Tempos de medos que se aproximam do terror

Da luta contra o terror desde o 11 de setembro de 2001, com a simbólica queda das torres gêmeas até a eleição de Donald Trump se passaram apenas 15 anos! Mas parece uma eternidade porque se instalou no mundo um tipo de terror explícito que se somou a outro terror, aquele implantado junto com o pensamento único do neoliberalismo que cresce bem regado desde os anos 1970, adubado nos anos 1990 e que agora começa a dar sinais de derrocada.

A globalização da economia produziu muitos lucros virtuais, modificou profundamente – mas não estruturalmente – o capitalismo que se tornou rentista e improdutivo. Concentrou a renda, produziu a mendicância mesmo em países desenvolvidos. O estado de bem-estar social foi jogado às traças, e junto com ele as conquistas do pós Segunda Guerra Mundial, na construção de um modelo em que o estado impunha freios à guerra da concorrência liberal que produziu as duas guerras mundiais.

Foram anos dourados e não duradouros. O liberalismo se revestiu, mostrou nova cara e apareceu como neoliberalismo (e aqueles que o criticaram no país foram chamados por FHC de “neobobos”).

A elite brasileira, sempre atrasada, impõe-nos agora um governo para aprofundar a perspectiva neoliberal no país, ou seja, a construção de um estado extremamente vigilante mas jamais gerenciador dos conflitos que o mercado produz. Trata-se de construir o que chamam de um estado mínimo, não interferente, mas forte o suficiente para funcionar como policial para reprimir toda e qualquer reação aos lucros buscados com tanta ganância pelo poder financeiro que deseja açambarcar tudo para si, mesmo que a economia real se torne um caos improdutivo.

E por que está atrasada nossa elite? Porque é burra. Porque não quer enxergar o que está acontecendo no mundo. E no mundo onde transitam as pessoas, o que temos é o medo que está chegando ao terror face às incertezas e inexistência de um futuro. Qualquer esperança já foi destruída pelo sistema neoliberal globalizado. Todo trabalhador morre de medo de ficar desempregado; todo jovem olha para o futuro sem futuro que o aguarda; toda dona de casa cotidianamente calcula a sobrevivência física da família; todo aposentado vive sob o terror de não mais receber seus proventos porque o discurso uníssono é de crise e de falência dos sistemas previdenciários. É o medo e o terror.

No Brasil de hoje, a resposta a este medo e terror é o fim das políticas públicas, o fim dos investimentos para assegurar uma vida melhor. Tudo em nome dos ajustes fiscais, isto é, do direcionamento da economia como um todo para o rentismo financeiro. O trabalhador deverá ficar ainda com mais medo de perder o emprego, porque sabe que o sistema público de transporte se deteriora e se deteriorará num futuro breve. Levanta mais cedo, madruga e vai para o ponto de ônibus ou a estação de trem para garantir chegar no horário e não criar razões para ser demitido. Em nome dos ricos, piora-se a vida de todos os trabalhadores, de toda a pirâmide social que está abaixo do vértice!

No entanto, os acontecimentos mundiais estão mostrando que o sistema está ruindo. Alguns destes indícios são tão evidentes que chega surpreender que Armínios, Meirelles, Serras e adjacências não os compreendam. Depois da aventura devidamente televisionada para espetacularizar a morte em massa no Iraque justificada por uma mentira, seguiu-se nove anos depois a “primavera árabe” elaborada nos gabinetes da CIA, desestabilizando todo o Oriente Médio e criando as “guerras sujas” patrocinadas pela sede do império e seus asseclas (França e Inglaterra entre os primeiros). E isto sob um governo democrata!

O produto da obra está aparecendo na forma de refugiados que fogem para a Europa mergulhando no Mediterrâneo que se transforma cada vez mais num cemitério. Os refugiados estão visíveis, menos para a elite brasileira que quer aprofundar o sistema que os produziu, porque o domínio dos recursos naturais – dos mesmos que dispõe o Brasil – é necessário para garantir a continuidade do sistema neoliberal (alguma coisa neste sistema há de ser não virtual, porque as pessoas continuam tendo peso, e não se consegue tornar tudo abstrato: a concretude das coisas permanece). 

E dois fenômenos políticos de grande alcance estão mostrando que viver sob o medo e o terror da miséria que está batendo na porta de cada casa já não manterá as pessoas dóceis e meigas: o BREXIT e a eleição de Trump. Ambas representam uma vontade de se voltar para o interior dos países para resolver suas misérias. Ambas apontam para o fechamento das fronteiras. Ambas dão um golpe na globalização em todos os sentidos, aquela da economia e aquela da solidariedade entre os povos.

Infelizmente o caos produzido pelo neoliberalismo em escala mundial está abrindo espaço para o ressurgimento do “nacional socialismo”, bandeira do nazismo. A saída que apontam não será pela esquerda, mas pela direita.

E a direita implantará um estado vigilante e policialesco: vigiando as fronteiras até com muros físicos para evitar a solidariedade entre os povos; vigiando e controlando os de dentro para garantir o exercício ditatorial do poder ao mesmo tempo em que concede algumas benesses para diminuir o medo e o terror que internalizamos, mas com os quais não conseguimos mais sobreviver. Já vivemos este estado de coisas sob os ditadores militares. Nosso vivido está na memória, mas os novos adultos não os viveram e por isso, com o desencanto, com o medo e com a desesperança, estão jogando suas fichas na direita porque estão sobrecarregados das ideias vendidas cotidianamente nas mídias. Dentre estas, a principal é a ideologia do mérito. Imaginam a meritocracia estabelecida e nela reconhecidos os seus méritos. Perderão o medo mas continuarão lutando cegamente contra os outros para se sobressaírem e mostrarem seus méritos, garantindo sua prevalência e seus direitos ao consumo.

Vivemos no deserto do pensamento de direita, mas como intitulou um de seus livros D. Hélder Câmara – O deserto é fértil – neste deserto de ideias o que nasce é forte e fértil. Forte e fértil é a ideia de que os frutos da terra são um bem comum e que deles devem usufruir todos de forma menos abissal de desigualdades de acesso.  

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.