Textos de Arquivo V: A Informação de Cony

Nota introdutória

Depois de ler o Informação ao Crucificado de Carlos Heitor Cony, convenci-me de que uma análise estrutural da narrativa que desconhecesse o mundo de referência da obra, buscando o que na época se chamava de “literariedade”, própria e independente das circunstâncias de produção da obra de arte e das condições sociais de sua circulação, estava conduzindo a uma perspectiva metafísica e a um hermetismo interpretativo que a própria obra não tinha. O texto “A Informação de Cony” é representativo desta época em que as posições não estruturalistas estavam fadadas ao lixo do bom pensar. Mas havia resistência. No jornal Correio de Povo circulava um caderno de cultura, o Caderno de Sábado, em que textos que não rezavam pela cartilha bem escrita da época, quando críticos antes “socialistas” tinham se convertido em estruturalistas (e por isso mesmo, pouco “perigosos” para o regime militar). Este texto foi publicado no Caderno de Sábado, em 20.07.1974. Sua publicação se deve a intervenção do poeta gaúcho Lacy Osório. Como estudante e bancário do interior do estado, não teria visto o texto publicado sem esta intervenção do amigo: um poeta que tomava os originais de seus livros, visitava o interior pedindo leituras e comentários ao mesmo tempo em que vendia livros para sobreviver.

 

A Informação de Cony

                Escrever sobre livros, hoje, é uma temeridade. Certas revistas especializadas e alguns jornais estão lotados de análises estruturalistas e seus cálculos matemáticos. Um linguajar e uma crítica apenas para iniciados. Mas um tipo especial de iniciado, isto é, que já tenha ou suponha ter conhecimentos profundos de linguística e estruturalismo. Fala-se em uma “abordagem científica”. Concordo que realmente o texto vale por si só. Como arte, impõe-se por si. E mais, que o crítico deve permanecer apenas na obra, porque ela retrata uma época. Agora, chegar a dizer que o estruturalismo se basta a si mesmo, que isola a filosofia, história, sociologia, etc., parece-me uma abordagem anticientificista e antiestrutural. Anticientífico porque abandona o homem, e a ciência só pode ser entendida se caracterizada por este homem e a partir do homem. Antiestrutural porque o próprio signo linguístico carrega em si o significado de uma época, de uma sociedade. Logo, não se pode prescindir desta época (e, portanto, de sua filosofia, de sua organização social, etc.) para poder entender a própria estrutura do texto. Se ficarmos na palavra pela palavra, com semantemas, morfemas e outros termos de mesma conotação, o que estaremos levantando bem alto será o narcisismo da palavra. E o que me parece mais importante não é essa palavra em si, mas a palavra dita pelo autor com sua carga significativa.

                “Terra” carrega em si muito mais do que pode ser visualizado em sua estrutura. Carrega conceito de propriedade, de trabalho, de produção e, não raro, de escravização do homem. E para sentirmos esta carga toda não podemos nos situar apenas na palavra em si. Sem abandonarmos a obra, nela poderemos captar a existência de tudo isto.

                Assim, também a palavra “Deus” carrega mais do que se pode ver em sua estrutura morfo-sintática e fonológica. Carrega conceito filosófico de ente superior, de vida extra-terrestre, de medo deste futuro incerto do após-morte e de escravização do homem da terra e na terra a estes conceitos. Pecado é toda uma carga de quase dois mil anos de cristianismo. O  velho de barbas brancas e catecismo.

                Jesus Cristo é hoje IBOPE… e me surpreendeu (e me  alegrou) ler alhures que Informação ao Crucificado de Carlos Heitor Cony tem sido um dos livros que melhor venderam nos últimos tempos no Brasil. Em reedição da civilização Brasileira, a obra de Cony conseguiu consagração e boas vendas certamente graças ao misticismo em voga, que atacou inclusive a chamada “música jovem”.

                Contudo, a “Informação” de Cony se aproxima mais da nova visão teológica resultante da Igreja pós-conciliar, cuja posição mais avançada é defendida pelos chamados “padres progressistas”, do que desse misticismo que o “sistema” está procurando reerguer, principalmente entre a juventude, dando-lhe, dest’arte, uma válvula de escape para suas frustrações e obstaculizando ao mesmo tempo uma análise mais correta das causas destas mesmas frustrações.

                Cony faz um diário. Retrata a vida de seminário e o misticismo dos atos rituais. Bom narrador e procurando defender-se de todas as formas de assalto massificador da comunidade dos padres, superiores e seminaristas, o narrador busca por si encontrar Deus. Um Deus diferente do pregado a toda hora, minuto a minuto na vida em clausura. Deus mais humano, já que o homem é feito à sua semelhança…

                Capaz de uma síntese ao retratar esta luta de fundo psicológico, Cony escreve páginas que representam momentos importantes da literatura nacional. A “morte de Geraldo”, entre outras, é capaz de nos conduzir até o cemitério e “respirar Geraldo” que “tem gosto de eternidade e paradoxalmente de terra molhada”.

                E na obra, não fugindo da obra, podemos sentir tudo aquilo que era, e em alguns lugares ainda é, a visão de Deus e a Igreja nos tempos anteriores ao Concílio. Buscando Deus, Cony nos dá a informação: “Deus acabou”.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.