Todos nós conhecemos a história de Fausto, e praticamente todos nós vimos algum filme baseado na obra de Goethe. Esta obra monumental da literatura alemã e da literatura universal é, no entanto, pouco lida. Como diz ErwinTheodor no prefácio à edição que estou acabo de ler (Belo Horizonte, Editora Itatiaia, tradução de Jenny Klabin Segall, 2ª. Edição, 1987): “… nos cento e cinquenta anos decorridos, incontáveis trabalhos acadêmicos, eruditas exegeses, interpretações individuais e outras e caráter geral foram publicadas no mundo inteiro acerca do Fausto. Existem volumes completos, devotados a enumerar e caracterizar os trabalhos realizados, e análises e pesquisas vêm considerando todas as feições da obra, confrontando autor e estrutura dramática, linguagem e símbolos, referências históricas e alusões eruditas, assim como a mistura de estilos, a versificação e o ritmo, incidindo, ora em aspectos biográficos, ora em filosóficos, filológicos ou históricos. Mas em virtude da preocupação acadêmica, esta obra máxima da literatura alemã está ameaçada de tornar-se, tal como acontece com o marco supremo da literatura italiana, a Divina Comédia, um “monstro sagrado”, a afugentar os leigos da leitura que, entretanto, é das mais fascinantes experiências a levar – uma vez realizada – a sempre renovados contatos com o todo, que desvelam em cada oportunidade aspectos novos e imprevisíveis.”
Para mim, também Fausto estava fora de órbita… até que venci o medo provocado pelo excesso de discursos sobre a obra. Li! E me deliciei com os versos de Johann Wolfgang von Goethe (*1749 – +1832). Já conhecia a história na forma de episódios que fundaram filmes. De tanto ouvir falar, conhecia Mefistófeles e suas manhas. Sabia do desafio entre Mefistófeles e o Supremo para ver se ele conseguiria “desviar Fausto”. Mas somente lendo tive consciência de que o acordo entre Fausto e Mefistófeles foi em troca deste fornecer aquele as chaves do conhecimento… ainda que todas as “tentações” tenham sido propostas a Fausto que perambulou pelos prazeres da carne, realizou o sonho do encontro com Helena (talvez os episódios com maior número de referências à mitologia clássica), tornou-se rico em sonho… mas no segundo Fausto (2ª. Parte) tem a alma salva pelos anjos, num final que surpreende pelo culto mariano que o orienta.
Como tudo isso é conhecido, não vou aqui resumir episódios (inúmeros), nem tentar uma interpretação própria, que não há!!! Ressalto que a leitura do final da primeira parte e os primeiros episódios da segunda parte fornecem em si um curso de mitologia clássica. É ler e ir buscando no Google as informações para se deleitar com a erudição de Goethe.
Para meu registro desta leitura, prefiro trazer alguns versos da obra, dentre aqueles que sublinhei ao longo da leitura. Não dá para trazer todos: seriam páginas de sublinhados.
O dia de hoje e o seu urgente apelo
Vale também algo, ao que creio. (Bufo, Prólogo)
…
Viveria ele algo melhor, se da celeste
Luz não tivesse o raio que lhe deste;
De Razão dá-lhe o nome, e a usa, afinal,
Pra ser feroz mais que todo animal. (Mefistófeles, Prólogo)
…
Mas nunca falareis a um outro coração,
Se o próprio vos não inspierar. (Fausto, Noite – diálogo com Wagner)
…
O que se ignora é o que mais falta faz,
E o que se sabe, bem algum nos traz. (Fausto, idem)
…
E assim que em vós mesmo confiardes,
Os outros em vós confiarão. (Mefistófeles, episódio do Estudante)
…
Ficai avisados,
Morreríes gelados
Se os brutos não suassem. (Lenhadores – episódio do Carnaval)
…
“Saiba o país para os devidos fins:
Este bilhete vale mil florins.
Garante a sua soma real o vulto
Do tesouro imperial no solo oculto.
Dele se extrai logo a riqueza imensa
Com que o valor do papel de compensa.” (Chnceler. Criação do papel-moeda pelo Imperador)…
…
Livre-nos Deus! A procriação, como era nates,
Hoje qual vão folguedo valha.
O frágil núcleo gerador da vida
A suave força, do íntimo surgida,
Tomando e dando para enfim formar-se,
Da essência própria e alheia apoderar-se,
Foi derrubada do alto pedestal.
Se a besta se contenta ainda com tal,
Os sumos dons do ser humano exigem
Ele provir já de mais nobre origem.
Vede! Reluz! – séria esperança augura,
Se de substâncias mil, pela mistura,
A humana essência – a mistura é o jeito –
Composta for e se unifique,
E destilada no alambique
Se coalhe e se solidifique,
Eis realizado o grande feito
Mais clara, clara a massa se revolve!
Mais firme, firme, a fé no êxito evolve!
Da natureza o enigma que exaltamos,
Sujeitá-lo a experiência sábia ousamos.
E o que lhe couve outrora organizar,
Pomos nós a cristalizar. (Wagner, 2º. Ato. Discute-se o conhecimento.
Antecipa o “clone”?)
…
O velho brado repercuta:
“Rende obediência à força bruta!
E se lhe obstares a investida,
Arrisca o teto, os bens e a vida.” (Coro, 2ª. Parte, Noite profunda)
Espero que o aperitivo leve outros a ignorarem o excesso de erudição que envolve a obra, e a enfrente como leitor sem pretensões de dizer sobre ela uma palavra nova. No entanto,
Que eu já não deva, oco e sonoro,
Ensinar a outrem o que ignoro.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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