Textos sobre textos: Major Calabar

O nome de João Felício dos Santos aparece naquelas informações nos letreiros iniciais e finais de filmes a que acabamos, injustamente, não dando maior atenção. O popular Xica da Silva, direção de Carlos Diegues, resultou de uma adaptação feita pelo próprio autor e certamente não será somente por causa deste Xica da Silva e de sua adaptação ao cinema, apesar do sucesso do filme, que João Felício será lembrado.

O poeta e romancista carioca tem seu lugar na história das letras brasileiras particularmente por seus romances históricos (João Abade – sobre Canudos; Carlota Joaquina, a rainha devassa; Ganga Zumba sobre Zumbi e Palmares, também levado ao cinema por Carlos Diegues; Cristo de Lama, sobre o Aleijadinho, este levado ao cinema sob a direção de José Medeiros).

Major Calabar nos conta, de forma romanceada, a história do homem que aprendemos a  ler nos livros escolares como exemplo de traição junto com Joaquim Silvério dos Reis. Obra publicada em 1960, já revisa a história oficial da traição, apontando simpaticamente para as razões efetivas que levaram Domingos Calabar para o lado holandês durante os começos da invasão em Pernambuco, nos anos 1630.

Neste tempo histórico, a coroa portuguesa estava sob a cabeça dos Felipes de Espanha, uma dinastia de Castela que reinou em Portugal por longos 60 anos. Reinando em Portugal, Castela também reinava sobre suas colônias, de que na verdade apenas queria as arrecadações de impostos e tributos, taxas e alfândegas. Os portugueses daqui obviamente se aliaram aos de Castela na exploração da terra e das gentes aqui nascidas.

Calabar é filho de português (um Saavedra, possivelmente) com índia (batizada Ângela). Mameluco. E quando da invasão holandesa, guerreou sob as ordens do comandante geral Matias de Albuquerque, defendendo a terra que era sua. Ainda que não admitido nas reuniões de Comando, Calabar era o líder maior nas investidas contra os invasores holandeses.

Um estrategista militar nato, percebendo erros na condução da guerra, tentou convencer o alto comando sobre a necessidade de investidas que fustigassem os holandeses, sem um confronto direto e maciço. Aproveitar-se-ia o colonizador (porque não deixavam de ser colonizadores os portugueses e os castelhanos) do conhecimento da terra e do agreste pernambucano. Foi rechaçado pelo veneziano Conde Bognuolo, a quem Castela entregara a defesa do território.

Proibido de deixar o reduto em que, fugindo de Olinda, estava o comando das forças da terra, Calabar assim mesmo visitava o porto de Recife e avaliou a diferença com que os holandeses edificavam uma cidade e a exploração sempre presente na provisoriedade que sempre deu Portugal ou Espanha à Colônia.   Bandeou-se para os novos “colonizadores” que tratavam a terra como espaço de vida e não como território a ser meramente explorado.

Sem dúvida, a Companhia das Índias tinha interesses financeiros na empreitada da invasão, mas seus representantes agiam como quem queria construir uma civilização nos trópicos, uma Holanda tropical (como acontecerá mais tarde com as iniciativas de Maurício de Nassau, que conhecemos como holandês, mas nascido em Siegen na Alemanha, onde até hoje está o castelo dos príncipes de Nassau, principado importante pois se tratava de príncipes eleitores).

O enredo criado por João Felício dos Santos dá humanidade ao guerreiro; dá vida aos invasores; dá amores aos habitantes, do escravo ao oficial. Conta-nos um episódio da história, datando e chamando as personagens históricas por seus próprios nomes, mas inventando uma vida cotidiana para todos num Pernambuco recém em construção.

É o enredo assim criado a partir da história recuperada que conduz o leitor ávido por acompanhar os passos sabendo já, desde o começo, que Calabar não conheceria a Olinda e Recife de Maurício de Nassau. Por traição, acaba abatido numa emboscada depois de ter conseguido ampliar o território holandês na costa brasileira, depois de inúmeras vitórias e depois de ter, também ele, confiscado bens que engordaram os cofres da Cia. das Índias.

O enredo merece leitura. Os modos de dizer são conduzidos pelo enredo. Em capítulos curtos, cada um focando um episódio, entremeado de capítulos que informam da vida de algumas das personagens, ainda que fictícias ou de reflexões destes personagens, uma espécie de suspensão do fio narrativo.

Às vezes ocorrem metáforas que soam como clichê (até que os galos clarinassem os quintais), ou pequenas passagens escritas desnecessariamente para talvez mostrar um domínio da língua e das suas formas de dizer (Na sarabanda das crinas unindo no vento como labareda assanhada, o cavalo de Sebastião Souto soltava bocados de espuma nas mordidas do freio, suor branqueando no roçado das rédeas, recendendo nos baixos do sexo inteiro.). Mas há achados extremamente interessantes neste agir sobre a língua para fazê-la significar diferentemente como em “Durante a noite, chuva foi de encharcar chão. Chapinhando na lama dos becos, cordas d’água caíam na vertical, com a monotonia melancólica de velhas rezando em coro. Amanheceu cinza pesado de crepúsculo” ou em “Quando o major sentiu o pesado dos sapatões sumirem, ruído no corredor…”. Há muito mais.

Uma reflexão que merece citação, atribuída a pensamentos do Major Calabar:

Senhor dos Passos… passos… passos perdidos – o major foi-se pensando. – Quais passos são os perdidos? Que direções levam? Quantos passos um filho de Deus dá nos tombos da vida? Que importa a direção se todos eles nos aproximam fatalmente do último? Todos os passos nos levam à morte! Todos, desde o primeiro! Cada um é sempre um a menos no bojo do tempo, é sempre um passo mais próximo do fim. Nenhum é perdido! Não importa que caminhos sejam os percorridos; subindo montanhas ou descendo ladeiras: para a guerra ou para o amor… Evidente que todas as viagens acabam um dia. Então, que coisas valem a pena serem feitas? Alguma existe que não se afunde no mar ou que o vento não leve? Quem sabe onde vão parar as coisas atingidas por nossos passos?” E há muito mais.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.