TEMER, NÃO SERIA HORA DE VOCÊ DEIXAR O GOVERNO TAMBÉM?

Rosa, Rosa, ó Rosa Weber. Você que aceitou o processo contra Dilma Rousseff porque ela falou que o impeachment era um golpe; você que fez escola com sua aceitação, de modo que a Corregedoria do Rio de Janeiro acabou processando alguns de seus juízes que tiveram a ousadia de opinar que juridicamente não havia crime de responsabilidade e que, portanto, o impeachment era um golpe de estado – felizmente os juízes foram absolvidos por maioria do Tribunal de Justiça, mas a Corregedoria promete apelar a recursos superiores (talvez o processe venha a cair ainda nas mãos da meritíssima ministra) – você, ó Rosa Weber, há de convir que a cada dia se confirma o que todo mundo sabia: o impeachment é um golpe que vem sendo arquitetado desde 2002, quando da primeira eleição de Lula, ou da primeira derrota do PSDB. Você, muito apressada, quis prestar-lhe serviços aceitando a denúncia que agora começa a ficar sem sentido!

Para a direita, a derrota de 2014 foi a gota d’água. O candidato bonitinho, representante lídimo da boa criação, perdeu. Não dava mais para esperar e as frentes abertas foram duas: um parecer do TCU incriminando atos até então aceitos pelo mesmo tribunal ou a cassação da chapa por serviços prestados por Gilmar Mentes no STE.

O açodamento de Eduardo Cunha fez prevalecer o primeiro caminho. E tivemos todos – as gerações futuras nos invejarão – aquele espetáculo de votação na Câmara dos Deputados, em 17.04.2016, com votos patéticos dedicados à tia, ao avô, à mãezinha, aos filhos, aos rebentos e tudo o mais que ouvimos e de que rimos.

Pois a coisa foi para frente. Chegou ao Senado já com as cartas marcadas. Aberto o processo de julgamento! Diz-se que no julgamento é que será considerada a questão de mérito do crime de responsabilidade, enquanto a autorização da Câmara de Deputados é apenas um ato político. Designada a comissão que estudaria o processo, Anastasia, do incólume e incorruptível (kkkkkk) PSDB, é escolhido relator. E como relator, tenta por todos os meios cercear a defesa – não admitiu análise técnica das tais pedaladas fiscais, e foi o STF quem determinou que a análise técnica fosse feita.

O bom mesmo é que ‘eles’ chegaram ao poder. E Temer nomeia seus ministros. No mais descarado toma cá, dá lá. O que era considerado um defeito nos governos anteriores, agora é saudado pela imprensa como a ‘construção de uma sólida base parlamentar’. Só rindo. 

Pois os dias foram passando. E um ex senador do PSDB, depois membro do PMDB, indicado pelo partido para a Transpetro, cai nas malhas da Lava Jato. E começa a gravar, em delação premiada…

Caem dois ministros. Um apontado como esperança da economia neoliberal. Outro menos cotado, mas ministro.

Mas o egoísmo de Sérgio Machado é sem limites. Não quer deixar nada para o Eduardo Cunha delatar. Está entregando todo mundo. Ele já tinha dito: fui do PSDB, conheço por dentro, não sobra ninguém… E lá vai ele denunciando. Aí cai o terceiro ministro, Henrique Alves, dizendo:

“Sempre pautei minhas atitudes e relações pela ética, respeito institucional aos cargos públicos ocupados e valores republicanos. Repudio ilações envolvendo o meu nome, reafirmo a confiança nas instituições do estado democrático de direito brasileiro. Estou à disposição das autoridades competentes e prestarei os esclarecimentos necessários nas instâncias adequadas quando solicitado”.

Com tanta sede foram ao pote, que pelo caminho tropeçaram uns nos outros e estão caindo, caindo. Nunca houve uma denúncia de que Dilma Rousseff tenha recebido propina. Houve denúncia de que dinheiro arrecadado pelo tesoureiro do partido provinha de empresas contratadas pela Petrobrás. As mesmas empresas que financiaram também o PSDB. Mas agora há denúncia direta do presidente usurpador, Michel Temer. Foi para a campanha do Chalita, não para ele. Como foi ato praticado fora do exercício da presidência, não é crime de responsabilidade. Mas é crime de qualquer forma. Aliás, os decretos d e pedaladas fiscais assinados por ele como presidente em exercício também não são crime de responsabilidade. Só são crime de responsabilidade aqueles assinados por Dilma Rousseff. Assim funciona a Justiça.

Não dá para deixar de perguntar: não estaria na hora do Temer cair também???  Ainda não li ou ouvi do Farol Apagado de Alexandria, nosso príncipe dos sociólogos, Fernando Henrique Cardoso, aquele que quer que esqueçamos o que escreveu, apelar: “Renuncie, Michel!!!” É que eles já sabem: nenhum candidato do PSDB à Presidência tem chance de ganhar eleições antecipadas caso caia também Temer… Então, como diz sua jornalista preferida, Elaine CASTAnhêde (de casta, não de castidade), “ruim com ele, pior sem ele”. Só rindo mais uma vez!!! O riso é corrosivo. A cultura popular já o mostrou no passado e vem mostrando no presente.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.