O silêncio absoluto das ruas ocupadas antes por robustas manifestações da classe média indignada, liderada pelos Movimento Brasil Livre, pelo Vem pra Rua e outras organizações sociais financiadas pelos partidos da então oposição – nomeadamente o PSDB, grande perdedor de eleições – mostra que toda movimentação política que poderia ser atribuída – e foi atribuída pela imprensa – à consciência cidadã enfim desenvolvida no país, não passava de ódio de classe, mesquinhez típica da construção histórica do fosso da desigualdade social e revolta por terem perdido eleições consecutivamente em quatro ocasiões eleitorais.
Nada a ver com luta contra a corrupção. Se assim fora, os manifestantes e os tais movimentos estariam convocando robustas manifestações contra os atuais usurpadores donos do poder executivo da Nação.
Fico realmente com pena de Geraldo Brindeiro, que brindava a todos estes que sempre apareceram como denunciados e agora nas delações premiadas, mas nunca foram incomodados. É que Geraldo Brindeiro ficou famoso como o engavetador geral da república durante seu período na Procuradoria Geral, a mando de FHC e companheirada. E agora vem este Sérgio Machado, ex-senador do PSDB, que conhecia os esquemas por dentro, depois indicado pelo PMDB para presidir a Transpetro, remover o lixo da história e desfazer o bem feito por Brindeiro, desengavetando denúncias que ele havia engavetado.
Até mesmo aquele processo de separação judicial em Santos, em que a ex apresentou em juízo comprovantes da renda do companheiro, para provar que ele tinha condições de lhe pagar a pensão requerida de R$ 10.000,00 mensais. Pois desvelou a inconsciente ex todo o esquema que envolvia as propinas no porto de Santos, com empresas fantasmas do grande proprietário de terras, ex-policial da Paraíba, o Lima, muito chegado ao Michel Temer: milhões foram recebidos como propina pelo atual usurpador da presidência. Pois Brindeiro tinha arquivado imediatamente o processo, pois então o Michel Temer era deputado federal. E agora, Brindeiro? Será que haverá um procurador geral que vai desarquivar o que bem arquivado que você arquivou?
Sérgio Machado está sendo um homem-bomba. Outro vem a caminho: Eduardo Cunha. Vai ficar difícil para os Dallagnol, para os Moro, para os Gilmar Mentes de nosso judiciário. Eles blindavam as informações de delatores que apontavam quem não deveria ser apontado. Vazava alguma coisa, sabia-se por alto que Aécio era citado (até se chegou a pensar que Aécio seria o boi de piranha, mas Gilmar Mentes não permitiu nem permitirá. Em último caso pedirá vistas aos processos todos, como é de seu costume). Agora vem este tucano do nosso ninho vomitar o que de bem bom comeu a se fartar. Mas as nossas propinas não são propinas, são recursos limpos procedentes do caixa oficial, isto é o “Fundo de Propinas” gerido por Sérgio Machado.
Gostei mesmo foi da argumentação de defesa de dois envolvidos na delação televisionada de Sérgio Machado: Michel Temerbroso disse que era tudo mentira da grossa e que se fora verdade ele não estaria na posição em que está, não seria presidente da república (em exercício, interinamente)! Fiquei estarrecido com o argumento, persudadido e até mesmo convencido de sua inocência e da safadeza de Sérgio Machado. A posição em que está é uma prova convincente de sua inocência.
Aécio Neves argumenta de outra forma. Para ele fazer referência a fatos de 18 anos atrás é desespero de delatores que querem abrandar suas penas. É uma pena (de tucano?) que este delator procedente do mesmo ninho possa remotamente trazer penas aos denunciados, se as investigações se tornarem sérias e se a vontade justiceira da operação ‘mãos limpas’ do Brasil não for mais conduzida partidariamente. Não se preocupe Aécio, não lhe tirarão as penas e você poderá voar livre de gaiolas como um tucano de boa cepa. O boi de piranha será Eduardo Cunha. Gilmar Mentes já o livrou desta tarefa.
Estes convincentes argumentos somados às afirmações dos gravados e agravados Romero Jucá, Renan Calheiros e José Sarney estão cada vez mais transformando a ‘mentira da grossa’ de que se queria ‘estancar a sangria’ em uma verdade transparente. E quando se dizia que a motivação maior do golpe era estancar investigações que poderiam – se Dallagnol e Moro quisessem, mas não querem – chegar aos limpinhos, vinham Elaines CASTAnhêdes e outras penas de aluguel da imprensa a dizer que isso era uma bobagem, uma grossa besteria inventada por petistas desesperados e acossados. Por que estes comentaristas da grande imprensa não reconhecem que erraram? Porque eles esquecem hoje o que escreveram ontem, seguindo o conselho de FHC do “esqueçam o que escrevi” quando o sociólogo virou presidente da república.
Daqui a 50 anos, ainda existindo, a Globo virá a público desculpar-se por ter apoiado o golpe, como se desculpou de ter apoiado a ditadura militar. Será que a Folha de S. Paulo pedirá desculpas por emprestar seus carros para a repressão? Chegaremos a isso? Pelo assanhamento da parte econômica do golpe (Serra, Meirelles e todo o PSDB em defesa do mercado e da privataria) e a intrépita pressa do setor institucional do golpe (Rodrigo Janot, Moro, Gilmar e Alexandre Moraes – para quem não sabe, o ministro interino da Justiça que entende de repressão policial), poderemos chegar lá novamente.
E então, será que terei de ouvir o que ouvi quando tinha 18 anos? “Por que esta luta pela liberdade. Liberdade é isso: comer um bom churrasco com os amigos. O resto é bobagem.” Sou gaúcho e ouvi isso de um cunhado bem posto na vida! Num churrasco familiar em que resolveram me colocar contra a parede… Torço para que isso não volte e nem venha a torturar os jovens que hojen ocupam escolas. Mas temo que volte. A repressão está sendo o caminho da geopolítica imperial. E a América Latina sempre foi o laboratório experimental do império.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

Comentários