Textos sobre textos: O Alfaiate Polonês

O romance de estreia de Débora Finkielsztejn, tudo indica, percorre uma história real  de uma família que sofreu a separação instituída pela Segunda Guerra Mundial e pela intolerância nazista que pensava encontrar numa raça a divindade (os arianos) e o demoníaco noutra etnia (os judeus).

Mas a Segunda Guerra não é o pano de fundo da narrativa, ainda que as histórias de Avrahan e Shlomo somente foram possíveis dada a catástrofe que marcou o século e marcará a história. Linearmente, ao chegar ao final, o leitor recupera os passos da família judaico-polonesa Luitterman.  Moishe, o pai, sai de sua aldeia antes de estourar a guerra, mas já com Hitler berrando na vizinha Alemanha. Vem para o Brasil e aqui se estabelece como alfaiate dois anos antes do resto de sua família.

Enquanto por aqui o imigrante se virava para chegar ao exercício de sua profissão, na Polônia invadida seus filhos mais velhos são incorporados ao exército e por isso não puderam partir com a mãe e os irmãos mais novos para a reunião da família no Rio de Janerio.

Subjugada a Polônia, a perseguição aos judeus se inicia. Shlomo e Avrahan são conduzidos como gado em trem com destino ao campo de concentração de Majdenick. Ambos fogem e cada um segue caminho distinto sem não se reencontrarem. Avrahan não foi bem sucedido na fuga: recapturado vai passar dois anos no campo. Sholomo consegue se esconder, recebe ajuda de um solitário Kaminski que vivia na floresta depois do assassinato de sua filha e morte de sua mulher. Atravessa uma Europa conturbada pela guerra e consegue enfiar-se num navio em meio a carga de alimentos. Chega ao Brasil. E auxiliado pelas organizações judaicas de recepção, reencontra sua família.

Avrahan, enquanto isso, vive os trabalhos forçados e as crueldades do campo de concentração (“Na escalada do ódio, a que ponto poderia chegar a crueldade do homem conta o homem?).  Em tortura no campo, ele perde a memória. Esquece seu passado, e somente sabe seu primeiro nome. Mais tarde, memória recuperada, reflete:

A falta de memória desestrutura qualquer um. Eu havia presenciado suicídios e acessos de loucura de pessoas que não conseguiam lembrar o rosto do filho ou a própria mãe. Não ter uma família para querer reencontrar é muito duro. Quando se perde a memória, mas se está perto de seus familiares ou amigos ou se tem alguma referência como uma casa ou uma cidade, então essas pessoas e o próprio local poderão ser o ponto de partida para a busca do elo que se perdeu. Na situação em que eu estava, não havia conexão.”

Ao final da guerra, Avrahan sai do campo de concentração, perambula por um país arrasado pela guerra. Junto com um grupo, vai para um Israel em formação. Fica por lá dois anos, mas não se acostuma ao calor e viaja para o Canadá, onde, depois de inúmeras dificuldades se estabelece como alfaiate, depois com ateliê de costura para por fim se tornar um industrialista na área de confecções. Suas memórias são somente posteriores aos tempos do campo de concentração e o que se lhe seguiu.

No acaso do encontro com uma D. Hana em visita a Montreal que o confunde com um seu irmão, Avrahan recupera a memória, o sobrenome e começa sua busca da família que descobre existir. Vem ao Rio de Janeiro em visita, ao reencontro com a família, trinta anos depois. Esta visita é, de fato, o pano de fundo da narrativa. Este reatar fios, construir linhas.

É do contar sua história aos familiares que o leitor vai recuperando passados e alinhavando enredos. No entanto, neste narrar emerge um Avrahan excessivamente generoso, excessivamente certinho, excessivamente correto! Não sem agruras, não que tenha se alheado de raivas contra os nazistas. Mas fica um tanto inverossímil um homem assim tão bom!

Como Avrahan jamais constituiu uma família, ainda que ele chegue a pensar nisso apenas uma vez quando vê seus irmãos, cunhadas e filhos em sua visita ao Brasil; como ele se dedicou à confecção de roupas femininas e as mulheres da sua vida são as amigas clientes; como vive só, cozinha e parece cuidar de sua casa solitariamente; como em um momento da narrativa – a autora emprega uma técnica muito interessante para recuperar a história e fazê-la andar, o diálogo de Avrahan com os familiares – um sobrinho aluno do curso de jornalismo o entrevista para o jornal da Faculdade e lhe pergunta sobre namoradas e recebe a resposta de que não deveria ser indiscreto; como em certo momento ele pensa em vir para o Brasil com a família (sendo solteiros), somando tudo, o leitor pode concluir que Avrahan é assexuado ou que é homossexual. Se for este o caso, a delicadeza da narradora em deixar ao leitor a conclusão desvela sub-repticiamente uma crítica ao tabu religioso ou familiar.

 Quem lê o romance percebe: a autora tinha uma história para contar. Conta-a sem rebuscar a linguagem, sem um trabalho de ourivesaria nos modos de dizer, ainda que de repente o leitor se depare como passos como “o farfalhar das folhas e gravetos mastigados pelas suas botas…” ou “Amizades de navio, daquelas que ficam pelo mar”.

É o estilo direto, simples, no entanto, que o fio desalinhavado da narrativa conduz. O leitor alinhava à medida que avança, porque é no narrar que se encontra a criação de Débora Finkielsztejn: um resumo do enredo destrói este trabalho de alfaiate que construiu a autora fazendo cruzarem–se os diferentes caminhos percorridos pelos personagens principais desta tragédia da separação e da solidão. O leitor entra para a história de Avrahan chegando ao Brasil vindo do Canadá; retrocede no tempo para encontrar outro viajante, o pai Moishe chegando ao Rio de Janeiro e sonhando em trazer a família para o país: “Aqui não tem inverno!”! para cair para os modos de sobrevivência de Shlomo. Este desalinhavar do enredo leva o leitor ao alinhavo, e faz deste também um alfaiate! Esta a riqueza deste romance de estreia.

O pai é alfaiate; o filho primogênito será alfaiate; a autora alinhava e desalinhava a história e torna o leitor um alfaiate. O editor trabalha alinhavos desde a capa até o dorso exposto das costuras que unem os cadernos que compõem o impresso. O Alfaiate Polonês (Babilônia Cultura Editorial, 2016) consegue prender o leitor, carregá-lo através da história, fazendo não esquecer os dramas da guerra e do Holocausto.

Seu tema é o tema do reencontro, o tema da busca, dos laços de sangue que não se desfazem, ainda que as condições de sobrevida tentem impedir que a vida seja boa e compartilhada pela proximidade física com aqueles a quem se ama.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.