Saramago: conhecedor exímio do ofício de escritor

Como me prometi, venho devorando a biblioteca de literatura que fui constituindo ao longo do tempo. Agora, acabo de ler O homem duplicado (Saramago, Cia. das Letras, 2002). Arrependo-me de não o ter lido antes. Teria exemplos inúmeros do discurso indireto livre, que aparece com frequência no desenvolvimento da narrativa, em que o narrador se assume como autor, como escritor. No marasmo da ação da personagem Tertuliano Máximo Afonso, o tempo se preenche com as reflexões do narrador, que conduz a trama que cria. Dentre estas reflexões, há uma que remete a uma semiologia a ser desenvolvida:

“… Neste meio-tempo a palavra tinha sido dada ao professor seguinte, e, enquanto este, ao contrário de Tertuliano Máximo Afonso, discorre com facúndia, propriedade e proficiência, aproveitemos para desenvolver um pouco, pouquíssimo para o que a complexidade da matéria necessitaqria, a questão dos subgestos, que aqui, pelo menos tanto quanto é do nosso conhecimento, pela primeira vez se levanta.”(p.46)
 
Para além das opções formais (longos parágrafos narrativos entremeados de diálogo das personagens, entre si ou com o senso comum; o emprego de apenas dois sinais de pontuação, a vírgula e o ponto final), Saramago nos dá excelente exemplo da exotopia na relação autor-heroi de que tratou Bakhtin. Há outros exemplos, mas a passagem a seguir me parece lapidar:
 
“… António Claro, até agora, e apesar das inúmeras voltas dadas ao assunto, não conseguiu chegar a um traçado razoalvemente satisfatório de um plano de acção merecedor desso nome. No entanto, o privilégio de que goazamos, este de saber tudo quanto haverá de suceder até à última página deste relato, com excepção do que ainda vai ser preciso inventar no futuro, permite-nos adiantar que o actor Daniel Santa-Clara fará amanh~´a uma chamada telefónica para casa de Maria da Paz… ” (p. 244).
 
Quem ainda não leu O homem duplicado estará perdendo muito, como eu que adiei a leitura por nada menos do que quase 14 anos! 
 
 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.