TERIA O POVO DADO AVAL AO GOLPE?

Os analistas da grande imprensa, toda ela comprometida com o golpe, dirão nos dias que se seguem que o povo, ao votar como votou, deu aval ao programa a ser executado pelos golpistas! E mais: que os resultados eleitorais, ao eleger prefeitos principalmente do PMDB e do PSDB, mostram que não houve golpe, confundindo alhos com bugalhos.

Os votos nulos, brancos e as abstenções estão nos mostrando outra coisa: o discurso anti-política foi digerido, deglutido e agora encontra lugar de desova: as urnas. Como se sabe, em todas as situações políticas encontramos três grupos: uma minoria favorável a uma posição específica; outra minoria desfavorável e uma grande maioria neutra, indefinida.

Quando chegam as eleições, a questão é a conquista desta grande maioria aparentemente silenciosa. Houve um momento em que esta maioria apoiou um projeto político que pode ser resumido numa das frases de posse do presidente Lula: ficarei satisfeito quando todos os brasileiros tiverem três refeições por dia.

Acontece que a população, uma vez garantida a sobrevivência, sempre quer mais. Quando se tratou de aumentar esta fatia de acesso, acendeu-se a luz vermelha da minoria contrária e começou o processo de conquista da grande maioria de centro. E foram suficientemente inteligentes para fazerem passar o medo de que aqueles recém chegados ao consumo e à universidade estavam roubando espaços tradicionalmente seus. Movimentados pelo interesse mesquinho de guardar para si o máximo possível, esta “classe média” embarcou no discurso que antes abandonara – abandonara, diga-se de passagem, por muito pouco tempo e sempre com um pé atrás.

Nas eleições de domingo apareceu claramente esta conquista da maioria por um discurso aparentemente apolítico como o proferido pelo prefeito eleito de São Paulo. A desgraça de um golpe que vai sendo e que irá se aprofundando à medida que o tempo passa ganhou impulso. Os projetos neoliberais ganharam fôlego neste domingo. E serão implementados a toque de caixa.

Quando, mais tarde, esta maioria conquistada pelo discurso conservador despertar e perceber que a água começará a afoga-los também, será tarde. Não haverá mais patrimônio a vender (como é o caso do Estado de São Paulo que já vendeu tudo e procura diligentemente algo a mais para vender, como os terrenos das escolas que a reorganização escolar fecharia); não haverá mais qualquer tranquilidade com o futuro e a velhice; não haverá limites para a exploração da mais-valia; não haverá mais estado como um tertius para garantir equilíbrio entre forças desiquilibradas; não haverá mais justiça que não seja seletiva.

Então aparecerão, de fato, os derrotados da eleição municipal de 2016, cujos resultados florescerão ainda em 2018. A quinada contra o retrocesso demorará a acontecer, e certamente não encontrará viva a geração que hoje lê, escreve e reflete. 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.