Os acontecimentos políticos em tempos de mudanças se precipitam numa velocidade superior àquela que uma reflexão mais ponderada exige. Dou um exemplo: o senhor juiz determinou a suspensão das interceptações telefônicas do cidadão Lula da Silva um pouco depois das 11hs da manhã de ontem; o delegado foi notificado da determinação um pouco depois das 11,30hs; um pouco depois das 13 horas há uma interceptação da fala da Presidente com seu futuro ministro. Pouco tempo depois, o caçador que via sua caça lhe escapar, poque exerce sua Vara de magistrado como caçador em busca da presa que de antemão já está condenada à caça, mas que assim mesmo pode escapar… e lhe escapou. Decepcionado, determina a quebra do sigilo do processo que conduzia sigilosamente por determinação dele mesmo!!! E não percebe, ao entregar aos seus parceiros da mídia, as gravações feitas (e que mesmo sendo autorizadas por ele mesmo são sigilosas sempre) que estava não só faltando com a ética de um juiz, como não percebe que o delegado desconsiderou seu mandato! E ele não decretou a imediata prisão do ‘desobediente delegado’, como publicizou o desrespeito à decisão judicial! Como juiz, ficou com a imagem de justiceiro e de ético queimada! Como é um caçador, a gente compreende: a perda da caça sempre deixa o caçador deprimido.
Isto tudo me lembro o “Senhor Juiz, pare agora…”. Pare para pensar. Pare para refletir. Por favor, não se deixe desrespeitar. Por favor, não deixe que arranhem sua figura que deu tantas esperanças ao povo da rua no dia 06 de março recém passado. Por favor, mantenha-se como a saída desejada por tantos brasileiros, fascistas ou não. Por favor, console-nos dos perigos de uma retomada econômica com recursos que estando no exterior, custam ao Brasil em torno de 50 milhões de dólares por ano (face a diferença entre juros pagos aqui e juros recebidos lá). Por favor, mantenha a elegância para que possamos com você erigir o mercado e a mídia como os condutores da história, das vidas vividas ou sobrevividas (mais destas do que daquelas, que não há recursos suficientes para todos viverem). Por favor, Senhor Juiz, pare agora…
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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