Assis Brasil (Francisco de Assis Almeida Brasil), escritor piauiense, nascido em Parnaíba em 18.02.1932, notabilizou-se tanto por sua fecunda produção crítica publicada na imprensa brasileira quanto pela literatura (romances, novelas e contos).
Este A Rebelião dos Órfãos foi publicado em 1975. Em tempo sombrio da ditadura. No entanto o autor focaliza um tema tabu: uma história de amor maldito entre dois interioranos do Norte que vieram para o Rio de Janeiro tentar a sorte, sorte que não veio para nenhum deles. No Rio, fizeram parte daquela maioria da população – extremamente visível, no entanto sem serem vistas – que luta para a sobrevivência perambulando de um subemprego a outro.
O pano de fundo do romance é a situação social, desde a “expulsão” do Norte e Nordeste para as grandes cidades do sul, para onde os imigrantes não querem voltar como fracassados e por isso aceitam subempregos que lhes garante somente a sobrevivência diária; ao emprego acrescentam ‘virações’ para aumentar a refeição diária comida ou nos bares de subúrbio ou dentro do quarto de pensão.
Neste romance, as duas personagens – Rafael e Lucas – se encontram numa pensão barata. Cada um procura emprego, cada um traz uma história de sua terra natal. Cada um com seus amores, cada um com suas decepções.
A técnica narrativa é muito interessante: a primeira parte dedicada a Rafael é narrada por Lucas, e nos entremeios de sua narrativa, aparece como citação a narrativa de algum fato feita por Rafael; a segunda parte, dedicada a Lucas, segue o mesmo esquema: Rafael narra Lucas com entremeios de citações narrativas de Lucas.
O enredo se inicia com uma noite não dormida de Lucas: ele pensa febrilmente sobre Rafael – e o narra – já decidido a abandonar o quarto que ocupam, desfazendo a relação que os une. A grande preocupação de Lucas é “ser alguém”, realizar uma proeza qualquer que lhe desse notoriedade e registrasse sua passagem de alguma forma. Toda sua reflexão enquanto fala de Rafael é mesclada por este desejo incutido nas muitas infâncias brasileiras por mães que não querem para seus filhos a vida que levam. A meta – ser alguém – sempre vem junto ao conselho de dedicação aos estudos ou ao trabalho.
Rafael não quer ser alguém. Conformado com a vida, leva a vida conforme ela vem. E porque é assim, seu desejo maior é domesticar Lucas mantendo-o preso a si. Escuta os longos discursos filosóficos de Lucas, para sobre eles jogar seu balde de água fria. Um exemplo destas reflexões:
“Tenho reparado uma coisa, Rafael. Os homens cada vez mais se vulgarizam. As mulheres são a chaga aberta e exposta – elas traem a natureza com essa história de igualdade dos sexos. Estão desorientadas, num torvelinho.
Por quê?
Ora, um indivíduo se sentirá humilde e envergonhado se declarar ou descobrirem que ele não conhece uma buate, uma bebida estrangeira, ou ainda não pegou uma doença venérea. Ele TEM que fumar, beber, tomar bolinhas, passar as noites em buates, fazer negócios suspeitos, enganar alguns amigos, ou então se julgará um sujeito à-toa, ridículo, que não sabe o que é aproveitar a vida. E o seu maior pavor é ser visto como um ingênuo ou um puro pelos outros. Se não tem posses, o pobre diabo se sente na obrigação de aparentar a maneira de vida de um gozador ou um farsante.” (p. 86)
Rafael defende uma vida acomodada, na mediocridade de um emprego, de uma pensão, da alimentação regular, suficiente e jamais sofisticada. São espíritos distintos ainda que expulsos de suas terras e da própria sociedade urbana onde exercem funções invisíveis, mas necessárias. Tudo o que deseja é uma vida pacata. No convívio, sonha em domesticar Lucas para manter um relacionamento que segue em frente, sem sobressaltos: “Comer, beber, copular, tudo entremeado de incompreensão e angústia, e depois dormir, sem consciência e sem sonhos – aí está a única verdade palpável, visível, real.”
A relação homoafetiva em que foi envolvido por Rafael, levado sobretudo pela incompetência para lutar e sobreviver na selva urbana, deixa Lucas insatisfeito. Tenta um namoro com Doralice, mas continua desempregado. Depois de algum tempo de namoro, Doralice lhe cobra casamento. E ele se vê perdido. Brigam. Terminam o namoro.
A noite insone acontece depois desta briga. Lucas deixa Rafael na cama que tinha sido dos dois. Rafael dorme, Lucas sai para realizar a grande proeza que o levaria às páginas dos jornais. Suicida-se. Lucas não aparece de terno e gravata, mas como “num montão de trapos e carne nas primeiras páginas de um jornal escandaloso: SALTO MORAL NO ABISMO”.
As distintas posições assumidas pelos dois personagens desta história faz lembrar a radical distinção entre o pensamento grego e o pensamento oriental. Naquele, desenha-se a perfeição e trabalha-se para atingi-la. Vivemos este mito social de “ser alguém” desenhado de fora para dentro. No pensamento oriental, trata-se de se deixar levar, de se incluir no andamento das coisas da natureza. O problema é que existe o social também no Oriente e o conformar-se ao pertencimento a uma casta, por exemplo, é a naturalização do histórico a que reage um Ocidente e um Oriente politicamente revolucionário.
O livro de Assis Brasil é extremamente corajoso. Enfrenta um tabu – o homossexualismo – e lhe dá uma pano de fundo de realidade social com que uns se conformam (Rafael) e contra a qual outros investem suas vidas (Lucas). A Rebelião dos Órfãos merece leitura.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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