Alto e bom som, anuncia o governo que é preciso acabar com as proteções. Entenda-se que não se trata de acabar com a proteção social das camadas que dela necessitam, num começo de bem estar social conquistado na última década. Para este governo, políticas sociais não são de proteção dos nacionais: são despesas a serem cortadas com urgência mesmo que ao custo da morte das pessoas. Vocês já imaginaram o que será a dengue do próximo verão sem recursos para o combate do mosquito? O que será a zika? O que será a malária? Isso só para pensarmos doenças tropicais…
Como se sabe, no ideário neoliberal, proteção das pessoas é gasto público que precisa ser imediatamente estancado. Porque afinal a economia, o desenvolvimento ou qualquer outro conceito que queiram usar não tem nada a ver com a melhoria da qualidade de vida da população! Tem a ver com PIB, tem a ver com relação PIB/dívida pública, tem a ver com ajuste fiscal, tem a ver com emparelhamento de débito e crédito. Nenhuma ação humana, nesta perspectiva, tem por fim melhorar a vida: tem por fim melhorar os índices contábeis, nada mais. Eles cuidam dos índices, não cuidam das pessoas.
Aliás, um deputado cujo nome faço questão de não lembrar, embora lembre a fisionomia tenebrosa que circulou pelas redes sociais já disse que quem não tem dinheiro não faz universidade. Na matriz do pensamento endossado por nossos próceres Temer, Serra, Meirelles, saúde e educação são bens, e como tais precisam ser adquiridos, pagos. Quem não pode comprar, que fique sem saúde e sem educação formal.
Como a proteção social é um gasto, então não se trata nesta fala destes direitos que com ganância estão sendo retirados das pessoas. Então, a que se refere o Excelentíssimo Senhor Usurpador quando se refere ao fim da proteção? Às altas taxas de juros? À proteção policial dos condomínios de luxo? Que proteção tem que acabar?
Pois pasmem: ele está se referindo à proteção da economia nacional. Retumbantes, suspenderam, proibiram qualquer financiamento do BNDES à empresa nacional para realizar grandes obras no exterior. Parece que isso é um protecionismo insuportável para o Usurpador e seus asseclas. Qualquer país do mundo incentiva suas empresas a produzirem divisas, a realizarem negócios no exterior. Qualquer país do mundo financia, inclusive os EEUU. Mas no Brasil isso será proibido pelo Usurpador e seus ministros! Por quê? Quem lucra com o não financiamento?
Mas, supreendam-se!, o mesmo governo que proíbe os financiamentos empresariais que dão emprego e divisas ao país, reservou 30 bilhões. Estou falando em 30 bilhões, com que financiará as empresas nacionais e estrangeiras que queiram comprar tudo que porão à venda, do petróleo do pré-sal, cujo custo de pesquisa não será calculado na oferta da mercadoria, ao aquífero Guarani! Temer já ameaçou: privatiza até creches…
Seguindo o bom modelo de José Serra, que tentou privatizar os cemitérios da cidade de São Paulo, tudo será vendido. Para quê? Por quê? Para pagar juros… mas o negócio é ruim: se o governo dispõe do dinheiro para financiar quem quer comprar, então não está precisando de dinheiro para fazer caixa! A parte de ingresso de dinheiro das empresas compradoras será muitas vezes inferior ao lucro que o que está sendo vendido gera!!! Será o caso, por exemplo, do Banco do Brasil. É o caso da Petrobrás! Ninguém fala no lucro da Petrobrás! Ele seria maior se não tivessem pago exageradamente por obras, pois as chamadas propinas não saíram diretamente dos cofres da Petrobrás como dão a entender os noticiários e os investigadores! Foram preços de obras orçadas acima do que era necessário, como aconteceu com o Metrô de São Paulo, mais aí o fato de as empresas combinarem preços “é normal” como declarou o Sr. José Serra ao Estadão em outubro de 2014! É anormal somente quando o governo é do PT. Ou seria por que nos preços escorchantes do Metrô paulistano nenhum agente público recebeu agrados e o lucro foi só das empreiteiras?
No caso da Petrobrás, ela continuou a dar lucro ainda assim!!! E ainda financiou a classe média por longo tempo ao não atualizar os preços da gasolina! Por que vender a Petrobrás????
Quais são realmente os interesses econômicos que fazem financiar uma compra de um patrimônio que é lucrativo, fazendo entrar em caixa um valor insignificante como aconteceu durante toda a privataria tucana da década de 1990?
Ah! Entendi. É para acabar com o protecionismo!!! Mas financiar a compra não é protecionismo? Manter os juros da taxa SELIC na estratosfera sem razão macro econômica alguma é uma proteção a quem? Até José Serra já acha que as taxas de juros podem baixar! Até Serra! O coveiro mor do país está querendo desproteger os banqueiros??? Que é isso, Zé? Esta proteção está garantida por Excelentíssimo Senhor Usurpador. É parte do que devemos pagar para que ele ostente o título de Presidente da República do Brasil.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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