Textos sobre textos: O Galo de Ouro

Textos sobre textos: O Galo de Ouro

São poucos os textos de Juan Rulfo a que temos acesso em língua portuguesa. E temos menos acesso ainda aos filmes mexicanos para os quais escreveu argumento ou roteiro ou que se baseiam em contos escritos por ele. A filmografia com que se encerra O Galo de Ouro e outros textos para cinema (tradução de Eric Nepomuceno, Civilização Basileira, 1999) nos dá conta dos inúmeros filmes de que participou o escritor. O Galo de Ouro foi para o cinema na direção de Roberto Galvadón. Pero Páramo teve dois filmes, um sob direção de Carlos Vélo, outro sob a direção de José Bolanos.

Este volume, além da filmografia, traz o conto fantástico que dá título ao livro, o argumento-roteiro de O Despojo e A Fórmula Secreta, ambos com nota introdutória de Jorge Ayala Blanco. Como não poderia deixar de ser, todos os textos remetem ao mesmo tempo à exploração sofrida pelo povo mexicano nas mãos de “potentados” caudilhos e a soluções fantásticas, imaginárias. Mesmo quando estas não estão explicitamente presentes, o marasmo, o conformismo dos explorados aponta para esta espera do externo, que vem para salvar. Assim, dentro do fantástico há também uma aguda percepção do mundo vivido pelo mexicano, inclusive aquele do novo colonialismo (quando um dos personagens recebe uma transfusão não de sangue, mas de coca-cola, remédio que em vez de melhorar o paciente, o condena à morte).

Em O Galo de Ouro assistimos ao movimento de paupérrimo pregoeiro de San Miguel dos Milagros, Dionísio Pizón, que anunciava nas ruas e esquinas da pequena aldeia o desaparecimento de animais (e de moças), recebendo míseros dinheiros quando estes fossem encontrados. Não encontrado, nada recebia. Vivia nos arrabaldes de um povoado com sua mãe. Quando a mãe morre na miséria, sem que ninguém o ajude a enterrá-la, decide sair pelo mundo para tentar a sorte. Vai a feiras com rinhas de galos. Assistindo a uma delas, vê o galo dourado perder uma briga. Antes que o dono o abata, consegue que lhe dê o galo, com o qual continuará a perambular ganhando sempre. Sua sorte chama a atenção de outro apostador, Lorenzo Benavites, esse com recursos para apostar. Ele lhe ensina a “manobrar” na largada do galo. Com este apostador com que fechará negócio vivia Bernarda Cutiño, cantora de feiras e de rinhas de galo. Logo ele por ela se apaixona. E mais tarde ‘rouba-a’ de seu já amigo e vive com ela ganhando sempre. Um dia resolve para de andar em feiras, e monta uma casa de jogo no sítio que havia ganho nas cartas do próprio Lorenzo. Neste sítio encerrará Bernarda, cujo espírito aventureiro e andante ele reprime. Sua obrigação era ficar no sofá, atrás de Dionísio que estando ela presente, sempre ganha!!! Até que um dia, numa noite de jogatina, tudo perde ainda que Bernarda estivesse em suas costas. Depois de tudo perder, vai acordar Bernarda que estava morta! Este poder fantástico de Bernarda é o a pedra de toque de todo o conto.

O Despojo, este argumento-roteiro, dois tempos se bifurcam na vida do camponês Pedro. Como o potentado do lugar queria sua mulher, ele se revolta e vai à aldeia e atira em Dom Celerino. Este ainda devolve e atira no camponês. Na cena do filme, a queda para a morte de Pedro é suspensa, e outro tempo imaginário ocorre: Pedro chega em casa, apressa mulher e filhos e saem fugindo da região em busca de um lugar verde para viver. Carrega o filho no colo pois ficara paralítico quando lutara para defender a mãe da desonra que lhe queria perpetrar Dom Celerino. O menino acaba morrendo e ele o enterra. Corte de cena e retorno para o final da queda de Pedro morto na rua da aldeia. O filme de Antonio Reynoso deve ser espetacular. Há que buscá-lo.

Por fim, as pequenas sequências cinematográficas do filme A fórmula secreta de Rubén Gomez, duas das quais são de roteiro de texto de Juan Rulfo, aparecem aqui na forma do diálogo do próprio filme. O tema é o da fome. E a cena II é uma ladainha para dar conta das entonações com que o texto foi dito pelo ator.

