TEXTOS SOBRE TEXTOS: MINUANO

O reconhecido autor de Netto perde sua alma, Tabajara Ruas, escritor, cineasta e roteirista (ele adaptou O Tempo e o Vento para a Rede Globo) retorna a um tema que já explorara em Varões Assinalados: a revolução farroupilha.

Minuano (prêmio Açorianos de 2014), título do romance e nome da personagem principal deste enredo, é um potrinho que assume o papel de narrador. Nascido numa estância dos Campos de Cima da Serra – em fazenda próxima aos cânions gaúchos – ele acompanha a vida pacata do campo, com seus medos desde que fora atacado por um leão dourado que o deixou manco para o resto da vida.

A rotina se vai quando chega a notícia da guerra. Bento Gonçalves se insurge contra o Império e deflagrava um conflito que terá a duração de dez anos, com inúmeros feitos heroicos, incluindo o transporte por terra de um navio até o porto de Rio Grande na Lagoa dos Patos.

Minuano tudo observa, tudo vê e vai narrando seus feitos numa linguagem que se aproxima da literatura juvenil. Mas suas reflexões adultas dão conta de momentos de alto impacto narrativo. Depois que todos partem da fazenda, os homens para a guerra, as mulheres para Porto Alegre, ficando somente a Dona com mucamas e três peões velhos. Velhos também foram os cavalos que permaneceram no curral, porque sem serventia para guerrear. E Minuano por jovem e por manco.

Nenhuma notícia do que está acontecendo chega à estância. Mas em certo dia aparece a pé um homem feito, barbudo, que se apresenta à Dona querendo comprar um cavalo porque o seu havia morrido por picada de cascavel.

A Dona diz não ter cavalos, mas o forasteiro aponta para Minuano. Recebe a resposta que este jovem cavalo ela só daria a Bento Gonçalves, que então se identifica. Estava vindo da Bahia, onde esteve preso, e voltava para assumir o comando. Saiu da fazenda montando Minuano. A conversa entre cavaleiro e cavalo, ao longo da travessia de um cânion é memorável.

Chegado ao acampamento farroupilha, Minuano perde sua posição de montaria do principal! Mas continuará prestando serviços durante a revolução, como carregador de água para a tropa.

Nesse meio tempo se apaixona por uma bela égua, Esmeralda! Um romance que não teve futuro, e assim como começou se perdeu passando a residir somente nas lembranças constantes de Minuano, que acompanha o Corpo de Lanceiros, composto por escravos libertos.

Como sempre, em Tabajara Ruas, um enredo não deixa de conter retornos a verdades esquecidas. Elas aparecem de forma explícita em Minuano em duas ocasiões. Na primeira em reflexões de Minuano tentando entender o que estava acontecendo e o porque de uma guerra tão longa:

“Aquela era uma guerra muito estranha. Tentávamos entender o que acontecia, e de suas conversas com Fatumbi, deu para entender alguma coisa. Dizem que essa guerra foi por causa do imposto sobre o charque. Não acredito numa coisa tão ridícula. Escutei muitos discursos falando em república e abolição, a maioria pura lorota, mas nunca ouvi nenhum político de cartola e colarinho alto ou um desses oficiais cheios de medalhas encherem o peito e conclamar os soldados a morrer lutando contra o imposto sobre o charque. Precisa ser muito idiota para ir morrer por uma coisa dessas. Não existe heroísmo nenhum na guerra, só dor e desespero.” (p.70-71)

O segundo momento explícito de verdades esquecidas no que se ensina nas escolas é o episódio do massacre dos soldados negros que compunham o Corpo de Lanceiros. Como já se negociava a paz, um impasse era o destino dos soldados negros (para eles os revolucionários tinham oferecido a liberdade terminada a guerra). Este tema deixa perturbados os soldados.

“A noite foi de murmúrios e pequenas reuniões secretas no acampamento, porque as armas de fogo do Corpo foram sendo recolhidas. Pistolas, revólveres, rifles e arcabuzes antigos eram recolhidos e jogados em um enorme e sólido baú, e chaveado. A chave foi entregue ao novo comandante do exército farroupilha, o general Davi Canabarro. Toda a munição também foi recolhida e depositada num enorme baú, também sólido como rocha, e chaveado, e a chave foi entregue para o general Davi Canabarro.” (p.90)

O Corpo, composto por 300 lanceiros, desarmados de arma de fogo, foi atacado pelo exército dos imperiais, comandados por Cabeça de Moringue. “O que aconteceu naquela noite de massacre em Porongos se resume a duas palavras: infâmia e horror”. Morto o grosso do exército negro dentre os farrapos, estava resolvido o problema do futuro dos escravos e a paz poderia ser assinada sem “desonras”.

Mas os que sobraram deste massacre, Minuano entre eles, liderados pela rainha negra Djinga e seu marido Fatumbi saem em busca de um lugar muito escondido para fundarem um quilombo.

As passagens citadas mostram o estilo usado na narrativa. Enunciados contundentes. Neles nada sobra. Ao estilo épico com que cantam a Revoluão Farroupilha, o gaúcho Tabajara Ruas responde com um estilo direto, simples, sem rodeios. E o achado de fazer falar o cavalo, um potrinho que cresce e se torna adulto, maduro e veterano de guerra, torna este romance excepcional. Aliás, os leitores de Tabajara Ruas já estão acostumados com sua forma de fazer o enredo enredar e funcionar, desde o inigualável O Amor de Pedro por João, uma das grandes narrativas que tem como fundo a ditadura militar brasileira.  

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.