O escritor gaúcho Charles Kiefer nos brinda com este romance com holofotes sobre os colonos das “novas colônias” do Alto Uruguai, no Rio Grande do Sul. Ao tematizar a colonização alemã, recuperando histórias que envolvem seu próprio sobrenome, Charles Kiefer entra com o vigor da prosa contemporânea numa tradição de romancistas gaúchos.
Érico Veríssimo (O Tempo e o Vento) narrou a história do gaúcho estancieiro, do proprietário de terras, do gaúcho gaudério e aventureiro (Capitão Rodrigo), traçando um longo percurso que começa com Pedro Terra e Ana Terra até chegar à urbanização da família patriarcal dos pampas. Ciro Martins nos narra a história do “gaúcho a pé”, na sua famosa trilogia (Sem Rumo, Porteira Fechada, Estrada Nova) em que também a urbanização emerge no final de uma trágica epopeia do pobre, do peão.
Charles Kiefer, em A Face do Abismo (Mercado Aberto, leio a 3ª. edição de 2001), faz emergir a cidade – San Martin – já no início da narrativa. Uma cidade fundada por José Tarquino Rosas, bugreiro, isto é, assassino de índios que preparavam as terras do Alto Uruguai para a colonização. Chamadas colônias novas porque os colonizadores provinham das primeiras colônias alemãs no Rio Grande do Sul, da região de São Leopoldo e Novo Hamburgo.
Não vou recuperar aqui a história que merece leitura! Vou apontar algo que me chamou atenção na técnica narrativa: há inúmeras vozes que assumem a condução do cordão narrativo. Se um narrador onisciente abre o livro com as rememorações das caçadas de índios do grupo de José Tarquino, desde logo este assume contar seu passado. Logo, ouve-se a voz de uma avó que narra tudo a seu neto enquanto arruma suas tralhas e lembranças para sair que San Martin que acabará sendo alagada por uma barragem no rio Uruguai, 78 anos após sua fundação. Neste diálogo avó/neto (o autor?), que narra, quem fala é a avó (Alberta Zeller). Há por fim outro condutor da narrativa: Gumercindo Rosas, o filho de José Tarquino que se torna o Intendente de San Martin desde que os militares decretaram que as cidades das fronteiras eram áreas de segurança nacional. Gumercindo será o político da situação, o político que apoiou o golpe militar e que recebeu seu prêmio, mas que acaba sendo derrotado pela decisão de construção de uma barragem que alaga a terra que foi regada pelo sangue indígena, pelo suor dos colonos alemães e pelo choro das desolações vividas num ambiente interiorano, num tempo em que às mulheres cabia apenas o silêncio.
Pois foram duas mulheres que marcaram San Martin: Fau Zeller, que assume desde os inícios da fundação as funções de líder religiosa, de parteira, de adivinha, de benzedeira, de “médica”. Foi oponente e amante de José Tarquino e com ele gerou Alberta Zeller, que será na rica tradição das famílias de pequenas cidades herdeira da oposição como vereadora eleita em San Martin. Mas Laura, a mulher de Gumercindo Rosas é que enfrenta, que encara “a face do abismo”, a morte, num suicídio que deixará o marido para sempre ciente de que não possuiu o que possuir pretendia, a alma da mulher.
Esta eterna caminhada do homem em busca de si mesmo, que aqui se retrata em cada passo da história de cada uma das personagens, está sobrecarregada de aprendizagens que a cada vez chegamos depois de tropeços individuais: a memória coletiva não nos isenta desta busca em que não há caminho já traçado: ele é o tracejar da vida. Ainda que, nas palavras de Alberta Zeller, “Não lembramos nossos mortos apenas pelos seus ossos guardados nas tumbas, mas pelo que representaram para nós. Os nossos mortos estão nos nossos ossos, dentro do nosso tutano, correm nas nossas veias.”(p.97), a concretude dos ossos e sangue não nos dispensem de viver e encarar, cada um por si, A Face do Abismo que nos seduz e nos espanta e de que fugimos neste desejo incontrolável de uma eternidade impossível. “Envelhecer é morrer a prestações, decompor-se aos poucos…” filosofa José Tarquino; e responde Gumercindo, depois de ler ao povo a carta do governo estadual que decreta o fim de San Martin, em porre homérico no bar do Nicanor: “Também a grande guerra passou, como tudo passa. Cidades inteiras haviam sido destruídas na Europa. Eu devia ter compreendido então que as cidades, como as pontes, são provisórias. Tudo passa: menos a água, que evapora, sobre e torna a descer em forma de água. E encobre as pontes e as cidades.”
O livro contém uma cronologia, personagem a personagem. E uma genealogia das personagens principais. No parágrafo destinado à Alberta Zeller, há um registro que une ficção e realidade histórica: “Em 1979 participou da passeata contra a construção da barragem, foi presa pela primeira e última vez na vida; em 1985 narrou ao neto mais velho, e futuro escritor, a história de San Martin. Vive em Pau-d’Arco.”
Quando terminei de ler o livro, respondi aos narradores: que histórias! Um dia alguém há de escrever a epopeia destes colonos europeus e de seu caminho – chegados pelo Atlântico estão, gerações depois, chegando perto do Pacífico pelas lonjuras de Rondônia e do Acre. Os ossos nos ossos dos descendentes voltarão à Europa pelos caminhos das índias, cruzando o Pacífico?
Nota
- Tenho publicado, neste blog, pequenos registros de leitura de livros, sem qualquer pretensão outra que não a simples apresentação de um livro que acabei de ler. Não se trata de crítica literária; não se trata de resenha; não se trata de um estudo das obras e de seus autores. Não são sequer indicações de leituras. Na prática são registros mnemônicos compartilhados. Um dia terei eu mesmo que fazer uma recolha do que aqui está, neste conjunto de “textos sobre textos”.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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