Textos de Arquivo VII: Escrever é um ato de violência e denúncia

Nota introdutória

Segundo texto publicado no INFORMAÇÃO, este é um esboço de estudo do livro de um então colega da Faculdade, Deonísio da Silva. Seu primeiro livro: Estudo Sobre a Carne Humana. Trata-se de uma coletânea de contos. Os tempos eram difíceis, politicamente. Os tempos eram difíceis também para sobreviver no interior de um grupo intelectualizado e mordaz. Escrever era cair na tentação do sistema! Era fazer o desnecessário comentário (no sentido foucaultiano do termo), um discurso controlado pela ordem. Escrever era, pois, subordinar-se à ordem… do discurso! Sem escapatória! Imaginem, pois, o que não seria naquele ambiente escrever um comentário sobre um livro… O texto foi publicado em 14.11.1975, na terceira edição do jornal.

 

Escrever é um ato de violência e de denúncia

“Uns morrem por coisas feitas, outros por palavras, coisas que não puderam fazer. E eu, você, de que morremos? De não poder fazer? De não poder dizer?” Deonísio da Silva, Essa tua boca venenosa, in. Estudo sobre a carne humana, p. 48)

                Sempre que me pergunto pelo significado do ato de violência da fala do escritor (e aqui diante da fala de Deonísio da Silva, contista do Paraná que veio residir em Ijuí para “professorar” na Fidene, curso de Letras), mergulho nesta fala como se fora “uma coisa instalada na gente”.

                A fala do escritor é um ato de violência por ser denúncia, por ser rompimento com o dia-a-dia, pelo seu avesso, pelo seu lado de dentro. De uma forma incomum, a literatura “bagunça” a nossa vida e nos reconcilia com a realidade que somos: homens que peregrinamos e deixamos sinais ao longo de nosso caminho.

                Nas relações que estabelecemos nesta peregrinação, muito se torna invisível, apesar da visibilidade dos fatos. O cotidiano do homem é rico. É incomum pela própria rotina que o constitui. É aí, nesse incomum rotineiro, que estão os temas geradores dos quatorze contos que constituem “Estudo Sobre a Carne Humana”. Captar estes sinais e dizê-los: eis o que faz o Deonísio “cometer, por esse arraial, os mais fascinantes contos dos últimos dez anos” (Sílvio Back) Não se entenda este ‘captar’ como um simples ‘retratar’. Deonísio vai mais longe. Fala-nos do que está por trás do retrato. Destrói a realidade, para reconstruí-la.

                 Formalmente, muitas novidades: contos através de relatórios; contos através de ofícios; contos através de tiras; contos com personagens que fogem a uma classificação como homem, mulher, ou assexuado. Contos que a gente lê como se visse um filme: movimento, ação e tela numa teia surpreendente de palavras.

                Para uma breve visão dos textos, reagrupamos os contos:

  1. Os problemas vivenciais dentro de uma escola: “Relatório Confidencial”, “Senhora Diretora” e “Corpo Docente” ou é proibido pensar. As peripécias de Ambrósio, que “não vê tv, só lê” mereceriam uma investigação secreta de Ir. Gabriela Blitz do Coração Imaculado, antes de fornecer-lhe um atestado de eficiência e boa conduta. Afinal, está implícito: não só é proibido pisar grama, também é proibido pensar diferente, agir como pensa. “Senhora Diretora” vem mostrando a corrente sistêmica entre Direção/entidades estudantis, em que estas são para aquela uma preocupação dupla: perigo de corte da corrente, subvertendo o sistema; e são, nestes tempos do conto, os fiscais que obsevam se a Direção não está por sua vez rompendo os elos da corrente. “Corpo docente” é uma investigação despretensiosa, mas hábil e meticulosa: o avesso de cada professor presente nos pequenos atos, nas palavras poucas, anotadas pelo secretário Idanir.
  2. Os problemas vivenciais/ o sexo: “Estudo sobre a carne humana”, “A primeira coisa que botei na boca” e “Os morcegos do fim da tarde”, ou é proibido amar. O primeiro inova na personagem central: é homem e é mulher no mesmo conto. Estória que precisa ser, antes de tudo, saboreada mas com aquele sabor de descoberta. “A primeira coisa…” ou por que cumprir as etiquetas, quando se sabe que a amante da história será, com certeza, amante depois do casamento; quando se sabe que “com certeza brigarei com minha mulher, assim como papai brigava com mamãe, e o pai da minha noiva com a mãe dela, enfim, tudo igual, que chato”. “Os morcegos…” são os ladrões de sangue, e também o ladrão capaz de roubar o gozo de uma Margot prostituta.
  3. Os problemas vivenciais/a busca da verdade: “A liberdade” e “Emergência”. De fato, Nìsio, nós sempre preferimos buscar nos profetas de além-mar a verdade pra a nossa vida, esquecendo que a verdade nos rodeia. Vamos à Universidade em busca da verdade dos livros e esquecemos a verdade do homem que, conosco, viaja no coletivo, principalmente porque “esteticamente eu tenho nojo de pobre, embora seja a favor e simpatizante da libertação dos oprimidos”. Lemos (e nos deliciamos) com Lukács, que teoricamente nos leva a enxergar ao redor, mas para “ao redor” nós fechamos os olhos. Em “Emergência” vamos à Europa, e voltamos desconhecendo tudo. Lá, nas bibliotecas, esquecemos a nossa verdade e substituímo-la pela verdade europeia, que defenderemos.
  4. Os problemas vivenciais/o enriquecimento: “Deus protege os que enriquecem”, “Uma panela de dinheiro no sudoeste do Paraná. O primeiro é a estória do médico que, além de atender o “Hospital São Roque” também dirige o “Açougue São Roque” e confunde ambos, na ânsia do enriquecimento. “Uma panela…” é o sonho, que envolve uma família, que envolve a todos. São as ilusões do enriquecimento impossível, umas vezes presentes em nossas vida na “esperança de encontrar um enterro…” outras pelos sonhos do “príncipe encantado”.

Todos os contos citados (e os não citados) mereceriam um estudo mais profundo. Não era esta a intenção deste artigo. Antes, apenas vislumbrarmos uma possível leitura, porque “eu só falei porque na vida da gente as coisas estão todas ligadas umas nas outras e isso não foi ninguém que me explicou, fui eu mesmo que experimentei, ih, muito”.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.