais – este conjunto de mariposas que rodeiam a aristocracia – vivem como se não estivessem à beira da miséria inexorável da proprietária, Liuba, que nada decide para salvar-se. Pelo contrário, perdulária continua a gastar inconsequente o pouco que lhe restou.

Como num espelho, dentro do grupo, está um proprietário de terras também falido, Pichtchik, que gasta seu tempo pedindo empréstimos para fazer frente ao pagamento de juros de suas dívidas.

Todos mantêm seus hábitos, conversam o tempo todo em trocadilhos típicos de salão, fazem passeios pelo jardim, jogam sinuca. Duas personagens estão preocupadas com a situação econômica real: Vária e Lopakhine. A primeira com o cotidiano, o segundo com uma saída definitiva que permitisse a manutenção da propriedade. Nenhum dos dois é ouvido. Ao contrário, ouvindo sons de uma antiga orquestra, a dona da casa resolve oferecer um baile, ao estilo de antigamente, mas para o qual agora comparecem apenas pés-rapados, as ‘autoridades’ representadas no chefe da estação de trem e os funcionários do correio. Um baile da decadência.

Todo o enredo desvela este jogo: a futilidade da aristocracia de que o fim do Jardim das Cerejeiras aponta também o de seus proprietários. Na nota introdutória, Millor Fernandes cita Constantin Stanislavski, que montou pela primeira vez os trabalhos teatrais de Tchecov: o jardim “esconde na sua brancura florida a grande poesia da vida aristocrática que se acaba”. Como na história de Agamenon e seu porqueiro, certamente a vida aristocrática foi uma grande poesia do ponto de vista da aristocracia, não dos criados e servos!

O bom da peça de Tchecov é precisamente esta sinalização de um fim que se aproximava, mas que a aristocracia não conseguia enxergar como a personagem central da história não conseguia perceber que o leilão de sua propriedade aconteceria em breve: não tomou nenhuma atitude, não se decidiu por qualquer ação para salvar seu patrimônio, vivendo a angústia da perda como um destino inexorável, tão inexorável quanto é o sangue azul do nascido neste meio e que, mostra-o Tchecov, é incapaz de qualquer ação que não seja usufruir de seus privilégios até o último gole. Antes do final do século XIX, o escritor já apontava um fim próximo do modo de vida que prevaleceu na Rússia czarista até a Revolução de Outubro de 1917.

  

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.