Muitas vezes falta. Não aquela que Freud anunciou, mas tantas outras e várias. E então, eu me visto de substância líquida, como as relações atuais, e estou de novo pronta para meu exílio de dentro, desses que a gente tem febre de saudades.
Imagino ter saudades da liberdade, não vale ou vale? Valha-me deus!
Ontem ainda tive as danadas, sabe? Elas, as febres. Vem e vão até que não, e de tão acostumados acreditamos gostar do calor de dentro, mesmo sentido ainda doer todo o corpo. O corpo dos amigos, dos bairros, das cidades, e dele afinal.
Não se vá ainda, eu juro não é um texto hermético. Embora eu ache bem chique que eu possa ter a pretensão de fazer um texto hermético, mas esse, essinho não é não. Esse é um texto falando de amor e dúvida.
Por isso falei de liquidez, dessas que me toma os olhos e não param de liquidar. Eu sempre disse que não sei bem usar os verbos, acho que não era isso que quis dizer, mas digo. Acabou enfim o tempo de não dizer, porque quando escrevo tenho fúria mesmo falando de amor.
Leia atentamente. Confusão. É assim como gostar de coisas que antes se dava pouco ou nenhum valor, liberdade tem preço alto, por isso pagamos com vidas negras até hoje, mas hoje falo de outras coisas, e menos importantes.
Nas linhas escritas, trago noites e dias que distam do encontro, é estranho perceber que faz falta querer estar num lugar que não se poderá ocupar, a não ser que… Enfim se possa entrar e sair, livremente. Tenho dúvidas cruéis demais.
Talvez seja o tempo certo de sair, talvez seja tempo de entrar, o significado de liberdade está na escolha, na verdade e não no lugar. Nunca quis ir a Paris, mas os gestos e os símbolos valem sempre, ocupam-nos de não sentir as dores, renovam-nos esperanças adormecidas.
Nada digo sobre aprendizagem, ou ensinagem, meus textos têm silêncios apropriados para uma cela, é assim que sinto arder em mim às febres. Não pensem que não sinto, porque não está dito com as palavras certas, acontece que aprendi a dizer quase sempre com as erradas: desculpa, silêncio e resignação.
Ainda assim consegui fazer fortaleza, rota de fuga, e tenho os temperos e ervas certas para usar quando as febres voltarem, e elas voltam incessantemente: matam crianças, mulheres, índios, homens pretos, pobres, queimam árvores, destroem lares, encerram empregos, fecham universidades. Embebidos de seus próprios egos, prendem e agora mandam soltar, como se fossem senhores e senhoras do tempo e da lei.
Sem hora certa percebem-se presos em espelhos que multiplicam suas imagens distorcidas e reais infinitamente, já não cabem máscaras. Não são nada, não mandam em nada.
O espelho quebrou, a sorte está lançada ou seria laçada?
Professora, militante, escritora
Mara Emília Gomes Gonçalves é formada em Letras pela Universidade Federal de Goiás. Gestora escolar, professora, militante, feminista, negra. Excelente leitora, escritora irregular. Acompanhe-a também em seu blog: LEITURAS POSSÍVEIS.
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