Este livro de Pushkin já fez parte de uma coleção de clássicos da literatura juvenil da editora Abril. Manuseio a edição da Martin Claret, na coleção “A Obra-prima de Cada Autor” (2006), em que se escreve Púchkin quando a aliteração mais conhecida entre nós é Pushkin.
O autor é tido como o fundador da moderna literatura russa. Suas obras são do período romântico. E este é um livro cujo enredo todo tem a ver com o amor entre Piotr Andréitch Grinóv e Maria Ivánovna. Ambos são filhos de militares. Parece que o serviço militar na Rússia de então (Século XVIII, o tempo da narrativa) era um lugar comum, um destino entre os pequenos nobres (proprietários de almas, isto é, de servos em suas glebas de terra). Mas era também o lugar da uma ascensão social para outras categorias sociais “sem sobrenome”, como era o caso do pai de Maria Ivánovna, razão por que o amor entre ambos não foi de início abençoado pelo pai de Piotr.
O romance tem a forma de memórias de seu personagem principal. O autor usa do subterfúgio, apenas no final da narrativa, da figura de um “editor” que teria recebido dos netos da personagem os originais destas memórias. Apenas teria escolhido a epígrafe adequada a cada capítulo. Aqui, digamos, aparece o autor-narrador que deixara falar somente sua personagem. E como autor-narrador dá conta do que aconteceu após o “memorialista” ter encerrado sua narração.
O percurso de “formação” do jovem Piotr Andréitch Grinóv, segundo suas “memórias”, segue o padrão do romantismo: das burradas à emenda (o leitor contumaz lembrará “Os sofrimentos do jovem Werther, do romântico alemão Goethe, obra mais conhecida entre nós). No caso, já na viagem para o encontro com o general sob o qual serviria, a burrada foi entrar em jogo de bilhar. Nunca mais volta a jogar em todo o enredo, apesar de o jogo ser uma constante na caserna russa.
O que importa hoje na leitura deste romance (histórico?) não é tanto o enredo romântico e as peripécias militares. Interessa de fato é o retrato de uma Rússia ainda não consolidada como império sob uma mesma lei, sob um mesmo soberano, sob uma mesma religião, de um povo cristianizado e batizado pela igreja ortodoxa, sob a batuta dos czares (no caso e no tempo que envolve este romance, da então czarina Catarina II).
No vasto território, convivem os tártaros, os cossacos, os quirguizes, os kalmukes, os bachquires, … A maioria deles descendentes de uma população proveniente do Oriente Médio (Turquia, Irã…). Todos se tornaram “mujiques”, isto é, agricultores (servos ou almas de “propriedade” dos nobres, tema que Gógol, em “Almas Mortas” torna, para fazermos um jogo linguístico, imortal). São estes povos submetidos –como os cossacos – ou em vias de submissão que se revoltam inúmeras vezes na velha Rússia.
Pugatchóv, personagem que se tornará fundamental no enredo desta história, um pequeno malfeitor, se aproveitará precisamente deste clima de revoltas para chefiar uma delas declarando-se soberano, com o nome de Pedro. Os servos o seguem justamente porque a situação social que vivem os leva à revolta. Infelizmente este tema não é abordado por Pushkin, e o autor que já fora deportado sabia o ambiente em que vivia sob a czarina Catarina II, que transforma na bondosa soberana que vai perdoar Piotr de uma acusação falsa de traição.
A edição publica um capítulo excluído da narrativa. Provavelmente seria o capítulo XIII, já que este na versão sem o texto excluído, contém parte de seus enunciados, particularmente no que concerne às revoltas russas, como pode ser observado nos parágrafos abaixo:
Na edição do romance:
“Não descreverei a nossa campanha e o fim da guerra. Direi, em breves palavras, que a miséria atingiu o extremo. Atravessamos povoações devastadas pelos rebeldes e, contra a nossa vontade, éramos obrigados a requisitar o pouco que os miseráveis habitantes haviam conseguido salvar. Não havia já governo em parte alguma. Os proprietários nobres escondiam-se nas florestas. Bandos de salteadores cometiam desmandos por toda parte; comandantes de destacamentos isolados puniam e agraciavam a seu bel-prazer; a situação em toda a imensa região em que deflagara o incêncido era calamitosa… Que Deus nos guarde de presenciar uma revolta russa, absurda e sem piedade!” (p.108)
No capítulo excluído:
“Não passarei a descrever a nossa campanha e o final da guerra contra Pugatchóv. Nós passávamos pelos povoados devastados por (sic!) e não podíamos evitar tirar dos pobres habitantes aquilo que havia sido poupado pelos bandidos.
Eles não sabiam a quem obedecer. Não havia lei em parte alguma. Os proprietários de terras escondiam-se nas florestas. Em toda a região, bandos se entregavam à violência. Os comandantes dos destacamentos isolados, enviados em perseguição de Pugatchóv, que já estava fugindo para Astracã, castigavam arbitrariamente culpados e inocentes… A situação de toda aquela região arrasada pelo incêndio era terrível. Deus nos livre de ver uma revolta russa tão implacável e sem sentido! Aqueles que planejam revoluções impossíveis, entre nós, são jovens e não conhecem o nosso povo; ou então têm um coração de pedra, e, para eles, a cabeça do próximo não vale nada e o seu próprio pescoço vale menos ainda. (p.130).
Como convém ao romance de então – para além do herói individual que passa pelas agruras até conquistar a felicidade – Piotr Andreitch alista-se como oficial; participa da guerra contra Pugatchóv, a quem dera num gesto de agradecimento quando o encontrara em momento de tempestade de neve porque ele, conhecedor do terreno, o levou a uma estalagem. Piotr deu-lhe uma casaco de pele com que se aquecer. Graças a este gesto, ao longo da narrativa, por duas vezes Pugatchóv o poupa da morte e o ajuda a libertar sua amada Maria Ivanóvna. Foi por causa destes fatos denunciado como traidor e condenado à prisão pela justiça militar. Maria Ivanóvna busca a czarina, que encontra por acaso num parque, e conta-lhe a história. Quando vai entregar seu requerimento à soberana, surpreende-se que tinha falado com a própria sem saber com quem falava! Esta é, para mim, a passagem típica do romantismo: um acaso, um salvador, uma força externa salva os heróis e os reúne para a “felicidade para sempre”.
Este foi o esquema introduzido pelo romantismo: um herói e uma heroína que enfrentam problemas para realizarem seu amor romântico e enfrentam de um lado com os inimigos (do herói, da heroína, cada um por seu turno e às vezes o mesmo anti-herói é o inimigo de ambos, como neste caso) e contam de outro lado com os amigos que os ajudam ultrapassar os obstáculos que lhes impõem as condições criadas pelo enredo e concretizadas pelas ações dos inimigos. Mais tarde, a literatura de massa ou de consumo (atualmente as novelas de TV) repete ad nauseam este mesmo esquema, chamado por alguns críticos de “estrutura de consolação” porque fazem leitores (e telespectadores) acreditarem que suas agruras serão superadas com o auxílio de algo (divino, humano, pouco importa) e que a felicidade virá num passe de mágica.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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