Textos sobre textos: Armas de Papel

O português José Pacheco Pereira, ex-deputado à Assembleia da República e ex-deputado do Parlamento Europeu, professor e historiador, realizou um trabalho de fôlego para produzir o livro As Armas de Papel. Publicações periódicas clandestinas e do exílio ligadas a movimentos radicais de esquerda cultural e política (1963-1974). Edição do Círculo de Leitores (2013), o alentado estudo contém a análise de 158 periódicos que circularam clandestinamente em Portugal até a Revolução dos Cravos.

O livro está dividido em duas partes. Na primeira parte há um estudo geral sobre esta imprensa revolucionária. O autor começa por estabelecer um conjunto de critérios a partir dos quais definirá a inclusão dos periódicos como do movimento radical de esquerda. Estes critérios são de ordem política, temática, sociológica e cronológica. Definirá também que

“Entendem-se como clandestinas todas as publicações consideradas ilegais à luz da legislação vigente e que não eram sujeitas a qualquer censura. O seu conteúdo era ilegal, a sua publicação era ilegal e a sua distribuição era ilegal. Todas estas atividades eram suscetíveis de dar origem a prisões pela PIDE, a processos-crime e a condenações” (p.28). (PIDE é a polícia política do regime de Salazar).

Todas as publicações acabavam por definir a própria existência de cada um dos grupos e todos estes invocavam o que defendeu Lênin: “o jornal como agitador, propagandista e, acima de tudo, como «organizador de massas»”(p.30).

Seu estudo focaliza os processos técnicos de produção destes periódicos e suas dificuldades em função da clandestinidade. Um movimento ter condições de dispor de uma “tipografia” com que editar seus periódicos era tido como essencial. As tecnologias então desenvolvidas, na esteira da experiência do Partido Comunista Português, que tinha não só maior experiência mas também melhores condições técnicas, passaram tanto pelo mimeógrafo a álcool, como pelo mimeógrafo a tinta (copiógrafo no vocabulário português). As publicações feitas no exterior, por pessoas exiladas, podiam contar até mesmo com tipografias legais nos países em que os jornais eram impressos, particularmente na França.

A maioria, no entanto, era produzida de forma artesanal. Há publicações que contém inclusive as instruções para “fabricar” artesanalmente um copiógrafo. Pode-se imaginar as dificuldades enfrentadas pelos grupos de esquerda com suas “tipografias” que precisavam mudar de endereço continuamente para evitar sua queda. O autor também dá notícias até de panfletos impressos com carimbos de borracha; textos datilografados com cópias carbono (no máximo de dez cópias) que circulavam e que serviam de base para novas cópias feitas por militantes. Raramente havia publicação manuscrita, como acontecem nas prisões. Isso porque o manuscrito pode identificar os autores. Até mesmo o cuidado de não usar a máquina de escrever para outros fins, pois os tipos, as fontes, pequenos defeitos etc. podem identificar a máquina e através dela os membros do movimento de esquerda.

A introdução de ilustrações, de bandas e a produção de cartazes foi uma luta também contra a tecnologia disponível! Era preciso compor os desenhos com estilete em stencil tarefa nada fácil. Assim mesmo, havia a presença de ilustrações em muitas destas publicações, particularmente cópias de imagens de jornais maoístas ou soviéticos, ainda que o artista Vasco tenha publicado inúmeros de seus trabalhos nestes periódicos, quase todos ainda anônimos. Há no livro de Pereira a reprodução de um cartaz produzido pelo artista (p.45).

Também as dificuldades de circulação do material são focalizadas. Se havia grande dificuldade em imprimir os textos, os jornais, a sua distribuição tinha que ser feita por militantes correndo riscos de prisão! Instruções precisas sobre os modos de distribuição eram fornecidas: não carregar muito material ao mesmo tempo; não carregar em bolsas ou pastas identificáveis, etc.

 A segunda parte do livro apresenta os periódicos estudados. Em ordem alfabética, cada verbete é dedicado a uma publicação. Contém sempre uma breve apresentação do movimento responsável pelo periódico, alguns dados sobre tiragem e circulação quando disponíveis, informações sobre as tecnologias usadas. Além disso, o autor publica páginas fac-similadas e ilustra seu “dicionário de periódicos” com vasto material original.

Considerando as formas de produção clandestina, sua circulação perigosa, pode-se aquilatar a dificuldade de uma pesquisa desta ordem! Um verdadeiro trabalho de arquivista que deixa registrada toda uma experiência de clandestinidade, de resistência e de sobrevivência em períodos ditatoriais.

A questão com que gostaria de terminar esta breve nota sobre um grande livro, é relativa às novas formas de circulação de ideias, de textos. Poderá a internet fazer da imprensa clandestina do passado? Como todo computar tem um ID, e como é possível chegar a fonte de onde um “material subversivo” saiu, teríamos que retornar no futuro das ditaduras – e a questão é urgente para a situação brasileira deste momento – à imprensa clandestina? Ou acharemos fórmulas de fazer circularem textos de resistência mesmo quando o regime fechar, como há de fechar para garantir o ataque aos direitos sociais e à cidadania brasileira? Os blogueiros não são clandestinos! A liberdade de expressão pode deixar de existir, já que a denúncia judicial pode ocorrer mesmo que não haja provas de crimes, mas apenas convicção!

Pelo que estamos vivendo, a leitura de Armas de Papel é extremamente instrutiva, além de ser um trabalho que poderia servir de modelo para pesquisas sobre a imprensa clandestina brasileira durante as ditaduras do século passado, que a elite e a direita brasileira querem copiar neste momento histórico.  

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.