Ser piedoso não quer dizer ser carola. Ter piedade implica em ter pena, compadecer-se… Aqueles que viveram os anos pesados da ditadura militar – cujos herdeiros o Michel Temerbroso trará à tona em seu esquema militar, fazendo ressurgir a doutrina da Segurança Nacional – sabem perfeitamente o que significa pressão. Física muitos a sofreram, incluindo a atual Presidente Dilma Roussef. Psicológica, sofremos todos nós que não aderimos ao golpe em 1964 e que depois tentamos continuar pensando com a própria cabeça.
Pessoalmente, não fui atingido. Apenas não fui aceito, embora aprovado em primeiro lugar, num concurso para o então Banco da Província. Parente meu, identificado com a causa de 1964, foi chamado ao banco para ser informado da razão pela qual eu não seria chamado a trabalhar naquela instituição. Isso me valeu uma espinafrada, um sermão dado longe de casa, pois me carregou em seu carro para fora da cidade para me falar e aconselhar a ficar quieto. Foi só! Outros sofreram muito maior pressão psicológica do que esta. Jovem, fiz outro concurso, para outro banco e fui aceito. E desta vez era o Banco do Brasil, de onde se poderia esperar mais vigilância ideológica…
Mas agora, em 2016, a pressão psicológica e a execração pública sofrida ontem pelo atual Presidente da Câmara de Deputados é inacreditável! Como sempre, a TV Globo se esmerou nos ataques, nos achincalhamentos. As ameaças sofridas por Maranhão, que o levaram a recuar da decisão de anular as sessões de votação da Câmara no impeachment, foram robustas o suficiente para nos mostrar como será daqui para frente!
Num regime jurídico-policial, não interessa saber se legalmente uma decisão ou um comportamento está dentro das normas existentes. Se decisão ou comportamento ou ação (e muito brevemente também opinião) não estiverem de acordo com o novo catecismo, com a novilíngua que começará a ser escrita a partir do próximo dia 11/05/2016, não importa de lastreadas na legislação vigente. Haverá pressão psicológica, ameaça de processo – já pensou alguém que apenas votou no PT cair nas garras de Sérgio Moro? Não faltará um delator a dizer o que a força-tarefa quer ouvir e pronto: há delação é prova suficiente para uma prisão preventiva de qualquer cidadão!
Com o retorno da ideologia da Segurança Nacional, patrocinada pelo esquema militar de Michel, o Temerbroso; com a vida jurídica perturbada por juízes que vem a público manifestar suas opiniões partidárias mesmo quando sobre o assunto poderá ter que agir como juiz! Tudo para eles, como disse uma leitora, pode, pode, sempre pode.
Eduardo Cunha tinha falado que não entregaria o impeachment de graça! Como entregou, caiu porque só então o Teori Zavacki acordou de sono profundo quando a possibilidade de sua vaidade ser arranhada apareceu num possível parecer de seu colega, o ministro Marco Aurélio de Mello. E Eduardo entregará os pontos assim, de graça? Nenhuma embaixadazinha para se ocupar? Não poderia ser um ‘ardido’ cultural em alguma embaixada, assim uma nomeação meio por baixo do pano. A imprensa não vai noticiar, afinal algum prêmio ele tem que receber pelos serviços prestados, a não ser que atualmente os pagamentos recebidos antecipadamente sejam já suficientes para recusar um prêmio qualquer. Quem sabe, o que já recebeu e que ficamos sabendo pelos vazamentos da Lava Jato serão considerados suficientes.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

Comentários