Só falta o Presidente

Não, não é o presidente Temer! Este infelizmente não falta ainda que seja um fantasma entre fantasmas.

Trata-se do registro de um novo partido político no nosso sistema eleitoral. Mais uma sigla, mais um partido. Mas este ao menos não será uma sigla de aluguel, ou um ajuntamento de pessoas sob um comando fajuto, que oscila segundo os preços de mercado.

Será um partido sério, de gente séria. Tem toda a estrutura necessária. Muito além do que exige a legislação eleitoral: está presente em todos os Estados da Federação, tem segmentos estaduais e está presente até em alguns municípios brasileiros, os principais municípios!

Tem assegurado um orçamento mensal igual ou superior aos grandes partidos nacionais. Tem gente engravatada, mas tem também gente do povo que sai às ruas, fazem manifestações de louvor, batem panelas, vestem-se de amarelo… São pessoas que estão meio desaparecidas no momento, por razões facilmente compreensíveis. Afinal, confiaram em parceiros não confiáveis. De repente, as lideranças do novo partido não conseguiram mais esconder os malfeitos de seus parceiros circunstanciais. A merda apareceu, mesmo usando a tarja preta para escondê-la.

O esforço para anular efeitos continuará. Por exemplo, grande liderança do novel partido apresenta uma denúncia de crime cometido entre 1998 e 2000. O parceiro foi pilhado por um delator. Sabia-se do crime há quase um ano: Sérgio Machado abriu o bico. Então o grande líder, gordo de poderes, apresentou atrasado pedido de investigação: fez o jogo de cena. Aí outra liderança grande deixou tudo parado, até morrer. Foi substituído e o substituto ficou na moita. Depois de cinco meses sem que a instância máxima do novo partido se pronunciasse – para que o processo seguisse curso e não prescrevesse o crime – o mesmo grande líder encaminha à instância máxima o informe: o crime prescreveu. E um auxiliar assinou o “arquive-se”. Foi assim que “Ah!É sim”, o Aécio da marchinha do pó, escapou de uma investigação… Claro que a grande imprensa fez o jogo de cena: quando do pedido, deu manchete. Quando do arquivamento, para evitar mal entendidos daquele povo que diz ser contra a corrupção, que batia panela e vestia amarelo, não fez alarde! Um arquivo morto não fala.

Agindo partidariamente, por que o Ministério Público e STF não pedem o registro partidário? Acho que a razão é a existência de muitos candidatos à presidência do PMPJ (Partido do Ministério Público e do Judiciário): Rodrigo Janot, Gilmar Mentes, Carmen Lúcia, e os sangues novos de Sérgio Moro, Deltan Dallagnol, Dias Toffoli, Alexandre de Moraes – todos lidimamente e ilibadamente se candidatam à presidência.

Quem escolher? Este é o problema do novo partido. Por isso o registro ainda não foi requerido, embora ele funcione a todo vapor como partido e já está fazendo suas coligações com outros partidos para garantir seu sucesso eleitoral: PMDB, PSDB, PPS, PSD todos farão parte do mesmo bloco para estabelecerem a ponte para o futuro: contas na Suíça ou outros paraísos fiscais e miséria para este povinho que tem por patronímico ser “brasileiro”. Coisa feia essa gente! Afinal, “o povo fede”. E as massas cheirosas voam para o alto…    

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.