Afonso Schimidt, romancista e poeta paulista (Cubatão, 29.06.1890. São Paulo, 03.04.1964) foi um ativo anarquista brasileiro. Como profissão, exerceu o jornalismo em Santos, no Rio de Janeiro e em São Paulo (Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo). Escreveu romances, poesias e textos de ensaios. Foi um libertário que colaborou com revistas literárias e um entusiasta do Círculo do Livro (pertenceu ao Conselho Editorial do Círculo).
O romance O Assalto não aparece entre os mais conhecidos livros do autor. Trata-se de uma história bem urdida, temporalmente situada nos fins do século XVII, início do século XVIII quando já as bandeiras paulistas haviam diminuído o seu ímpeto e a exploração do ouro nas minas atraía todas as gentes. Sulpício é um destes que em jovem foi para as minas. Mas delas retorna pobre, o sonho perdido.
No caminho vai encontrando as grandes fazendas do interior paulista, situadas no vale do Paraíba, estando já próximo a Jacareí. E na caminhada, quando tenta descansar
“Deitou-se sobre o chão duro e, fazendo travesseiro da trouxa de roupa, esperou que o sono viesse libertá-lo daquela angústia. Mas, o sono demorou a vir. Ele prefere os estômagos fartos. Foge dos estômagos vazios. Por isso, ali ficou por longo tempo, a caçar estrelas por entre os buracos da cumieira. E a ouvir, com uma tristeza infinita, o mugido das reses na fazenda próxima. Por que seria que as reses estavam mugindo, daquela maneira? Pensou um pouco. Ah, era a falta de sal…”
É justamente esta falta de sal que ditará o curso da história. E o território da fazenda de Bartolomeu Fernandes Faria se tornará o espaço do desenrolar de uma história singular. Entre um e outro episódio, vale ressaltar o fato de que Sulpício, fugitivo da polícia porque em Taubaté acertara contas com uns mascates que o haviam furtado no garimpo, apresenta-se na fazenda de Bartolomeu e é contratado para ser aprendiz de mestre ferreiro Macalão. Este lhe dará guarida, junto com o fazendeiro. E obviamente, não poderia faltar ao romance, há a paixão de Sulpício pela filha do fazendeiro, já que as paixões não conhecem as fronteiras sociais.
Mas o que predomina é a preocupação com o abastecimento de sal nas fazendas paulistas. Mesmo enviando os fazendeiros emissários compradores à cidade de Santos, estes voltam de carroças vazias.
Enquanto sofre o gado no planalto entre a Mantiqueira e a Serra do Mar, em Santos os concessionários do comércio do sal fazem estoque e não o fornecem fazendo um jogo de desabastecimento para aumentar os preços do produto e, obviamente, os lucros auferidos.
Os depósitos estão na cidade de Santos, em armazéns junto ao porto. Estabelecem-se, pois, dois polos espaciais da história: as fazendas do alto, o comércio de Santos. As personagens de um e outro lugar vãos e revezando em episódios narrados com graça por Afonso Schmidt.
Mas o episódio maior, que dá título ao romance, remete à fazenda de Bartolomeu que assume liderança entre os demais fazendeiros e torna sua fazenda lugar de encontro dos muitos outros e das forças em peões e índios e escravos e armas que constituirão um exército que descerá a serra em busca do sal necessário a suas reses. Estava armada a “rebelião dos senhores do campo”. Elabora-se um plano, o grosso da tropa seria conduzido por Gaspar Fogacho, de confiança do fazendeiro. Oficialmente iam como romeiros
“- Viva Nossa Senhora do Rosário!
Vozes incontáveis repetiram o viva. E lá se foi ele, conduzindo empós si centenas de homens fortes e bem armados que batiam com os pés no chão, simulando marcha. Entraram na mangueira, tomaram os cavalos, puseram as escopetas a tiracolo, e partiram com alarido. A noite estava fria. Os caminhos escuros. Mas, sobre a massa negra das serras, pairava uma espada de prata, fina e recurva, como se usava no tempo dos mouros. Era a lua.”
O combinado era o encontro com outro grupo, este capitaneado pelo próprio Bartolomeu, na freguesia de Santo Amaro. De lá, desceriam todos em busca do sal armazenado em Santos. Chegados a Santos, não roubaram o sal. Compraram-no contra a vontade do contratador. Pagaram tudo, incluindo os impostos devidos à sua Majestade. E se foram com o sal serra-acima. Por lá a vida retomou seu rumo, Sulpício se casa encerrando-se no “felizes para sempre” seu namoro com Andressa, de quem se apaixonara por tê-la vislumbrado na janela da Casa Grande.
No entanto, a história não acabará aí. A justiça del Rey, no Desembargador Itinerante, vai encontrá-los e intimidarão a todos. Bartolomeu, que liderara a revolta, acabará indo para Santos e perderá sua fortuna. Seus companheiros fugirão, perseguidos pelas forças que defenderão, sempre, os apaniguados do poder. Isto tudo é narrado com maestria, e seus segredos deixo a descoberta aos leitores, porque é neste patamar dos peões e dos pobres que se desvela a cosmovisão defendida por Afonso Schmidt.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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