Textos de Arquivo I: Aguinaldo Silva

Nota introdutória

                Com a postagem deste texto, inicio uma série que estou chamando de “Textos de Arquivo”. Ficarão aqui registradas publicações que fui fazendo ao longo da vida, desde os anos 1970 quando comecei a escrever esporadicamente algumas crônicas e comentários. São textos de iniciante. Eles têm muito mais valor pessoal do que qualquer outra coisa. A postagem seguirá a ordem cronológica do aparecimento destes textos. Trago-os para o blog incentivado pelo amigo Alexandre Costa, este inveterado otimista que acredita e aposta neste blog muito mais do que eu.    

                Para situar o veículo de publicação deste texto: éramos um grupo de bancários, trabalhando no Banco do Brasil, na agência de Santo Ângelo (RS), nos idos dos anos 1970. A Associação Atlética Banco do Brasil mantinha um plano de compra de automóveis, o que lhe dava uma renda de taxa de administração. Propusemos um “órgão de divulgação”, ao estilo de um boletim cultural. Demos-lhe um nome: OPINIÃO, título que estilizado se sobrepunha à sigla AABB. Nele eram publicados textos produzidos por colegas da agência e mesmo de outras agências. No número 1 deste “jornal”, em editorial, afirmávamos: “A temática de nosso órgão de divulgador terá como uma constante a seriedade, tal como sérios são nossos propósitos. Ela terá por escopo, em relação aos que dela participem, garantir-lhes possibilidades de um maior desenvolvimento cultural. Sabemos perfeitamente que vivemos na sociedade mais materialista no sentido ético do termo – que talvez já tenha existido, embora hipocritamente afirmem o contrário os seus áulicos, onde tudo é medido de acordo com uma escala de valores em que o máximo é a busca do utilitário; onde a caça ao dinheiro é uma obsessão; onde, até mesmo, o estudo, o aperfeiçoamento cultural só têm valor na medida em que trazem alguma vantagem material qualquer; onde a preocupação com certos assuntos é tida como enfadonha e inútil. Entretanto julgamos que iremos contar com o apoio de nossos leitores.”

                Eram tempos difíceis aqueles. Estávamos em plena ditadura militar e a censura imperava. Como nosso ‘jornal’ era um órgão de uma associação, nunca tivemos problemas com a guarnição federal de Santo Ângelo. Mais tarde, perdemos o título “Opinião” quando surgiu o jornal nacional Opinião. Nós não havíamos registrado o nome e obviamente o nome dialogava com o Teatro Opinião, e uma coluna chamada “Opinião” dialogava com as dicas do Pasquim, jornal que no interior do Rio Grande do Sul, esperávamos com ansiedade a cada semana.

Não lembro por quantos anos o jornal continuou a ser editado. Mas desapareceu provavelmente quando a entidade não pode mais sustentá-lo, com o encerramento dos planos coletivos de compra de automóveis.

Folhando agora as edições de que ainda disponho, alguns títulos de artigos e seus temas ainda são atuais, como um assinado por Roberto Haas intitulado “Nem despersonalização e nem desnacionalização” a propósito da língua portuguesa e a absorção de conceitos e expressões estrangeiras. Havia um colaborador em todos os números, fazendo crítica de cinema: Luiz César Cozzatti, então estudante de medicina em Porto Alegre.  Cláudio Bechler comparecia em todas as edições escrevendo contos. A Associação também patrocinou um concurso nacional interno de contos (interno porque somente bancários do Banco do Brasil podiam se inscrever). Estes contos devem ter dado a nós certo alento na “redação”: tínhamos matéria para publicar.

Pessoalmente, ainda que membro do Conselho Editorial, fui muito mais um dos editores do que autor. Mas publiquei no jornal alguns textos. O primeiro deles comenta uma obra de Aguinaldo Silva muito tempo antes de ele se tornar autor de novelas da Globo. Este que segue está no primeiro número, de junho de 1970. Como poderá o leitor constatar, o texto fala do autor e cita suas obras, sem se fixar em nenhuma delas. Sinal dos tempos, quando ainda se lia a literatura e se tentava encontrar o autor.

 Lembro que o escrevi sob o impacto da leitura de Cristo Partido ao Meio, cujo enredo lembro vagamente. Um sacristão, o sino que bate, o homossexualismo, a solidão numa pequena cidade do interior. Vontade de voltar a lê-lo, mas será que o acharei em minha biblioteca ou se foi como tantos outros livros?

 

AGUINALDO SILVA

Lukács afirmou que “não há composição sem concepção do mundo”. Realmente, o artista, usando a palavra, que ainda é meio universal de comunicação, dinamiza todas as dimensões da palavra revelando com ela sua relação com o mundo em termos de valor, de não-indiferença. Ora, sendo a literatura ficção, seu valor não está no ótimo estético e sim na medida em que realiza, com expressividade e criação, a virtude da voz humana. Voz que é escolha e voto. Voz que se traduz na oportunidade de dizer, como e que dizer. Com significações no mundo, neste espaço e tempo. Aguinaldo Ferreira da Silva se filia na linha dos contestadores. Sabe que as relações entre os homens, hoje, estão basicamente assentadas num “devorar-se uns aos outros”. Dentro deste contexto histórico sua voz se ergue, alfinetando valores tidos como eternos pela sociedade competitiva em que vivemos. Se suas obras já publicadas não são a melhor arte, são a arte melhor, pois o livro ainda é o veículo capaz de trazer transformações à sociedade em que surgiu pois é inconcebível que, comprometido com o mundo e surgido no mundo, como seu autor, nele permaneça como um nada.

Aguinaldo Ferreira da Silva nasceu em Carpina, cidade da Zona da Mata, em Pernambuco, no dia 7 de junho de 1944.

Antes de ser exclusivo da Editora Record, teve seu primeiro romance publicado em dezembro de 1961 pela Editora do Autor: REDENÇÃO PARA JOB.

CRISTO PARTIDO AO MEIO, que tem como tema a dialética solidão/comunicação, foi lançamento da Editora Civilização Brasileira em 1965. O autor o escreveu em janeiro/novembro de 1962 e fevereiro de 1964, em Recife.

Segue-lhe, pela ordem de publicação, CANÇÃO DE SANGUE, em 1966, e DEZ HISTÓRIAS IMORAIS, obra que colocou, em dez histórias, a moral convencional em questão.

No teatro, ganhou o prêmio Escola de Teatro da Universidade de Pernambuco com sua peça OS INTRANSIGENTES.

Antes da publicação de seu primeiro romance, foi bancário e datilógrafo em cartório. Hoje, dedica-se à literatura, publicando contos em periódicos e romances.

Autor contemporâneo, jovem, de literatura violenta, teve conto desclassificado em concurso de contos do Paraná, por começar com uma palavra impronunciável.

A nós, ficcionados pela literatura, só nos resta acompanhar o crescimento, em número e qualidade, das publicações de seus trabalhos.

Remy Gorga Filho diz que todos nós ainda ouviremos falar muito – e bem – do pernambucano Aguinaldo Silva.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.