Textos de Arquivo VI: Às margens do sonho e do desafio

Nota Introdutória

No ano de 1975, meu primeiro ano de trabalho na hoje Unijuí – Universidade de Ijuí – foi fundado o jornal “Semanário de INFORMAÇÃO política”, dirigido pelo jornalista Jefferson Barros. O financiamento para a criação da editora responsável veio do advogado ijuiense Ben-Hur Lenz Cesar Mafra. Alguns professores da então FIDENE nos tornamos membros do Conselho Editorial. Na lista deste conselho constam nomes hoje extremamente conhecidos como Tarso Fernando Genro, Deonísio da Silva, Eliezer Pacheco, Jandira Farina e, já falecido, o escritor gaúcho Luiz Sérgio Metz, o Jaca (autor de um romance memorável, ASSIM NA TERRA). Além do entusiasmo e lucidez de Jefferson Barros (também já falecido), a presença mais constante do jornal era o de Rosa Bueno Fischer (hoje na UFRGS). Eu escrevia esporadicamente crônicas nas páginas de CULTURA. O jornal, como era de se esperar, teve vida breve! Em meus recortes, disponho ainda de quatro textos publicados neste jornal (um deles em co-autoria com minha companheira Corinta). Eis o primeiro texto, publicado em 07.11.1975, no segundo número do jornal. Como o leitor perceberá, é um texto em mosaico, rearranjando passagens de um livro (Há Margem), uma coletânea de escritores jovens gaúchos. Não encontro mais o livro na minha biblioteca… e não há notícias dele no Dr. Google!

Creio que este texto-mosaico sofreu uma influência péssima: era meu primeiro ano de professor universitário e com isso tinha perdido por completo a liberdade de dizer. Precisava parecer andar nos “conformes” exigidos pela academia… só dizer “com razão”, não como polêmica! Talvez por isso tenha escrito na forma de mosaico para me esconder de dizer ou dizendo apenas nas entrelinhas. Afinal, eu não era professor de Literatura e por ser professor universitário, perdera a autoridade de leitor!

 

Às margens do sonho e do desafio

Extra! Extra! Informa-se que o tradicional último quadrinho das estórias de “Capricho”, “Sentimental” e outras menos votadas revistas do gênero, encerra a experiência de “Há margem: a experiência de dizer a cotidianidade (e a alucinação cotidiana) num texto ilustrado, cuja publicação acontece à margem da indústria cultural, mas mostra que “o que falei não se apaga, a vida é uma palavra”.

                Sempre entendi a literatura como um jogo: jogo das palavras do dia-a-dia num mundo irreal, mas jogo real e concreto que se torna reflexo dos fatos (e palavras) do real dia-a-dia. E, por isso mesmo, “a literatura tem que bagunçar e partir prum mundo novo”, o que em outras palavras significa denunciar a realidade. Não apenas retratá-la, porque denúncia é mais do que retrato. O retrato é estático; a denúncia é movimento, é ação que se desenrola na tela/teia de significados escondidos, mas percebidos por estes “sacerdotes do insólito” que são os escritores (e por extensão o são os homens).

                Pela própria matéria usada (a linguagem); pela carga histórica da palavra: pela vida que é uma palavra; pelo humano (e por isso pelo situado num lugar e pelo datado numa época), a literatura nunca se tornará branca e lisa, nada revelando, apesar da absurda busca formal de partir par ao absurdo, porque o absurdo está e existe lá (na obra) e aqui (no mundo).

                A coletânea de textos “Há margem” é uma experiência de fuga: fuga do sistema (e por isso mesmo o denuncia); fuga do cotidiano para o absurdo (e por isso mesmo denuncia o absurdo cotidiano); fuga do desespero de encontrar a outra margem onde o homem seja homem (e por isso mesmo “bagunça e parte prum mundo novo”). Apesar do hermetismo de alguns textos; apesar de coletânea e do grande número de cabeças pensantes que a escrevem, quer nos parecer que o livro “Há margem” tem como continuum a preocupação de mostrar que “estamos vivos”, afirmando que há margem para estar vivo:

                “Depois da chuva” – no diálogo/amor de Dinorá e Andrômeda – “penso em partir, ir para longe. Faço planos. Compro passagens. Mas na hora de partir, descubro que para partir tenho de partir. E sabia disso e me enganava.”

                Mas “nos tornamos fortes depois de partir”.

                E num “maio” a-romântico de “colchões comidos pelos ratos, copos quebrados e leitos frios (barricadas de pernas e braços), maio quebrando a casca” (não é o mês das flores, nunca o foi “nos tempos de miséria”), “o que perdi não devolvem, vou buscar com revólver” porque a vida não termina aos vinte anos. É o começo da partida.

                “Não se reconhecendo”, a Margarida das alturas do castelo se descobre: é gente apesar de tudo: de ter ouvido os concertos musicais nos “Make-music” (ou na TV de hoje); de ser “posterior à geração coca-cola, à geração chicletes, pouco antes dos laranjinhas mecânicas saírem pelas ruas”… pois neste ritmo ensurdecedor das coisas “a madrugada espalhou branco” e “a geração perdida dos anos setenta, redimida de um passado político, geração reprimida, censurada”

                               “vai embora

                                          c          

                                              a

                                                i

                                                  r

                                                   fora”

partindo num trem cuja passagem não indica lugar nenhum. “Ir apenas”. “Burlar um pouco a vida alegre.” “Buscar um lugar onde o vazio não é tão profundo”, mas sabendo que nunca são definitivas nossas chegadas.

                O amanhã não está morto. Somos “gauche” confundidos “desafinando o coro dos contentes do seu tempo”, porque “precisamos erguer um muro, como na China, uma escada de poemas, danças e risos moldada por muitas mãos e uma única necessidade”.

                Faço também poema nos sonhos do pequeno mistério: “a violência, o salário e o medo não nos alcançam, não sabemos dizê-los mas podemos rimá-los, datilografá-los” andando pela beira. Sejamos, enfim, os ratos: mas não os verdadeiros ratos que só “destroem os trastes, não roem as crenças, as estruturas metafísicas”.

                Acima de tudo, tenhamos “Campo Magnético”.

                “que mistério tem você!

                você me atrai

                você me absorve

                você retém um pouco de mim cada vez.

                contudo

                você me refaz

                você me devolve

                integral outra vez.” (Goularte)

                Porque, se a vida de Gilda é um circo (e a nossa também) perguntemo-nos como Emílio: “por que aceitamos tão passivamente a nossa transformação de seres humanos em seres urbanos?” Afinal, “os bares estão abertos, mas as pessoas, fechadas”.

                Esta é uma amostra das surpresas de “HÁ MARGEM”, obra coletiva de jovens escritores que pedem passagem porque estão certos de que “há margem” para dizer sua visão de mundo; sua confusão de mundo; seu desespero com esperança de que no final “os dois beijem-se apaixonadamente”. Uma esperança numa nova dimensão do amor; uma esperança na escada de poemas, apesar de tudo isto ser uma palavra gasta, apesar de eu ter escrito o que escrevi a propósito do que eles escreveram. Porque “o que passou não é sonho, é desafio… e há margem. 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.