Nota introdutória
Este é um exercício de escrever um conto… que não se tornou conto. Irritava-me com a corrida às apostas da loteria esportiva. No último dia de apostas, a conversa ficava insuportável num ambiente então predominantemente masculino, o banco. Publicado no jornal Opinião de dezembro de 1971.
Romaria
Quarta-feira de uma semana qualquer. Expediente que chega ao fim. Máquinas trabalham. Dedos caminham sobre fichas, num afã de arquivo que se repetirá amanhã, depois, e depois. E a conversa corre, baixa. Sussurrada. Medida.
– O prognóstico eletrônico diz que o jogo será “zebra”.
– De modo algum, as chances do Faxinal são ótimas.
– Mas como podemos acertar treze jogos, se o jogo de Goiás é entre dois times totalmente desconhecidos.
– Ora, neste jogo, um palpite triplo.
Eram Sato e João Pedro. Entre uma e outra ficha, entre dois papeis, um comentário esportivo. Uma solução de aposta.
E o tempo fluía, enquanto o pensamento e as palavras retornavam, constantemente, fixas, imutáveis: loteria esportiva. Tal como a agulha imantada de uma bússula se volta para o polo: enriquecimento rápido, palpite, sorte, dinheiro.
E desfilavam nomes, jogadores, estádios, times. Brito, São Paulo, Sérgio, Tostão, Mineirão, América… De novo silêncio humano. Metralhar de Máquinas.
– Achei! Achei!…
Sato, feliz. Um sorriso luminoso.
– Será barbada. Preenchemos trinta e dois cartões; fechamos sete jogos; palpites triplos. Em seis jogos… seguimos a lógica.
– Futebol não tem lógica! Timidamente argumenta Celso, até então alheio ao assunto.
– É impossível errarmos. Espero que poucos acertem desta vez.
Sato já calculava seus lucros, suas aplicações na bolsa, a menina dos olhos.
E as fichas, uma depois da outra, seguiam para o arquivo. Repetição eterna nos gestos maquinais.
Sato abandona-as. Febril, preenche cartões. Sua alegria é contagiante. Alegria do sonho.
E o entusiasmo se alastra. João Pedro fala mais alto que o metralhar das máquinas. Leva a boa nova.
Todo mundo quer fazer parte do bolo. É a chance de ficar rico… de realizar sonhos… de abandonar as vinte-e-quatro-prestações-que-não-terminam-nunca.
Em poucos minutos, paralisam-se as máquinas. E na ideia do bolo esportivo, o bolo humano se forma. O dinheiro é arrecadado rápido.
Alguém se dispõe a levar a aposta… a enfrenar com outros tantos sonhadores de todas as semanas a fila indiana do posto arrecadador. E lá segue o sonho, com papeletas furadas.
Rapidamente, bem mais rapidamente do que nos dias comuns, os ponteiros atingem a hora de saída. É um alívio menor que o de outros dias.
Sato, João Pedro e Celso, agora totalmente convencidos de não estar sonhando, saem juntos. Comentam alegres. Sorrisos verdadeiros. Sorrisos de sonhos alegres.
E a quarta-feira termina.
Quinta é dia sem novidades. É dia de gestos maquinais. De sonhos não revelados. De realizações em branco. Os ponteiros são mais vagarosos no correr das horas.
Sexta vem, e vai.
O fim-de-semana. O sábado mole, triste, às vezes cinza. O medo de perder.
Mas o domingo chega na casa de Sato. A melhora do almoço desapareceu; o cinema do filho foi trocado pela praça comum dos dias comuns. São despesas que desaparecem do orçamento familiar. O mês é mais comprido no fim do dinheiro.
À tarde. Os olhos estão grudados na televisão. Os ouvidos, nos rádios portáteis. O corpo tenso segue jogos. O pensamento retorna à riqueza fácil a partir de segunda-feira. Os sonhos reaparecem… e os jogos se realizam. Apitos, correrias, juízes, nomes decorados. A inteligência ocupada pelos códigos do ópio, enquanto a essência da vida é chupada pela sociedade vampiro que lhes dá o sonho enquanto lhes carrega a vida.
Com o fim do domingo, o fim dos sonhos. O propósito de não riscar a vida, arriscando em palpites nulos.
A segunda-feira sonhada vem triste. Vagarosa.
Na terça-feira ainda não se deixará levar pelo sonho da riqueza fácil.
Mas na quarta-feira, o cartão na mão. As possibilidades certas, raras, a riqueza à mão, acessível.
E a tristeza se torna sorriso no palpite que dopa.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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