TEXTOS SOBRE TEXTOS: LEITURA EM BAKHTIN E PAULO FREIRE (1)

Quando as teias de aranha se juntam

elas podem amarrar um leão.

(Provérbio africano. Mia Couto, A confissão da leoa)

Para perseguir seu tema – a leituraEdite Marques Moura entrelaça as vozes de Paulo Freire, educador que explicitamente tratou do assunto, e de Mikhail Bakhtin, filósofo que leu a vida toda para nos legar uma obra sobre a linguagem sem a qual não há leitura alguma. Dois alicerces de peso, dois teóricos do diálogo contracenando no bordado que constitui este Leitura em Bakhtin e Paulo Freire: palavras e mundo (São Carlos : Pedro & João Editores, 2012): um desenho da arquitetônica da pedagogia freireana da leitura.

Escolher uma galeria temática para percorrer, seja ela qual for – consciência, diálogo, sujeito, de um lado, e medo, paraíso, inferno, pecado, de outro lado, tem sido um caminho contemporâneo de aproximação aos objetos sobre que nos debruçamos quer estejamos interessados em filosofia e educação, como acontece em geral nos trabalhos sobre os três primeiros conceitos elencados, quer estejamos interessados na história, construída e ao mesmo tempo sofrida pelos homens no grande tempo. Um tema se desdobra, se esconde, se desvia, desaparece e reaparece alhures. Não se deixa fixar, mas também não é fuidez impalpável, porque seus rastros materiais estão visíveis (eles estão, não são) e se fazem âncoras para um bordado imaginado como hipótese.

Eis, pois, a hipótese deste traçado: “Nossa hipótese, então, é que os conceitos sobre quais se assentam os dois pilares da Pedagogia de Freire para a alfabetização – leitura do mundo e leitura da palavra – pautam-se no dialogismo, a serviço do qual estão conceitos como linguagem, palavra, consciência e diálogo.” Uma hipótese é uma chave de leitura; é uma contrapalavra construída no embate direto com os dados, neste caso as obras dos dois autores tomados como referência. Ela não pré-existe sem que o confronto tenha começado: se fosse absolutamente prévia, cegaria os dados, eles nada diriam. A monologia se estabeleceria ao gosto diretriz e autoritário do pesquisador: os sentidos já dados antes mesmo de a pesquisa começar; se em algum momento o gesto imaginativo de sua elaboração não vier a acontecer, conceitos retomados, descrições minuciosas ou fotográficas se sucederiam e nada de novo se acrescentaria ao já sabido.

Edite Moura mostra aqui que sabe caminhar sem reduzir as palavras pronunciadas por Freire e por Bakhtin aos sentidos únicos que referendariam sua tese, e ao mesmo tempo que nos conduz pelos conceitos tomados como lugar de encontro dos dois autores – linguagem, palavra, consciência, comunicação, conhecimentos, conscientização, humanização, alfabetização, diálogo, dialogismo, interação – recuperando-os, com astúcia e perspicácia, desenha um quadro das propostas freireanas sobre a leitura. Não se pode deixar de notar, com a autora, que a leitura aparece desde sempre na obra de Paulo Freire, pois alfabetizar-se é libertar-se dos limites impostos pelas condições materiais efetivas para as interações possíveis, ultrapassando tempos e espaços da vida concreta, enriquecendo-a com a experiência passada e registrada para alavancar as transformações do presente segundo uma memória de futuro onde os homens se humanizam em suas relações constitutivas. Também não dá para deixar de ressaltar o fato de que em Paulo Freire a questão da leitura torna-se tema explícito a partir da obra Ação cultural para a liberdade. Outra lição implícita na obra do mestre: leitura, cultura e liberdade andam juntas.

Freire e Bakhtin comungam um ponto de partida: o homem é um ser de relações, portanto histórico, com tempo e espaço definíveis mas jamais delimitados: as fronteiras são limites a serem ultrapassados pelas transformações que a ação humana responsável é capaz de realizar. Um sujeito assim concebido, extremamente constrangido pelo seu tempo e espaço (entenda-se este como também social e histórico), mas não limitado às constrições porque capaz de imaginação, não é um sujeito individualmente potente: ele se constitui no seu espaço e a consciência que constroi em sua história é aquela que resulta de suas interações com a alteridade. A linguagem é a atividade constitutiva do homem e sua consciência. O diálogo, que não exclui a contraposição, a negação, a polêmica, é o caminho deste trabalho sem fim que nos faz sermos o que somos sem nos limitar a sermos sempre o mesmo: somos muitos com os muitos outros que nos rodeiam.

Aceitando este pressuposto de um processo histórico constitutivo do homem; e aceitando que a humanização do homem é produto da história e não tem um ponto de chegada pré-dado; e aceitando que a caminhada humanizante não é linear nem constante, com recuos (as muitas guerras estão aí para comprovar tal ponto de vista) e avanços que somente a perspectiva do grande tempo é capaz de detectar, os autores, com suas diferenças, acabam nos propondo não só uma compreensão dos processos, mas também um modo de agir – e apor nossa assinatura – nesta história sem fim de que, queiramos ou não, somos protagonistas.

Ler este livro exigirá responsabilidade do leitor: o engajamento dos autores de referência e o engajamento daquela que traça o bordade exigirão estudo e “estudar seriamente um texto é estudar o estudo de quem, estudando, o escreveu. É perceber o condicionamento histórico-sociológico do conhecimento. É buscar as relações entre o conteúdo em estudo e outras dimensões afins do conhecimento”, como nos ensinou Paulo Freire.

Da caminhada desta leitura sairemos enriquecidos pelo diálogo triangular que o livro propõe e ao qual chegamos como mais uma voz não silenciosa: se o texto nos pode cativar, a experiência cuidadosa da leitura abrirá horizontes de possibilidades de ação cultural para a liberdade num mundo que definiu esta como mera escolha entre mercadorias postas a nossa disposição. Ler este livro é já saber que outras alternativas são possíveis.

Nota

  1. Texto publicado como prefácio do livro.

                                                                                 

  

     

           

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.