Textos sobre textos: Lis no peito. Um livro que pede perdão

Se me fosse dado acrescentar um epíteto a Jorge Miguel Marinho, ele se chamaria Jorge, o Sensível. Qualquer dos livros que publicou sobejamente mostra esta sensibilidade. E em Lis no Peito, um livro que pede perdão, o leitor se defronta a cada página com esta característica de apreensão amorosa do mundo, das pessoas que nele transitam (nos dois sentidos desta provisoriedade), dos sentimentos que compartilhamos mesmo que os escondamos envergonhados de chorarmos por amor, alegria ou tristeza.

Este livro é considerado de literatura infanto-juvenil. Chamo atenção ao “considerado”, porque se trata de livro tanto para jovens quanto para maduras pessoas que tenham sensibilidade ao amor, que se deixem atravessar pelo drama dos outros que é também nosso.

Listando os prêmios que recebeu o livro, já dá para aquilatar o sucesso obtido no seu lançamento em 2006: Prêmio Jabuti (CBL); Prêmio Orígenes Lessa (FNLIJ), White Ravens (Biblioteca de Munique) e considerado pela Fundação Nacional do Livro Infato-juvenil como “Altamente Recomendável”. Para não perder tempo e palavra, recomendo-o o mais alto que posso.

O autor põe em cena um narrador-escritor que não se furta em conversar com os adolescentes em suas escolas. Um narrador-escritor que tem uma preocupação essencial com a leitura, de modo tão incrustrado na vida que este livro poderia também ser chamado de um tratado da leitura. Ou de um estudo sobre Clarice Lispector, de que extrai seu próprio título.

Lis no Peito (Lispector) tem a fragilidade do lírio que introjeta. E nos conta uma história de amor e crime num diálogo a três ‘personas’ dramáticas: o narrador, Clarice Lispector e Marco César, personagem principal da história.

Faz-nos crer o narrador: Marco César lhe contou a história. Marco César lhe “encomendou” o livro. O autor-narrador se deixou possuir pelo pedido: escreveu uma versão em treze páginas que Marco César copiou e fez circular em sua escola, entre seus colegas. Que história?

Marco César é um adolescente que se inicia na juventude, com 17 anos. Sujeito meio desajeitado, que “acordava sempre atrasado para a vida como todo mundo que tem 17 anos”. Constantemente puxando as calças caídas e cuspindo de lado, fazia uma figura solitária e à procura sem saber o que procurava.

O narrador-autor o conhece quando foi para um destes encontros entre escritores e estudantes. Marco César não quis ouvi-lo, mas depois o procurou para lhe contar a história que constitui o enredo narrado: um jovem desencontrado que perambula em busca, que encontra primeiro uma voz de Clarice, uma colega de escola, por quem se apaixona. Em amor correspondido, vai adiando o primeiro beijo, desejado por um, ansiado por outra. Clarice lê Clarice, a Lispector. Uma paixão outra. Marco César dela (a escritora) se aproxima lendo-a esparsamente, abrindo uma página aqui, outra acolá. Quer conhecer quem Clarice, sua paixão, conhece.

Numa de suas buscas de livros da autora, ao retirar o volume da prateleira, vê Clarice se beijando com Jarbas, um colega que considera andrógino, sem decisão entre ser homem ou mulher. E daí decorrem o crime, as maldades vingativas, e o pedido de perdão que faz o livro-arrazoado justificando o crime sem deixar de com ele se assustar. Mas estas passagens todas, deixo para a curiosidade do leitor! Suspense não se entrega, ainda que todo texto que se escreve seja uma entrega.

Do ponto de vista formal, da técnica narrativa, é preciso ressaltar esta polifonia e ambiguidade: há um autor real, Jorge, o Sensível. Este põe em cena um narrador-autor do livro que se lê. E o narrador confessa: sua narrativa não lhe pertence, foi-lhe dada pela personagem Marco César. Esta técnica polifônica posta em movimento poderia ser resumida numa pergunta-síntese que faz uma injunção contínua sobre o leitor, num diálogo tenso em busca de uma compreensão com-paixão: “Você me entende?” pergunta que percorre a narrativa e com que se encerra o livro. Entender, compreender, tornar claro… Clarice, misteriosa e indecifrável. Você me entende?

Este jogo de narradores se torna mais complexo pelo agenciamento de uma presença constante: Clarice Lispector. Desde o título que lhe copia o nome familiar, passando pelos títulos dos capítulos, sempre uma citação da autora, para descambar num comentário de sua obra distribuído ao longo da narrativa para construir a compreensão dos gestos de amor, ódio, ira e vingança de Marco César. Clarice esclarece deixando o mistério.

Para embrulhar um pouco mais, Marco César havia de se apaixonar pela menina Clarice, a leitora de Clarice! Duas Clarices numa só vida. Uma delas há de sofrer a mutilação que Marco César não pode realizar na outra, aquela que ama descobrindo que ama a outra, a escritora, depois de mutilar suas páginas e sangrá-las com uma leitura apaixonante e apaixonada.

O leitor se vê envolvido pelos dois níveis da trama: aquele do enredo e aquele da excelente técnica narrativa que somente poderia ser inventada por um Jorge, o Sensível. Somente para dar um gostinho a meus leitores, algumas passagens desta sensibilidade com as pessoas e com as palavras, que faz da amoreira o espaço do amor rubro como a amora:

“… havia qualquer coisa nele [Marco César] que me irritava e me comovia – era a dignidade do silêncio, hoje eu sei.”

“Ele era como uma galinha ensaiando um voo, uma galinha dando cona da vida aos sobressaltos – […] É isso: o susto era o que movia o tamanho dele…”

“Dentro do amigo, você planta uma lua, você esquece um diário, você repousa todos os sonhos e fica por exatidão.” [enunciado apresentado como citação de outro livro do autor]

“Nunca tive tanta certeza de que amigo é uma mão na outra distraidamente e, aos poucos, sabendo tanto.”

“… viver tinha que ser mais, e justamente por isso sua enseada mais familiar era morar dentro dele e quase sempre permanecer completamente só.”

“… escrever é uma forma de ver e ver me deixa confuso.”

“… acordar assim, provavelmente um pouco mais esvaziado de futuro…”

“… o preconceito, motivado pelo que pode ser aparentemente diferente, correu solto no ar, sem contar o sentido de novidade que atrai e aguça os sentimentos de quem precisa agonicamente culpar as pequenas e grandes diferenças, testemunhando uma lágrima acidental capaz de cortar o voo de um pássaro anônimo ou esmagar a fragilidade de uma flor-de-lis – se é que você me entende ao menos nesse aspecto da natureza humana.”

Resta dizer ainda: o trabalho gráfico da edição deste livro é simplesmente estupendo! O colorido das páginas que dão títulos aos capítulos (enunciados de Clarice Lispector), o negrume das páginas que introduzem uma suposta errata (ou página solta) e a impressão perpendicular do texto destas páginas: um encanto a mais para uma história que encanta cujos meandros do narrar cantam a sensibilidade e destravam a emoção justa do autor, do narrador-autor, de Marco César, de Clarice, de Clarice Lispector e… do leitor, este co-autor que atravessa tudo nos entremeios da vida e das palavras. 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.