Para quem, como eu, conhecia Juan Rulfo apenas pelos textos escritos, a partir da leitura deste O Galo de Ouro e outros textos para cinema resta agora procurar os filmes para reencontrar o grande autor do realismo mágico mexicano.São poucos os textos de Juan Rulfo a que temos acesso em língua portuguesa. E temos menos acesso ainda aos filmes mexicanos para os quais escreveu argumento ou roteiro ou que se baseiam em contos escritos por ele. A filmografia com que se encerra O Galo de Ouro e outros textos para cinema (tradução de Eric Nepomuceno, Civilização Basileira, 1999) nos dá conta dos inúmeros filmes de que participou o escritor. O Galo de Ouro foi para o cinema na direção de Roberto Galvadón. Pero Páramo teve dois filmes, um sob direção de Carlos Vélo, outro sob a direção de José Bolanos.

Este volume, além da filmografia, traz o conto fantástico que dá título ao livro, o argumento-roteiro de O Despojo e A Fórmula Secreta, ambos com nota introdutória de Jorge Ayala Blanco. Como não poderia deixar de ser, todos os textos remetem ao mesmo tempo à exploração sofrida pelo povo mexicano nas mãos de “potentados” caudilhos e a soluções fantásticas, imaginárias. Mesmo quando estas não estão explicitamente presentes, o marasmo, o conformismo dos explorados aponta para esta espera do externo, que vem para salvar. Assim, dentro do fantástico há também uma aguda percepção do mundo vivido pelo mexicano, inclusive aquele do novo colonialismo (quando um dos personagens recebe uma transfusão não de sangue, mas de coca-cola, remédio que em vez de melhorar o paciente, o condena à morte).

Em O Galo de Ouro assistimos ao movimento de paupérrimo pregoeiro de San Miguel dos Milagros, Dionísio Pizón, que anunciava nas ruas e esquinas da pequena aldeia o desaparecimento de animais (e de moças), recebendo míseros dinheiros quando estes fossem encontrados. Não encontrado, nada recebia. Vivia nos arrabaldes de um povoado com sua mãe. Quando a mãe morre na miséria, sem que ninguém o ajude a enterrá-la, decide sair pelo mundo para tentar a sorte. Vai a feiras com rinhas de galos. Assistindo a uma delas, vê o galo dourado perder uma briga. Antes que o dono o abata, consegue que lhe dê o galo, com o qual continuará a perambular ganhando sempre. Sua sorte chama a atenção de outro apostador, Lorenzo Benavites, esse com recursos para apostar. Ele lhe ensina a “manobrar” na largada do galo. Com este apostador com que fechará negócio vivia Bernarda Cutiño, cantora de feiras e de rinhas de galo. Logo ele por ela se apaixona. E mais tarde ‘rouba-a’ de seu já amigo e vive com ela ganhando sempre. Um dia resolve para de andar em feiras, e monta uma casa de jogo no sítio que havia ganho nas cartas do próprio Lorenzo. Neste sítio encerrará Bernarda, cujo espírito aventureiro e andante ele reprime. Sua obrigação era ficar no sofá, atrás de Dionísio que estando ela presente, sempre ganha!!! Até que um dia, numa noite de jogatina, tudo perde ainda que Bernarda estivesse em suas costas. Depois de tudo perder, vai acordar Bernarda que estava morta! Este poder fantástico de Bernarda é o a pedra de toque de todo o conto.

O Despojo, este argumento-roteiro, dois tempos se bifurcam na vida do camponês Pedro. Como o potentado do lugar queria sua mulher, ele se revolta e vai à aldeia e atira em Dom Celerino. Este ainda devolve e atira no camponês. Na cena do filme, a queda para a morte de Pedro é suspensa, e outro tempo imaginário ocorre: Pedro chega em casa, apressa mulher e filhos e saem fugindo da região em busca de um lugar verde para viver. Carrega o filho no colo pois ficara paralítico quando lutara para defender a mãe da desonra que lhe queria perpetrar Dom Celerino. O menino acaba morrendo e ele o enterra. Corte de cena e retorno para o final da queda de Pedro morto na rua da aldeia. O filme de Antonio Reynoso deve ser espetacular. Há que buscá-lo.

Por fim, as pequenas sequências cinematográficas do filme A fórmula secreta de Rubén Gomez, duas das quais são de roteiro de texto de Juan Rulfo, aparecem aqui na forma do diálogo do próprio filme. O tema é o da fome. E a cena II é uma ladainha para dar conta das entonações com que o texto foi dito pelo ator.

Para quem, como eu, conhecia Juan Rulfo apenas pelos textos escritos, a partir da leitura deste O Galo de Ouro e outros textos para cinema resta agora procurar os filmes para reencontrar o grande autor do realismo mágico mexicano.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.