Textos sobre textos: 13 bruxas entre o espelho e a alma

Textos sobre textos: 13 bruxas entre o espelho e a alma

SOU A MULHER QUE CHORA E SE ACALMA(1)

As imagens que os muitos espelhos mostram são infinitas. O espelho não se cansa de projetar em si o que lhe é exterior. O que pertence ao espelho que lhe seja próprio além da sua própria materialidade visível no que de fora mostra?

Nesta prosa poética, Ana Maria Lourenço de Azevedo nos desvela o movimento entre o espelho e a alma. E para fazê-lo nada melhor do que encontrar as bruxas de um acróstico que nos fornece uma chave – não de leitura porque esta não há. Mas chave com que o leitor pode abrir sua alma num espelho feminino, negro e sem manchas, viajando também ele imaginativamente pelas palavras e histórias que lê reencontrando histórias tantas ouvidas e esquecidas numa memória ocupada pelo necessário do momento e desconhecedora de que o vagar da vida se faz de vagar.  

Este 13 Bruxas entre o espelho e a alma é confessadamente um livro escrito no entrelaçamento do vivido e do imaginado. Realidade e ficção. No percurso do real palmilhado pela autora, sobressai-se a escuta. A escuta das narrativas que ouve em Santa Luzia de Itanhy, de mulheres dos lugarejos que compõem este lugar mas que compondo não se perdem mas se afirmam, permanentes e calmos. Narrativas de mulheres que viveram também em outros lugares como Itabaiana ou Aracaju. Esta viagem que se desloca pelo espaço e pelo tempo, esta cronotopia inspirará a retomada que a autora faz do vivido e ouvido pondo a circular as vozes de suas mulheres ao mesmo tempo que faz ouvir sua própria voz fazendo-nos ver o que vê e nos convida para ver: “Mergulhe comigo e verás o que vejo”.

Como os olhos são outros, sabemos antecipadamente que não veremos o que viu: o desejo de ver pelos olhos de Anastácia é o desejo para sempre condenado a sua não realização. Ainda assim, com os olhos que trazemos, enquanto leitores, acompanhamos os olhos e ouvidos de quem, narrando, nos diz o que enxergou na imaginação sua e das outras que lhe narraram os acontecidos.

Há aqui um jogo de vozes que entremeiam a fala da narradora que se explica, criando um suspense que nos enrola e nos faz querer chegar logo às bruxas. Mas sem este suspense que explicando filosofa sobre o viver, perde-se a graça do que conta Francisca, a testemunha ocular do Congresso das Bruxas que chegam voando em suas vassouras no mundo encantado da floresta. Escondida e estonteada pelo que vê, Francisca resolve que na vida a que retorna

– Quero me perder para me achar. Nunca pensei que um dia fugiria de minhas crenças tão reais.

Para perder-se há que “fugir das crenças”, e no caso nosso de contemporâneos de uma sociedade que escolheu a rapidez, a velocidade como seu apanágio, significa sentar-se comodamente para ouvir histórias de um passado ainda presente, com o vagar que a vida merece. Recuperar esta capacidade que Benjamin diz estarmos perdendo.

Ler este livro é começar este “perder-se”. Ele está cheio de simbologias, muitas das quais nos escaparão. Traz à baila a mitologia. Dialoga com outros modos de viver e outros modos de dar sentido à vida. Como há simbologias claramente expressas, aponto aqui para aquelas que jogam com os números. Sobre os sentidos do número 13, que aparece deste o título, nos fala a narradora. Mas há outros números que chamarão atenção do leitor. O livro contém 7 atos, iniciados poeticamente. Sete é o número cabalístico fundamental. É também o número da mentira, da ficção, do imaginário. São 7 os dias da semana, uma medida que inventamos para contar o mito da criação do mundo e encontrar o dia do descanso num continuum que não se mede em semanas, meses ou anos. A natureza nos dá o dia, entre o sol e a lua. A natureza nos dá as fases da lua, mas não nos dá os meses do calendário! A natureza nos dá as estações e seu eterno retorno, como retorna o sol a cada dia e a lua quando de nós não se esconde. Os ciclos, não os anos. Mas nós inventamos o 7 e nos mentimos para nos sentirmos seguros.

Também há o 13, este outro número mitológico, a Trindade e seus mistérios. A trindade do homem, da mulher e do filho: esta a trindade que faz brotar a vida no útero, símbolo não só da fertilidade mas também feminilidade e do aconchego do mundo. O 3 aparece na forma narrativa deste livro: as bruxas aparecem três vezes.

Primeiro elas aparecem em seu Congresso e fazem suas oferendas. Depois aparecem como mulheres com suas vidas vividas entre nós e então suas histórias são contadas. Por fim, e pela terceira vez, aparecem com seus desejos. Os generosos desejos femininos.

Das oferendas. Francisca, a narradora que entrega seu relato a outra narradora que nos fala, vê as seguintes oferendas: Efigênia traz o sino de ouro e prata, traz o som; Severina traz a taça de crista, o símbolo do ventre fecundo que recebe e dá; Perpétua traz a varinha mágica com que desenha o círculo, símbolo do infinito que redobra o nome de Perpétua; Lucinda traz o manto que agasalha como mãe; Hermengarda traz o amuleto, uma concha dos mares para espantar os males; Olívia traz a vassoura, básculo que simboliza o poder mas também a limpeza, a purificação; Domingas com seu caldeirão, um ventre em que as misturas produzem a magia; Aurora traz o espelho que reflete sem manchas; Lupicínia e a bola de cristal das profecias, da leitura do futuro; Margarida entrega o pentagrama com a estrela de cinco pontas da energia feminina; Anastácia traz a chave que abre cadeados que guardam segredos, o passado, mas também abre portas que descortinam horizontes futuros; Estefânia e Amália, não referidas nas ofertas presenciadas por Francisca, abrem o espaço para que o leitor lhes atribua, depois de ler suas histórias e seus desejos, que oferta trouxeram ao altar do seu Congresso.

A segunda aparição são das histórias das mulheres que cá viveram e para cá retornam em seus voos noturnos. Cada uma delas se apresenta e representa características do feminino contemporâneo: o amor, a pressa, o desafio, a exposição, a construção, a sedução, a arte e engenho, a poesia, a felicidade, a descedência, a sensibilidade e a maternidade. Cada história, com os percursos trágicos e sempre amorosos condensam o que o mundo nos faz ser. Impossível trazer para cá cada história porque isso representaria tirar a surpresa que tão engenhosamente a narradora foi construindo para nos surpreender.

Na terceira e última aparição cada bruxa-mulher expressa seu desejo. Há nestes desejos dois aspectos que se repetem na sua multiplicidade – já que o 13 é o número da sorte e do azar e por isso mesmo das possibilidades infinitas. Trata-se da presença de generosidade, uma qualidade tipicamente feminina e da entrega amorosa do corpo e da alma ao viver intensamente o dia e seus trabalhos, o descanso e o seu prazer.

Aos que tiverem a coragem de enxergar o mundo pela ótica da imaginação feminina, 13 Bruxas entre o espelho e a alma concede a oportunidade feliz de um encontro consigo mesmo diante de um espelho que, por feminino, obriga a revermos nossa insensibilidade diante da vida.

Nota

  1. Publicado como prefácio do livro, lançado em novembro de 2016.

    

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.