Ainda outro dia – mais um da minha vida muito breve – eu estava caminhando pelas avenidas e ruas da minha cidade, aferindo e conferindo a degradação ambiental, lubrificada pela ganância do consumismo desenfreado da mítica “fase planetária” dos seres humanos.
Ao chegar em frente a praça, fiquei estarrecido, mais uma vez, depois de muitas tantas vezes. Fiquei triste, indignado, revoltado, inconformado com o desmonte de uma árvore. Uma árvore inteira estava esquartejada, cortadas das pontas dos galhos mais altos até as raízes. O tronco feito em pedaços, roliços para serem queimados em fogões, lareiras, churrasqueiras. A serragem encobria as calçadas. Um fim trágico. Igual à árvore, me senti estraçalhado, todo partido em pedaços.
Caminhei mais um pouco pela praça até uma árvore ainda em pé. Uma arquitetura natural incrível, única. A arquitetura humana jamais foi capaz de desenhar a beleza da arquitetura biológica de uma árvore. Esta árvore em pé, era frondosa, alta, seu tronco robusto, seus galhos copados eram braços abertos, cheios de dedos finos e delicados, pareciam um guarda-sol a proteger e refrescar as pessoas. A árvore parecia estar orgulhosa da sua beleza e do seu potencial de vida para as vidas de todo planeta. As flores desta árvore eram formadas em cachos formosos de cores vermelhas escarlate, amarelas, brancas, eram lindas. Os beija-flores, as borboletas, as abelhas e muitos outros bichinhos voadores, em voos leves, com muito cuidado, sugavam deliciosamente seu néctar. Alimento vital.
Muito comovido, cheguei mais perto e escutei uma voz delicada, suave, amorosa. A voz da árvore. Aí, de forma educada e respeitosa, escutei.
– “Senhores seres humanos, autoproclamados donos e proprietários poderosos e únicos do planeta terra e de tudo que há nele, escutai-me.
SENHORES “ANIMAIS HUMANOS”
Não me cortem Não me desgalhem Não me mutilem Não me derrubem Não me arranquem Não me queimem Não me envenenem Não me matem Quando me cortam Estão praticando Um suicídio coletivo A morte de todos O fim de tudo |
Eu sou a natureza Eu sou o ar refrescante e puro Eu sou a beleza Eu sou o perfume Eu sou o fruto Eu sou o néctar Eu sou o oxigênio Eu sou a vida “viva” Eu sou a sombra fresca Eu sou o alimento Eu sou a casa Eu sou o abrigo.
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SEM MIM
O clima seca
O ar queima
As nuvens desaparecem
A chuva não cai
Os animais morrem
Os pássaros ficam sem lar e sem comida
As borboletas ficam sem lugar para pousar
Os beija-flores sem flores
As abelhas ficam sem néctar
A paisagem fica feia
O planeta terra explode
Acaba a vida “viva”
Eu sou como a criança: só preciso de cuidado,
de amor para crescer e viver
O progresso sem mim – a árvore – morre
Sem mim, vocês todos – senhores humanos – morrem
O vosso dinheiro sem mim não vale nada.
Eu nunca fui
Não sou
Nunca serei
A “porra”.
Depois de escutar a fala honesta e verdadeira da árvore, eu li a crônica do meu amigo e confrade sociólogo, Cândido Grzybowski: “Cuidado e Compartilhamento para uma Vida Sustentável – Cuidado: Coração Invisível da Nova Economia”. Escrito inédito.
Todos deveríamos ler, reeler, sempre com amor e cuidado.
Professor, pesquisador, escritor
José Kuiava é Doutor em Educação pela Faculdade de Educação da Unicamp (2012). Atualmente é professor efetivo- professor sênior da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Planejamento e Avaliação Educacional, atuando principalmente nos seguintes temas: autobiografias.inventário da produção acadêmica., corporeidade. ética e estética, seriedade, linguagem, literatura e ciências e riso.
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