Ninguém desconhece o coração apaixonado dos grandes jornais brasileiros: sempre tiveram um e mesmo candidato à presidência sa república. Quando ele não disputava, engoliam o candidato de seu partido porque sabiam que estes tinham os mesmos compromissos com o “mercado” que tanto defendem.
E agora soou o alarme nas redações: “salvem José Serra”. Quando assumiu o dito assumiu o Itamaraty interinamente, o príncipe Fernando Henrique apressou-se em dizer que Serra se “cacifava” para ser o candidato à presidência pelo PSDB. Naqueles então, o outro andava pelas paredes dos corredores do senado, acuado pelo vazamento das delações da Odebrecht. Fato extraordinário, porque qualquer criança brasileira sabe que a Lava Jato e o chefe Rodrigo Janot arquivarão a denúncia sem qualquer investigação, como convém.
Serra desde o início da gestão no Itamaraty mostrou a que veio. Suas metas são claras e seu modo de agir é extremamente “diplomático”, como todos sabem. Por enquanto ainda não foi comungar em Aparecida e nem brandiu um crucifixo diante do demônio Maduro, presidente da Venezuela. Mas asusme sempre os ares de Torquemada quando se fala na Venezuela.
Eis suas metas: 1. implodir o frágil Mercosul; 2. fechar todas as embaixadas em países pobres em nome do pragmatismo das relações comerciais (o Itamaraty assumiria funções meramente econômicas, de comércio exterior que ele quis transferir para seu ministério, mas perdeu na quebra de braço com Henrique Meirelles, que ocupa o lugar que desejava tanto), em outras palavras, um novo conceito de diplomacia será implementado – tudo pelo compra-e-venda, o resto é bobagem; 3. retirar-se dos BRICS para alinhar-se à geopolítica dos EEUU; 4. terminar com esta bobagem de multilateralismo comercial e cultural, em nome dos interesses das grandes corporações; 5. trabalhar com afinco para realinhar a América Latina a seu papel de quintal do mundo.
Por enquanto ainda não incluiu em seus objetivos assumir explicitamente a doutrina Bush de que o “mundo é um campo de batalha”, mas outros setores começaram o combate ao terrorismo nas Olimpíadas, de modo que o terreno vem sendo cultivando para entrarmos junto à Inglaterra e França nas forças de combate no Irã e adjacências. Teremos que também limpar o terreno interno eliminando terroristas verdadeiros ou fictícios. Enquanto a ditadura militar lutou contra o inimigo interno, os chamados subversivos, a atual é mais sofisticada e faz raciocínios dedutivos: da regra internacional de combate ao terrorismo deduz a necessária guerra aos inimigos internos. Do externo para o interno. Na passada ditadura, os inimigos daqui é que interessavam, nem passava pela cabeça declarar guerra à então União Soviética. Agora declara-se guerra ao terrorismo internacional (leia-se Estado Islâmico) e dela deduz-se a guerra aos “terroristas” do território brasileiro, entre os quais serão incluídos todos os que não rezam pela cartilha divulgada pela Rede Globo.
Enquanto esta meta não se faz prioritária, trabalha Serra em suas metas. Começou seu jogo no Mercosul, desrespeitando suas regras e “proibindo” que a Venezuela assumisse a presidência do grupo. Conquistou apoios fáceis: Argentina e Paraguai. Viajou para o Uruguai – diga-se de passagem, acompanhado por Fernando Henrique porque sabe não ter brilho próprio por estar num governo interino e golpista. Lá tentou comprar o apoio do Uruguai contra a Venezuela, oferecendo parcerias comerciais. O Uruguai se ofendeu com a tentativa de compra – único princípio diplomático que Serra conhece.
Agora recebe no Itamaraty o deputado da oposiçºao venezuelana Luis Florido e o coordenador político do Voluntad Popular que coordena a oposição a Nicolás Maduro (presidente eleito pelos venezuelanos, mas como se sabe Serra detesta quem foi eleito por voto popular, exceto o presidente dos EEUU diante do qual cai de joelhos contrito). Ameaça o governo venezuelano – ato extremamente diplomático – e promete, como fez ao Uruguai – ajuda para reconstruir o país “desfeito esse governo autoritário e ressurgindo a democracia”. Como aqui: segundo ele a democracia ressurgiu no Brasil com o impeachment sem crime de responsabilidade da presidente eleita.
Mas antes deste gesto tão diplomática de oferta de ajuda – como se sabe a economia brasileira vai de vento em popa, estando pronta a ajudar o Uruguai e a Venezuela – veio o fiasco nas Olimpíadas. Anunciou alto e bom som que 54 chefes de governo haviam confirmado a presença na abertura dos jogos no Brasil. Compareceram 18, e entre estes dezoito contam-se cidades-estado como Mônaco e Andorra, expoentes parceiros comerciais do país. Afinal, são paraísos fiscais necessários num futuro breve quando da venda do patrimônio nacional que ainda sobrou do vendaval da privataria tucana do passado.
E pios ainda: além de serem apenas 18 chefes de estado (recordem-se, Hollande retirou-se do Maracanã depois do desfile dos atletas franceses), nenhum quis compartilhar o camarote vip do presidente interino. O espaço teve que ser preenchido por ministros e acólitos nacionais. Nada de conversa com chefes de estado, que tem vergonha de estarem com um presidente que sabem ter chegado à chefia da nação através de golpe de estado como trata toda a imprensa internacional que analisa os fatos e não está comprometida com os chefetes do golpe como a imprensa nacional.
Pois todos estes fiascos do cacifado candidato à presidência da república em 2018 estão desagradando Michel Temer que precisa garantir um mínimo de apoio externo ao golpe. Corre José Serra o perigo de uma demissão, justificada pela citação da delação da Odebrecht.
Ora, à imprensa brasileira bastou que Serra dissesse que Marcelo Odebrecht mente para que a verdade fosse restabelecida. Serra é um santo de altar. Jamais recebeu propinas como se sabe, nem no tremsalão! Os fundos de Mônica Serra devem-se a sua operosa atividade econômica.
Por isso, soa o alarme nas redações dos jornais. Alarme estridente: “salvem o Serra!” O problema dos jornais é que Serra está no lugar errada para produzir “fatos possitivos” porque não tem qualquer capacidade diplomática de construir adesões, somente consegue afugentar parceiros e destruir a imagem do país na diplomacia internacional. Assim, Serra enterrará para sempre o sonho de Fernando Henrique de ser o Secretário Geral da ONU. E enterrará seu próprio sonho de se tornar presidente do Brasil.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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