TAMBÉM DÁ PARA USUFRUIR DO RISO DE ESCÁRNIO

Obviamente estamos todos – no mínimo os 90% que desaprovam o governo Michel Temer – contra a famigerada Reforma da Previdência desejada pelo Ministro da Fazenda. Não esqueçamos, desde o golpe, imaginava-se que toda a seguridade social e toda a previdência estaria sob a batuta do empregado dos banqueiros, o Sr. Henrique Meirelles.

Acontece que para um neoliberal, tirar da miséria alguns milhões de brasileiros; permitir uma aposentadoria mais ou menos de sobrevivência para deficientes e trabalhadores rurais; considerar de perto na seguridade e na previdência a verdadeira situação de vida dos contribuintes, que é diferente daquela dos alemães, por exemplo, ou de outros países desenvolvidos que adotam uma idade mais avançada para receber o benefício, é desnecessário para um neoliberal de carteirinha. Na verdade, como todos sabem, a receita neoliberal é de concentração das rendas e é isso que interessa aos ex-diretores de bancos que nos governam e ao próprio presidente do Bradesco, conselheiro do homem que tomou de assalto o poder executivo.

Mas o vai-e-vem da Reforma da Previdência, com a chamada “sólida base parlamentar” de que falava a moça da massa cheirosa esperneando porque terá de enfrentar sua reeleição, está permitindo ver que na verdade o assalto aos trabalhadores brasileiros não é consequência de um sistema falido como dão a entender em sua tentativa de persuadir os incautos telespectadores da TV Globo! Trata-se somente de mais um assalto. E todo o assaltante carrega o que pode. No caso, o assalto para transferir riqueza para os “rentistas” de toda ordem, aqueles que pagam menos imposto de renda que o trabalhador comum, tem como montante o que o assaltante conseguir no momento. Rouba-se o que dá; o que não pode carregar, o assaltante vai deixando de lado. É o que está acontecendo com a Reforma da Previdência.

Supostamente, o governo vai abrindo as pernas, concedendo aqui e acolá para ver se consegue alguma coisa a mais do butim! Se não dá para levar tudo, leva quase tudo; se não der para levar quase tudo, leva a metade… Com isso pode até dizer que está ouvindo os parlamentares, os ditos representantes que estão é preocupados com sua reeleição.

O que virá por aí, nesta negociação toda, será uma reforma política em que votaremos em listas. E os primeiros nomes das listas serão ocupados, por lei, sempre por aqueles que já estão no Parlamento. De modo que a reeleição se garanta, e então se vota a Reforma da Previdência. Negociado isso, a Reforma da Previdência sai.

Mas o gozo que se pode tirar acompanhando o vai-e-vem é perceber que os grandes jornais, sem perceber, vão entregando ao distinto público explicitamente o que era apenas um segredo de Polichinelo. Toda vez que alguma alteração é feita no plano encaminhado pelo Sr. Michel Temer, graças a negociações que faz com sua “base aliada”, diz a imprensa: o ministro da Fazenda concordou com a mudança. Nem se fala que o presidente concordou. O presidente é um fantoche, nada mais do que isso. Quem manda mesmo em tudo é Henrique Meirelles, de origem banqueira e sempre afilhado do PSDB. O PSDB está no governo, é o governo. O PMDB é figura decorativa e a sua pinguela para o futuro é uma piada de mau gosto.

Enquanto isso, nos trâmites das negociações, eles vão lançando balões de ensaio: quem sabe Michel Temer se candidata à reeleição, tendo por vice o João Dória, nosso Trump tupiniquim? O desespero é triste, nas hostes políticas do PSDB não está sobrando ninguém. Os tucanos vão sendo depenados e estão experimentando o veneno que prepararam para os outros. Até a OIA, vejam só!  A revista está depenando Aécio Neves, irmã e cia. Apesar de todo o esforço do Ministério Público, particularmente o MPMG; apesar de todos “isso não vem ao caso” do Sr. Dr. Sérgio Moro, há que entregar mais alguns bois de piranha para fazer de conta que há investigação séria. Eduardo Cunha foi o boi de piranha do impeachment. Quem mais, além de Aécio Neves, será também boi de piranha para a desejada prisão do Lula, mesmo que não haja provas encontradas de incriminação? José Serra? Geraldo Alckmin?  A palavra final será dada pelos títeres da República de Curitiba, sob as bênçãos dos aliados dos banqueiros. Tudo dependerá das instruções estadounidenses que vierem a receber numa destas constantes viagens de colaboração e entrega.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.