Como os tempos são tristes e o horizonte visível mostra que a tristeza aumentará, principalmente considerando as decisões judiciais, as liminares à Gilmar Mentes, o apoio de membros do STF à PEC 241, que poderão ser chamados a julgarem e obviamente depois de já terem opinado não se considerarão suspeitos e julgarão, mostrando que o sistema Moro faz escola, é preciso retomarmos os tempos que pensávamos não mais voltariam.
Fui fuçar na minha biblioteca, livros lidos então, nos tempos áureos da ditadura militar. Lembrava a peça de Plínio Marcos, um dramaturgo cuja história não pode ser esquecida: Barrela.
Localizei o livro entre aqueles que estavam nas partes escondidas da prateleira! Retirei-o e o coloquei em outro lugar, junto aos outros livros. Demorei dois dias para reencontrá-lo. E o devorei mais uma vez.
Barrela é uma peça de um único ato. E todo ambiente é uma cela de cadeia, em que convivem Portuga, Bereco (o “xerife” cuja voz é ordem para os demais presos), Bahia, Tirica, Fumaça e Louco. Seis presos amontoados. Quase ao final do ato, um Garoto é jogado na cela e é currado por cinco dos presidiários.
Barrela “é a borra que sobra do sabão de cinzas e que, na época, era a gíria que significava o mesmo que curra, ou seja, quando todos estupram um.”
A grande novidade introduzida por Plínio Marcos foi a linguagem solta, com o registro da oralidade, com o vocabulário em circulação no meio de presidiários e da malandragem e do crime. Diálogo rápido, de intervenções contínuas com um estribilho enunciado sempre pelo Louco: “Enrraba! Enrraba ele”.
A questão posta pela peça é a da sexualidade do presidiário, e ao mesmo tempo, a da violência sexual nos presídios.
A história é a de uma peça sem sucesso: escrita em 1951, não viu o palco porque sua primeira montagem foi proibida pela censura! Depois disso, no mínimo por mais umas três vezes equipes tentaram montá-la, mas sempre que chegava a hora da apresentação, do ensaio geral, a censura vinha e cancelava o espetáculo!
Obviamente, depois de instalada a ditadura militar, Barrela entrou para o índice das peças proibidas. Apesar da censura, com o teatro cercado por policiais, houve três sessões. Aliás, Plínio Marcos tornou-se autor suspeito, eternamente suspeito em todas as peças que escreveu – Jornada de um imbecil até o entendimento; Navalha na carne; Quando as máquinas param… só para citar as mais famosas.
Barrela, apesar ser a primeira peça que escreveu, somente foi editada em 1976, quase dez anos depois de Navalha na Carne. A peça não conheceu o sucesso de palco, mas encontrou um público leitor ávido: fazia eu o mestrado quando o comprei o livro na Livraria Pontes de Campinas! E o meu exemplar circulou em muitos leitores.
Penso que os tempos tristes e sombrios que se aproximam levarão a um retorno a Plínio Marcos e nele todos nós teremos que aprender ou a linguagem escrachada com que desafiar ou a linguagem metafórica com que ludibriar – Plínio Marcos e Chico Buarque – para sobreviver à censura que se imporá não pela via da polícia política, mas pelas vias judiciais com o direito da excepcionalidade.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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