Textos de Arquivo II: Paralelo entre duas obras de José Mauro de Vasconcelos

Nota introdutória

                Como estudante do curso de Letras da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Santo Ângelo (RS), fui presidente do Diretório Acadêmico. Como não podia deixar de ser, criamos um jornal do Diretório. A expressão “diretório” foi introduzida por imposição do governo militar. Antes tínhamos os “Centros Acadêmicos”. Ficaram proibidos e viraram “diretórios”. Mudar o nome muda alguma coisa? A importância de uma novilíngua é apontada por Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. O setor de propaganda e “nominação” da ditadura sabia das coisas…

                Esta pequena crônica publicada no “jornal” FILOSOFIA-FUNDAMES (Fundames era a fundação mantenedora da faculdade) foi escrita quando um dos livros de José Mauro de Vasconcelos fazia enorme sucesso e lágrimas. Depois o livro foi adaptado ao cinema. Leitor voraz, havia lido antes Barro Blanco. Quando li Meu Pé de Laranja Lima fiquei decepcionado pelo apelo sentimentalista que o alimenta.

 Paralelo entre duas obras de José Mauro de Vasconcelos

              O autor fez sucesso, especialmente com MEU PÉ DE LARANJA LIMA. Disse-me um livreiro ambulante que vende um exemplar de Menino de Engenho, de José Lins do Rego, enquanto ‘empurra’ 10 MEU PÉ…

                Inserem-se, pois, algumas considerações sobre duas obras do autor. Vejamos…

Chicão, personagem central da primeira obra, escrita em 1945, identifica-se perfeitamente com o nosso nordestino. Parte do sertão em busca de vida melhor, para enterrar-se no túmulo de BARRO BLANCO: a salina. José Mauro é original. Penetrando em terra pouco explorada pela nossa literatura, contém mensagem, vivência, realidade. Inclusive podem ser observadas nesta parte do livro algumas tomadas de posição ante o problema do século: a questão social. “São detentoras de excelentes salinas as firmas… Gente que talvez nem soubesse de perto o que era uma salina. Gente que sugava seiva de outros homens, para enriquecer. Devia ser o último trabalho de escravatura humana: as salinas.”

Embora seu pouco sucesso com BARRO BLANCO, lido hoje por causa de uma obra medíocre como MEU PÉ DE LARANJA LIMA, trata-se de autêntica literatura engajada. Realista, original, co9m linguajar fluente, sua mensagem, seu engajamento fazem-nos conhecer um pouco o nordeste, sua vida e seus sonhos.

Agora, MEU PÉ… é simplesmente “sentimerdante” (desculpando o termo). Dizem até que só não chorou com o drama de Zezinho o leitor com espírito crítico. O linguajar permanece o mesmo: fluente, acessível, com metáforas. Situações bem criadas. Mas se “a forma é o conteúdo aparecendo”, nesta não encontramos o conteúdo. Zezinho não existiu e não pode existir na realidade. Criança alguma aprender ou aprenderá a ler sozinha… Criança alguma criada no seio de uma família como a que deixa entrever José Mauro é tão castigada… pelo contrário, a realidade nos mostra que a educação pequeno-burguesa está cheia de quesitos, demonstrados pelos castigos físicos… Mas a da criança abandonada, desculpe-me
Zé Mauro, é completamente diferente. Sua imaginação foi fértil demais… A irrealidade do drama está patente. A obra é uma quinada de 180 graus: não contém mensagem e não abre novos rumos. Apela unicamente ao sentimentalismo do leitor. Talvez José Mauro está, agora, com sua produção em “massa” de “obras de arte” penitenciando-se por ter escrito um livro que, hoje, não se “insere no contexto” da nossa realidade… 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.